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Crítica | Preacher – 2X11: Backdoors

por Luiz Santiago
68 views (a partir de agosto de 2020)

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estrelas 4
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Um acerto de contas pode ser colocado em uma série de diversas maneiras. Se for o principal assuno da temporada, todas as janelas irão dar para pontos de vista e versões desse plano particular. Se for algo mais amplo, acompanhado de uma busca por coisas paralelas ao acerto de contas, como no caso desta 2ª Temporada de Preacher, a coisa fica mais complicada.

Eu já havia chamado a atenção para o fato de que esta temporada possui um caráter de busca enraizado, e isso não se limita apenas à paranoia cristã de Jesse em querer achar Deus, o Criador do Universo. Jesse não é um ateu, um pagão, um humano qualquer que pretende encontrar O Senhor e matá-lo ou coisa do tipo. Pelo menos não no alvo da temporada até agora. Ele é um cristão de regras mais… maleáveis, digamos assim. Ele mata, mas sua culpa religiosa o empurra para um pessimismo quase cômico. Ele mente, rouba, comete uma série de outros pecados e crimes mas sempre anda às voltas com a figura de Deus em sua vida. Sua educação (vovó apareceu aqui!) e sua jornada o colocaram diante de uma encruzilhada que é basicamente o grande dilema que indivíduos monoteístas encontram quando consideram as liberdades individuais do mundo. “Defendo e deixo fazer porque é um direito pessoal e exercício do livre-arbítrio ou condeno e impeço fazer, porque eu acho que é pecado?“.

Neste 11º episódio o núcleo da fé se choca com o acerto de contas pessoal que Jesse, Tulipa e Cass têm com eles mesmos e com o grupo. Durante uma parte do serial — infelizmente, o elemento que tornou o ano lamentavelmente lento — cada um perseguiu esses interesses de forma diferente e aqui estamos nós com cada um diante de manipulações externas (Herr Starr manipulando Tulipa para que se afaste de Jesse, o que engajaria o pastor na causa-golpe do Graal) e com consequências de seus próprios atos ou cegueira, como Cass ao lado do filho suspeito de querer fincar as presas em um cachorrinho; ou como Jesse, que já tinha encontrado Deus (o “dálmata” do episódio Damsels) e agora se culpa por não tê-lo realmente visto. A ironia de tudo isso é tão deliciosa que eu imagino fanáticos ou religiosos mais sensíveis e fechados espumando verde e se debatendo no chão (como fizeram com o excelente Dirty Little Secret) com o nível dessas heresias e corruptelas bíblicas que o show nos traz.

Como proposta geral, Backdoors funciona bem. É um daqueles episódios em que o acerto de contas se dá em uma crise já em andamento e ligando-se a elementos de um outro arco, a história da família de Jesse, explorada em Até o Fim do Mundo e que parece ser a grande proposta para a 3ª Temporada de Preacher. A busca de Jesse parece ter encontrado um bom novo caminho e aquela sensação de marasmo, de girar em torno do mesmo núcleo narrativo sem novidade alguma, tem se dissipado rápido. Claro que o estacionamento de Tulipa e Cass no apartamento de Denis e as ações do próprio Denis (deixando de ser um personagem interessante para ser um desafiador chato) não são as melhores escolhas, mas ainda assim existem indicações de andamento e os diálogos e a maneira de expor esses personagens também mudaram de tom. O carro da Soul Happy Go Go foi retirado do pântano, o Santo está desaparecido — ou nem tanto, como vemos no final do episódio — e o plano para separar Tulipa e Jesse parece chegar a um novo patamar.

