Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Precisamos Falar Sobre o Kevin

Crítica | Precisamos Falar Sobre o Kevin

por Guilherme Coral
967 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Baseado no romance homônimo da autora Lionel Shriver, Precisamos Falar Sobre o Kevin nos mostra a tentativa de racionalização de uma mãe sobre os feitos de seu filho, que acabaram o colocando na prisão. É uma indagação sobre o que transforma um psicopata no que ele é: a criação, os acontecimentos ao longo de sua vida, ou ele simplesmente nasceu assim? Apesar de ser uma ficção, o filme conta com uma dose de realidade assustadora, ao passo que chegamos efetivamente a acreditar que se baseia em fatos. Mas, pensando por certos aspectos, ele realmente se baseia.

O longa-metragem tem início com Eva Khatchadourian (Tilda Swinton) em uma espécie de festival, no qual carne com molho vermelha é jogado nas pessoas, já explicitando a ênfase nessa cor que permanece ao longo de toda obra, ao passo que em praticamente todas as cenas temos algo de cor vermelha, sempre nos lembrando da violência – ora discreta, ora totalmente exposta – que permeia toda a narrativa. Assistimos uma mulher completamente traumatizada e logo descobrimos que seu filho está na prisão. A partir daí, com um tempo sempre subjetivo, pulamos do passado para o presente inúmeras vezes, como se a protagonista buscasse entender o que ela poderia ter feito para provocar tudo aquilo.

Precisamos Falar Sobre o Kevin conta com uma atmosfera muito similar àquela de Elefante, de Gus Van Sant. Desde os primeiros minutos sabemos que algo muito errado vai/ está para acontecer, somente não sabemos exatamente o que. Essa angústia nos mantém completamente vidrados na tela e aos poucos as respostas nos são oferecidas. A princípio, o roteiro de Lynne Ramsay (que também dirige o filme) e Rory Stewart Kinnear nos mantém em um estado evidente de confusão – precisamos batalhar para efetivamente entender o que está acontecendo e, com o tempo, conseguimos. Esse estado, naturalmente, reflete o da personagem principal, que também se perde no passado a fim de obter respostas.

Chega a ser assustador como toda a cidadezinha onde Eva mora a culpa. Seu nome, obviamente, não vem por acaso – a culpada do pecado inicial – , quando ela própria é possivelmente a maior vítima de toda essa história. Sua relação complicada com Kevin (Ezra Miller, nos trazendo a encarnação perfeita de um jovem problemático), desde sua infância, chega a ser desconfortante, aos passos que ele sempre dera muito trabalho para a mãe e, apesar de seus acessos de raiva, Eva sempre estivera buscando se relacionar com o filho. A obra, nesse quesito, é corajosa, ao não nos oferecer uma resposta clara sobre a personalidade do filho, nos deixando tirar as próprias conclusões.

Swinton, também, realiza um trabalho digno de nota e fornece grande profundidade ao seu personagem – sua angústia chega a ser palpável e a mulher que vimos nos primeiros flashbacks é outra completamente diferente da que temos no tempo presente. Nela conseguimos sentir, porém, um verdadeiro amor pelo seu filho, apesar de tudo. Constantemente ela tenta se aproximar dele e a maioria das vezes sem resultado. Mas por trás disso tudo há um aspecto até bastante perturbador – somente a Eva, Kevin demonstrava quem realmente era, à sua própria maneira era dela de quem ele mais “gostava” e suas ações podem ser interpretadas como uma forma de constantemente chamar a atenção da mãe (ainda que em forma de tortura). O fato do personagem tê-la deixado viva é uma prova disso, uma forma distorcida de dizer que a ama, ao mesmo tempo que a exclui de qualquer círculo social, deixando somente ele próprio em sua vida.

Além do roteiro, a direção de Lynne Ramsay é outro fator que imprime grande subjetividade ao longa-metragem. Com uma decupagem que foca quase que inteiramente em Eva, entendemos desde o princípio que esse é o ponto de vista dela, os flashbacks são, na realidade, lembranças. A câmera, mais de uma vez, oculta inúmeros acontecimentos bem representando a inabilidade da protagonista de ainda lidar com eles, simbolizando a dor em ter de reviver esses fatos. É graças a esse foco que passamos a entender mais da finalidade da cor vermelha no filme, não se trata apenas da violência perpetrada por seu filho, como a das pessoas ao seu redor em relação a ela e, também, do amor de uma mãe, que coloca a culpa em si própria pelos traumáticos acontecimentos fora de seu controle.

