Crítica | Preacher – 4X10: End of the World

Preacher-4x10-2plano critico fim

  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios. E leia aqui as críticas dos quadrinhos.

E chegamos ao fim…

Depois de quatro temporadas — e de um ano final que poderia ser excelente, mas se manteve timidamente acima da linha do aceitável — Preacher chegou ao fim. Como era de se esperar, a temática deste último ano foi centrada na ideia de “fim do mundo“, colocando a busca de Jesse por Deus em xeque, revalidando uma porção de obstáculos para que isso acontecesse, como a própria vontade divina, o Santo dos Assassinos e o Graal; e criando-se um espetáculo divino cheio de símbolos loucos, tudo parte do plano do Criador, que na ânsia de ser amado e não ter mais preocupação com suas criaturas, esperava acabar com a humanidade e repovoar a Terra com os bichinhos nunca mostrados que inventava em sua casa sobre rodas.

End of the World é um episódio honesto em sua essência. Não grandioso, não marcante e nem de perto o melhor episódio da série, nem da temporada. Mas um episódio que faz jus à sua proposta. Ele segue imediatamente os ganchos de Overture e, no esqueleto, entrega aquilo que prometeu entregar: um “show do Armagedom“, a preparação para a entrada do Messias (o filho de Jesus) e o possível fim da humanidade. Claro que o espectador sabia que o plano de Deus seria frustrado pelo trio de encrenqueiros e é justamente esse lado da história que torna o episódio “apenas bom”, uma tag aceitável para qualquer tipo de episódio menos para o Finale de uma série que tanta coisa excelente nos deu ao longo dos anos. E pior: com Sam Catlin na direção e no roteiro!

O mesmo homem que nos presenteou com os excelentes Finales Call and Response (1X10), The End of the Road (2X13) e a obra-prima The Light Above (3X10), encerra o show com um aspecto familiar incompleto, insosso, como se faltasse conteúdo para sustentar o que vemos na tela, ou seja, o único Finale fraco da série. E por que isso? A primeira resposta seria uma clara situação de armadilha de roteiro, pois o que temos aqui é o resultado de construção da temporada. É certo que o texto poderia ousar na abordagem para o final, especialmente na segunda metade (a mais fraca), mas ainda assim, a estrutura seria a mesma. A segunda resposta viria com algo mais pontual, na forma como Sam Catlin resolveu concluir os arcos, passando pela violência e chacota em alguns — como é de praxe na série — mas não sabendo o que fazer com outros, vide a maneira como ele expõe o final de Eugene e como encerra a jornada de Cass.

Todo mundo sabe que quanto mais tempo um personagem passa longe da tela ou quanto mais tempo transcorrido entre uma cena e outra (no final, a elipse é de 40 anos!) mais lacunas aparecem para o roteiro preencher. O público precisa se reconectar com esses indivíduos, perceber a sua mudança, entender o novo momento de modo que ele se justifique como resultado de uma caminhada que acompanhamos por bastante tempo. Só que não temos isso aqui. A preparação para o final é até bem feita — dentro do que se tinha para trabalhar — mas os saltos temporais nos distanciam dos personagens sem dar a eles um merecido bom final. O único que realmente ganha um ponto de chegada sólido é o Santo dos Assassinos. O restante deixou para trás a sensação de que perdemos uns 5 episódios de narrativa no meio de sua linha do tempo.

A parte estética mais bem pensada desse final foi a de luta no momento em que o Messias/Humperdoo desiste de entrar no palco. A montagem ali faz um excelente trabalho de composição de quadros, lembrando-nos aquela soberba sequência de Deviant. Para além desse momento, não temos mais nada de grande destaque. Sendo condescendente com o episódio, a gente poderia destacar a maneira “circular” como a conversa de Deus e Jesse acontece, mas com um texto daqueles? Com falas desencontradas, mal editadas e sem fazer jus ao encontro? Definitivamente não! Não há direção que salve algo assim. Figurinos e maquiagem estão, como sempre, excelentes, e eu gosto muito da direção de fotografia em Masada, pelos contrastes de cor bem intensos entre um espaço e outro, o que não acontece no restante das cenas na Terra.

A busca por Deus foi um grande movimento em Preacher, assim como a promessa de fim do mundo. Juntos, esses dois objetivos deveriam trazer um final épico, mas o que tivemos foi só um final decente, algo pelo que não dá para agradecer, já que “resultado ok” é a obrigação dos produtores. A série que se marcou pelo humor ácido, pelas heresias muito bem formuladas e pela criatividade na hora de expor uma situação, mas encerra-se de forma burocrática, fazendo do encontro de Jesse com Deus uma das cenas mais chatas do show, assim como a “programação do Apocalipse“, outra grande promessa e que tem uma preparação infinitamente melhor que a conclusão. E assim nos despedimos. Apesar de tudo, foi uma boa jornada, e agora podemos falar sobre todo o processo, uma vez que chegamos ao fim. É isso. Adeus, Preacher!

Preacher – 4X10: End of the World (EUA, 29 de setembro de 2019)
Direção: Sam Catlin
Roteiro: Sam Catlin (baseado nos personagens de Garth Ennis e Steve Dillon)
Elenco: Dominic Cooper, Joseph Gilgun, Ruth Negga, Graham McTavish, Ian Colletti, Pip Torrens, Noah Taylor, Julie Ann Emery, Mark Harelik, Tyson Ritter, David Field, Miritana Hughes, Sue-Ellen Shook, Christopher Kirby, Sally McLean
Duração: 41 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.