As cenas no apartamento de Denis e no escritório de Herr Starr são as melhores em termos visuais. Na primeira, uma fotografia saturada de tons marrons e grandes planos, mostrando cada um em um ponto da sala, chama a nossa atenção. Até o movimento dos atores pelo apartamento é bem coreografado dentro de um mesmo plano, mostrando a predileção do diretor Norberto Barba por esse tipo de montagem interna. Já no escritório de Starr observamos planos mais curtos, com de ângulos que dão para o público a noção de desconforto e ansiedade dos dois homens ali envolvidos. E aqui é importante chamar a atenção para o que acontece no final daquela sequência, quando Jesse sai da sala de Starr e dá a ordem aos funcionários do Graal, mas há um ruído na voz de Genesis e eles não obedecem, a priori. Considerando que tivemos as ótimas cenas no passado do pastor, com ele dentro da caixa (cenas com linda fotografia esverdeada e planos em contra-plongée na avó, mostrando sua superioridade maligna pelo olhar de Jesse ainda criança; além da ocultação de seu rosto), já pensamos que alguém a serviço dos L’Angelle está próximo.

O ponto fraco aqui é mesmo o Inferno. A longa sequência sobre o passado de Hitler foi uma perda absurda de tempo e isso será ainda pior se isso não tiver qualquer ligação com o restante da história até o finale. Apesar de uma ou outra tomada ali ser interessante, a boa direção não oculta a terrível proposta do roteiro para este lado da trama. Não vejo a hora de Eugene sair logo daquele lugar, porque suas sequências têm quebrado demais o ritmo dos episódios. Não falta muito para acabar e o que eu menos quero é ver a série perder tempo com trivialidades em vez de desenvolver o mutirão de coisas interessantes sugeridas até aqui.

Preacher 2X11: Backdoors (EUA, 28 de Agosto de 2017)
Direção: Norberto Barba
Roteiro: Sara Goodman (baseado nos personagens de Garth Ennis e Steve Dillon)
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Ian Colletti, Pip Torrens, Noah Taylor, Julie Ann Emery, Malcolm Barrett, Ronald Guttman, Justin Prentice, Amy Hill, Sam Medina, George Murdoch, Dominic Ruggieri, Cristine McMurdo-Wallis, Jamie Bernstein, Felipe Fuentes, Clint James, Julie Oliver-Touchstone, Kristina Adler
Duração: 44 min.

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4 comentários

Ricardo 31 de agosto de 2017 - 16:18

Detestei o fato da avó do Jesse parecer uma madame com um chapéu e andar elegante e com um ar mais jovem. Eu já estava na expectativa de ver uma velha decrépita em sua cadeira de rodas. Essa série está mudando demais alguns personagens. Já não bastava mudar completamente a personalidade do pai do Jesse transformando um soldado honrado e durão em um pastor que bate no filho na frente dos outros pra dar exemplo? Daqui a pouco vão transformar a mãe dele em vilã, do jeito que estão alterando toda a sua família! :/

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Luiz Santiago 31 de agosto de 2017 - 16:26

Eu gostei. Para mim isso não teve impacto algum porque a personalidade dela permaneceu exatamente a mesma dos quadrinhos. A roupa e a cadeira de rodas não mudaram isso. Vamos ver o que virá no finale e na próxima temporada.

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Degüello 31 de agosto de 2017 - 01:29

Eu acho que esse segunda temporada tem episódios individuais melhores, mas a primeira funciona melhor como um todo e é mais coesa. Se bem que agora parece que agora a segunda temporada encaixou o ritmo de vez.

Pip Torrens, Julie Ann Emery e Noah Taylor definitivamente foram escolhas sensacionais, não consigo mais imaginar Preacher sem eles.

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Luiz Santiago 31 de agosto de 2017 - 08:22

Concordo com você. Aqui predomina mais a cara do procedimental, enquanto na primeira temporada, a noção de um todo era mais forte, sendo as partes meros detalhes para se chegar a um fim X. Eu acho que as duas formas são válidas, mas como a 1ª foi tão bacana em andamento, devo dizer que fiquei meio frustrado com a mudança aqui, embora ainda esteja achando a série ótima.

E sim, as escolhas para o elenco foram ótimas. Só a parte do Hitler do Noah Taylor que não tem me descido muito no roteiro…

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