Precisamos Falar Sobre o Kevin se encerra, então, com uma de suas cenas mais tocantes, quando o menino, assustado com o fato de ter de ser movido para uma prisão de adultos, enfim, se entrega ao abraço de sua mãe, revelando, mais uma vez, que nos momentos de maior fraqueza, ele se entrega a única pessoa de quem, à sua própria maneira, realmente gosta. Temos aqui um filme intimista sobre uma questão muito presente em nossa realidade, que cada vez mais nos abre mais questionamentos acerca dos motivos que levam um, chamado psicopata, fazer o que ele faz, quando, na verdade, ele próprio não tem essas respostas.

Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin) – EUA, 2011
Direção:
 Lynne Ramsay
Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Stewart Kinnear (baseado no livro de Lionel Shriver)
Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Ashley Gerasimovich, Siobhan Fallon Hogan
Duração: 112 min.

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23 comentários

JC 4 de julho de 2020 - 15:17

Engraçado, até ler a crítica, tive um ponto de vista diferente porque deixou ela viva.
Talvez odiasse/amasse tanto que fez questão de deixar ela viva.
A maior tortura que poderia fazer com ela, seria deixar viva depois de tudo que o filho amado dela vez.

E a incapacidade do pai de podar o comportamento do guri não pode ser deixado de lado também. Praticamente omisso.

Filmão!

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MATHEUS 21 de outubro de 2018 - 18:10

Acabei de assistir. Um filme que belisca uma questão importante mas não responde… Porque alguém nasce com uma predisposição tão alta pra desenvolver uma personalidade psicótica?

Ótima crítica, Coral.

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Vânia Dias 7 de outubro de 2017 - 12:15

Até que pode uma pessoa pode ser responsabilizada pelos atos de outra. Até que ponto a maldade nasce com uma pessoa e até que ponto a sociedade, a estrutura familiar e a educação podem interferir na índole de alguém? Uma mãe pode ser penalizada por algo que o filho fez? O filme nos causa um sentimento de desconforto e perturbação. Excelente Filme!! =)

Responder
Bia Mendonça 14 de novembro de 2016 - 03:52

Adorei a crítica! perfeita e muito sensível. Parabéns.

Responder
Bia Mendonça 14 de novembro de 2016 - 03:52

Adorei a crítica! perfeita e muito sensível. Parabéns.

Responder
Guilherme Coral 14 de novembro de 2016 - 12:59

Muito obrigado, Bia!

Responder
Guilherme Coral 14 de novembro de 2016 - 12:59

Muito obrigado, Bia!

Responder
H-Alves 15 de agosto de 2016 - 20:09

Crítica incrível! O filme pra mim é 10/10, só queria ressaltar que o motivo de eu resolver ver o filme foi o Ezra Miller que é um amorzinho, mas eu fiquei impressionada mesmo foi com o ator que faz ele criança.
Pois o Kevin já adolescente, nós já sabiamos no que ele iria se transformar, mas uma criança não, ela ainda está sendo ¨moldada¨ e esse pequeno ator conseguiu demonstrar toda uma certeza de que SIM esse pequeno ¨anjinho¨ iria se tornar um grande fdp ao crescer.
Essa questão sobre se a mãe amava ele ao não, eu sou do time de acho que ela até poderia amar, mas não sabia demonstrar. Pelo menos não da forma que estamos acostumados ver uma mãe tratar uma filho. Ou seja, não achei ela amorosa e sim um pouco indiferente, enquanto que com a outra filha podemos ver que a situação é bem diferente.

O livro está na minha lista, e já desconfio que será um desses em que eu não consigo me decidir qual será meu favorito, livro ou filme.

Responder
Celio Junior 26 de setembro de 2019 - 16:47

“Essa questão sobre se a mãe amava ele ao não, eu sou do time de acho que ela até poderia amar, mas não sabia demonstrar. Pelo menos não da forma que estamos acostumados ver uma mãe tratar uma filho. Ou seja, não achei ela amorosa e sim um pouco indiferente”

Acredita que estou passando com isso mas com a minha namorada ? Nunca passei por isso antes e isso está me consumindo e me deixando muito desanimado :/

Responder
Gabriel Leão 24 de fevereiro de 2021 - 01:11

Essa questão do amor de mãe está atrelada aos conceitos cristãos da sociedade, de que a mãe tem de ter o amor incondicional e inabalável pelo filho, como Maria tinha por Jesus, e aplicando esse conceito a mulheres em geral, cujo dever seria o de maternar, e qualquer comportamento levemente fora desta diretriz é condenado sem piedade, como acontece com a protagonista. A prisão dela é social, por que não cumpriu a sua função de “criar bem o seu filho”, e nada se fala da responsabilidade do pai.

