Crítica | Possuída Pelo Mal

Existe uma fascinação bizarra dos asiáticos pela representação dos cabelos em suas respectivas extensões culturais multifacetadas. Para os filmes de terror, temos um prato cheio para a criação de imagens assustadoras, combinadas com figurinos, maquiagem, efeitos visuais e desempenho dramático da pessoa responsável pela representação de personagens que utilizam os cabelos como uma estratégia de se tornar uma imagem mais assustadora. Foi assim em O Grito, O Chamado e praticamente em todos os filmes de terror orientais com espíritos vingativos, bem como as suas refilmagens. Em Possuída Pelo Mal, os cabelos retornam, desta vez, como centro da narrativa, pois a sua presença é fio condutor da maldição que estrutura toda a narrativa. Plano Crítico.

Existe uma fascinação bizarra dos asiáticos pela representação dos cabelos em suas respectivas extensões culturais multifacetadas. Para os filmes de terror, temos um prato cheio para a criação de imagens assustadoras, combinadas com figurinos, maquiagem, efeitos visuais e desempenho dramático da pessoa responsável pela representação de personagens que utilizam os cabelos como uma estratégia de se tornar uma imagem mais assustadora. Foi assim em O Grito, O Chamado e praticamente em todos os filmes de terror orientais com espíritos vingativos, bem como as suas refilmagens. Em Possuída Pelo Mal, os cabelos retornam, desta vez, como centro da narrativa, pois a sua presença é fio condutor da maldição que estrutura toda a narrativa.

Lançado em 2005, sob a direção do estreante Shin-Yeon Won, também responsável pelo texto, o filme nos faz acompanhar a trajetória de Su-Hyeon (Min-seo Chae), uma jovem com leucemia que precisa driblar os incômodos da doença para conseguir levar a sua vida de maneira razoável. Ela vive com a irmã, Ji-Hyeon (Seon Yu), outra jovem com problemas, muda depois que num acidente de carro, a sua garganta foi empalada e a impediu para sempre de exercer a fala. Em determinado momento, há a sugestão do uso de uma peruca, tendo em vista diminuir os impactos visuais causados pelo tratamento quimioterapia.

A solução é louvável, mas o preço a se pagar é alto, pois sendo uma peruca fabricada com cabelo de cadáveres, no bojo de uma narrativa de terror asiático, sabemos que os resultados não serão muito agradáveis. E é tão certo assim. A peruca começa a mudar o comportamento da boa moça, transformando-a numa pessoa desagradável. Inicialmente as coisas parecem bem, com Su-Hyeon numa representação confiante de si mesma. Começa a sair, expõe sinais de esperança, mas a parte macabra ganha destaque ao passo que o filme evolui. É uma gradação de situações catastróficas, vulgares, inesperadas para quem conhece a garota, conduzidos pela música de Kim Dong-eun, compositor que imprime tons igualmente macabros na trilha.

Para quem se recorda de O Olho do Mal, neste filme, os cabelos não surgem apenas como parte da representação das entidades vingativas. Eles são a maldição em si. Assim, Possuída Pelo Mal passeia por relacionamentos conturbados, os dilemas de alguém com uma doença tão destruidora, a ausência de um dos sentidos por conta de um acidente jamais imaginado, além da perda de um dos elementos que impede o atendimento aos desejos básicos de uma pessoa numa situação de má saúde: a vaidade. Ao exercer a sua vaidade, Su-Hyeon adentra numa maldição sem precedentes em sua vida. Uma situação com direito aos obrigatórios solavancos próximo ao desfecho, com reviravoltas oriundas de todos os lados, caóticas, mas explicativas.

Um dos atos desagradáveis de Su-Hyeon é o flerte com o namorado da irmã. Uma amiga conta para a moça que desconfia da traição de seu marido. O que Su-Hyeon faz? Empresta a peruca para a esposa tomada pela dúvida em seu casamento. O resultado é a morte do casal e o sumiço do item que parece carregar consigo uma energia bastante pesada. Algo como a “peruca assassina”. Mas não é por esse caminho tão ridículo que o filme segue, pois a sua narrativa busca uma explicação plausível para quem não dificulta a “liberdade criativa” e a crença na espiritualidade diante da materialidade. O que saberemos é que a tal peruca pertenceu a um rapaz que no passado, teve um caso com o ex-namorado de Ji-Heyon.

A sua condição homossexual o fez ser espancado por um grupo de jovens machistas que além de machucá-lo fisicamente, também cortaram os seus cabelos. O resultado de tudo foi o caminho do suicídio, algo que o levou a torna-se uma entidade vagante que agora se manifesta através da peruca. É uma forma de se aproximar, por sinal, de seu “amado”, tendo o corpo da cunhada do rapaz como condução. Muita informação? Pois ainda há cenas de luta, gritos, correria, aparições fantasmagóricas e até mesmo um tiro na peruca. No desfecho, entre mortos e feridos, as coisas aparentemente voltam ao normal, mas a ambivalência comum ao cinema de terror asiático não nos deixa acreditar que tudo teve o seu desfecho de maneira tão fácil. Será mesmo que a sobrevivente é Su-Hyeon ou o espírito vingativo tomou o seu corpo?

Possuída Pelo Mal (Gabal) — Estados Unidos, 2005
Direção: Shin-yeon Won
Roteiro: Shin-yeon Won
Elenco: Hyon-Jin Sa, Min-seo Chae, Seon Yu, Kyeong-bin Rah, Jung-sung Lee,
Duração: 106 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.