Crítica | Preacher – 4X03: Deviant

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É por episódios como Deviant que nós temos a mais certeira convicção de que Preacher nos fará uma falta enorme. Um dos motes da série é a transformação da obra de Garth Ennis e Steve Dillon em uma busca que em tudo está fadada a falhar, uma vez que Deus sabe se esconder, mas que os personagens — especialmente Jesse — teimam em insistir buscando. Desde o fim da 1ª Temporada, a ideia de ir atrás do Deus fujão prenunciava uma caminhada cheia de absurdos e insanidades, como de fato acabou acontecendo. E daí para frente, tudo enlouqueceu da melhor maneira possível. Isso fará falta.

Algo interessante dessa última Temporada é a abordagem mais classuda por parte dos diretores e roteiristas, adotando o espetáculo como parte de algo mais sério, uma espécie de thriller herético que já mostra uma porção de compensações e que promete caminhar para um grande final. Dito isto, temos em Deviant um dos capítulos mais divertidos de toda a série, onde pouco contexto e muita ação direta nos é dado, algo que tem o seu impacto em torno da construção narrativa, mas que à guisa de pagamento nos põe em contato direto com esses indivíduos matando-se ou ferindo-se uns aos outros, com destaque máximo, no caso, para a gloriosa sequência de Jesse na casa de Jesus De Sade.

Kevin Hooks foi muito inteligente na hora de criar uma crescendo visual para a luta. Todos sabem que cenas de ação funcionam bem quando existe uma inteligente e bem coreografada maneira de fazer com que os enfrentamentos ou a fuga aconteçam em progressiva intensidade. Aqui, adotando um estilo de ampliação cênica, o diretor começa focando em Jesse simplesmente socando um ou outro personagem, o que já é interessante, mas nada demais. E desse início simples, avança para algo realmente incrível.

A montagem corta para um plano mais aberto e então a coreografia alcança uma marca mais expansiva, agora com Jesse usando a parede ou outros acessórios do corredor como elementos de luta, ao mesmo tempo que mais e mais esquisitos entram para o jogo e os cortes rápidos fazem o papel de imprimir intensidade ao momento. Num terceiro estágio, vemos a câmera plano geral, com o diretor de fotografia usando uma lente que captura a cena como se fosse um tríptico vivo, um tableaux vivant hilário e esteticamente sensacional ao som de música barroca e depois, de rock. No corte para a fase final do embate, o diretor optou por mover a câmera em linhas retas, agora com a montagem fazendo o plano/contra-plano para mostrar cenas gore. Definitivamente uma das melhores decupagens de uma cena de luta que eu já vi na TV em safras recentes.

Eu só gostaria que o roteiro de Sara Goodman não tivesse segurado as rédeas com os blocos de Tulip e Cassidy, em Masada. Estes são os únicos momentos do episódio em que a gente sente problemas de organicidade, encadeamento, avanço dramático e ritmo, em oposição a todo o restante. Isso não significa que são momentos ruins, apenas muito mais lentos do que deveriam e com quase nenhuma informação realmente relevante para a colocação deles na temporada (me desculpem, mas uma origem de Cass a essa altura do campeonato não rolou para mim não…). Imagino, porém, que as coisas devem avançar também com esses personagens a partir do próximo episódio.

E ainda como destaque, não posso deixar de falar da hilária cena de Herr Starr conversando com Hoover 2 (Aleks Mikic), da hilária e tensa sequência de Eugene com o Santo dos Assassinos (eu amo a incômoda dinâmica entre esses dois!) e da aparição maravilhosa de Hitler no final do episódio, com uma atuação brilhante de Noah Taylor, imprimindo toda uma nova postura ao seu posto de Líder do Inferno… Agora parece que o primeiro ciclo de eventos da temporada se ajusta com o “tempo presente” dos roteiros, com a queda do avião de Jesse. Provavelmente o cerne desta última temporada começará a ganhar corpo agora. Vem coisa aí.

Preacher 4X03: Deviant (EUA, 11 de agosto de 2019)
Direção: Kevin Hooks
Roteiro: Sara Goodman (baseado nos personagens de Garth Ennis e Steve Dillon)
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Graham McTavish, Ian Colletti, Pip Torrens, Noah Taylor, Julie Ann Emery, Mark Harelik, David Field, James Smithers, Ditch Davey, Kaan Guldur, Christopher Brown, Aleks Mikic, Brian Lipson, Francesca Waters, Conor Leach
Duração: 41 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.