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H-Alves 15 de agosto de 2016 - 20:09

Crítica incrível! O filme pra mim é 10/10, só queria ressaltar que o motivo de eu resolver ver o filme foi o Ezra Miller que é um amorzinho, mas eu fiquei impressionada mesmo foi com o ator que faz ele criança.
Pois o Kevin já adolescente, nós já sabiamos no que ele iria se transformar, mas uma criança não, ela ainda está sendo ¨moldada¨ e esse pequeno ator conseguiu demonstrar toda uma certeza de que SIM esse pequeno ¨anjinho¨ iria se tornar um grande fdp ao crescer.
Essa questão sobre se a mãe amava ele ao não, eu sou do time de acho que ela até poderia amar, mas não sabia demonstrar. Pelo menos não da forma que estamos acostumados ver uma mãe tratar uma filho. Ou seja, não achei ela amorosa e sim um pouco indiferente, enquanto que com a outra filha podemos ver que a situação é bem diferente.

O livro está na minha lista, e já desconfio que será um desses em que eu não consigo me decidir qual será meu favorito, livro ou filme.

Responder
Junior Oliveira 12 de agosto de 2016 - 10:06

Filme assustador, principalmente pela atuação da Swinton no presente. Quase cinco anos e continua realmente atemporal.

Responder
Junior Oliveira 12 de agosto de 2016 - 10:06

Filme assustador, principalmente pela atuação da Swinton no presente. Quase cinco anos e continua realmente atemporal.

Responder
Guilherme Coral 12 de agosto de 2016 - 13:18

Assino embaixo, Junior!

Responder
Guilherme Coral 12 de agosto de 2016 - 13:18

Assino embaixo, Junior!

Responder
Marcio Roberto 11 de agosto de 2016 - 23:22

Excelente crítica! É praticamente tudo que pensei e achei do filme, que curti bastante também. A atuação de Ezra também foi um ponto alto do filme, embora a estrela e a protagonista da história seja Tilda e sua personagem, que de fato é a maior vítima da história toda. No fim das contas, foi como Kevin disse, ela não o amava de fato, ela também não estava pronta pra ser mãe, infelizmente… Segundo os cientistas, psicopatia é uma parte da personalidade de algumas pessoas, algo que nasce com elas e não há uma “cura” porque não é bem uma doença, até porque nem todos os psicopatas são necessariamente assassinos ou coisa do tipo. No fim é muito difícil mesmo de saber ao certo qual o problema do Kevin, afinal o ser humano é tão complexo.

Responder
Guilherme Coral 12 de agosto de 2016 - 13:20

Realmente, Marcio, isso que torna o filme tão interessante. Em ponto algum sabemos, de fato, o que ele é!

Responder
Guilherme Coral 12 de agosto de 2016 - 13:20

Realmente, Marcio, isso que torna o filme tão interessante. Em ponto algum sabemos, de fato, o que ele é!

Responder
Marcio Roberto 11 de agosto de 2016 - 23:22

Excelente crítica! É praticamente tudo que pensei e achei do filme, que curti bastante também. A atuação de Ezra também foi um ponto alto do filme, embora a estrela e a protagonista da história seja Tilda e sua personagem, que de fato é a maior vítima da história toda. No fim das contas, foi como Kevin disse, ela não o amava de fato, ela também não estava pronta pra ser mãe, infelizmente… Segundo os cientistas, psicopatia é uma parte da personalidade de algumas pessoas, algo que nasce com elas e não há uma “cura” porque não é bem uma doença, até porque nem todos os psicopatas são necessariamente assassinos ou coisa do tipo. No fim é muito difícil mesmo de saber ao certo qual o problema do Kevin, afinal o ser humano é tão complexo.

Responder
Bruno 11 de agosto de 2016 - 22:13

Esse filme é sensacional! Tilda e Ezra estão excelentes! E eu preciso ler o livro, rs

Responder
Guilherme Coral 12 de agosto de 2016 - 13:20

Excelentes mesmo! Também preciso ler.

Responder
Guilherme Coral 12 de agosto de 2016 - 13:20

Excelentes mesmo! Também preciso ler.

Responder
Bruno 11 de agosto de 2016 - 22:13

Esse filme é sensacional! Tilda e Ezra estão excelentes! E eu preciso ler o livro, rs

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