Crítica | Predadores Assassinos

Os répteis são antagonistas potencialmente eficientes em narrativas cinematográficas. Basta a junção de três elementos básicos: personagens que importem, boa condução estética e trilha sonora impactante. De todos os filmes com jacarés e crocodilos, Predadores Assassinos é um dos poucos que consegue a proeza de unificar a tríada com elementos adicionais, isto é, boa direção, edição e consciência de todas as limitações que poderiam tornar o filme um exercício fracassado da linguagem audiovisual. Tal como o frenético Morte Súbita, a produção dirigida pelo francês Alexandre Aja injeta ânimo ao subgênero horror ecológico, numa comprovação da validade deste tipo de narrativa quando os realizadores estão preocupados em entregar algo de qualidade.

Guiado pelo roteiro escrito por Shawn Rasmussen e Michael Rasmussen, Predadores Assassinos parte da seguinte premissa básica: pai e filha encontram-se ilhados em casa após o anúncio da chegada de um furacão nível 5 numa região da Flórida. Juntamente com as águas caudalosas de um dique que arrebentou, há a presença de numerosos jacarés enormes, oriundos da área pantanosa dos arredores. Numa luta sagaz pela sobrevivência, a dupla observará quase todas as chances escoarem, numa tensa e ofegante batalha entre seres humanos e forças da natureza. Dentro da atmosfera de espaço cênico limitado, semelhante aos intensos Medo Profundo e Águas Rasas, Predadores Assassinos desenvolve a sua dinâmica que mescla aventura e horror.

As coreografias são bem elaboradas, adequadas para as necessidades dramáticas e perfil da protagonista Haley (Kaya Scodelario). Logo que o filme começa, o clima cinzento e os ventos aterrorizantemente uivantes denuncia que ela precisará de muita força para sobreviver. Em conversa com Beth (Morfydd Clark), somos informados que os pais se separaram e que tudo isso criou um vácuo na estrutura familiar. Preocupada, ela segue até a casa do pai, Dave (Barry Pepper). Mesmo ciente dos perigos na tempestade, ela segue a sua intuição em busca de respostas sobre o pai que não atende aos telefonemas. Entre um flashback e outro, descobrimos a vida atlética da jovem e o papel de incentivo e treino do pai no passado.

Acompanhada pela condução sonora da dupla formada por Max Aruj e Steffen Thum, trabalho erguido com cordas arranhadas e sintetizadores que reforçam a sensação de perigo e estabelecem uma paisagem sonora para todo o filme, Haley chega ao lar da sua família que agora é apenas uma referência do passado. Investiga cada cômodo do local, em busca de seu pai misteriosamente desaparecido. O celular encontrado num dos cantos da casa sinaliza que algo de fato está muito errado. Resta apenas o subsolo, espaço que não podemos chamar de porão, mas funciona como uma área de acesso complexo, apenas para resolução de questões técnicas do funcionamento da casa. É lá que ela descobre o seu pai, ferido, além de ser surpreendida por dois enormes jacarés.

Deste ponto em diante, o filme divide-se entre horror e aventura. Com poucos momentos para alguns diálogos necessários, ela e o pai precisam garantir a sobrevivência por meio da inteligência e compreensão da situação a que estão submetidos. A direção de fotografia de Maxime Alexandre cumpre a sua tarefa de tornas filmável os espaços apertados do subsolo e apresenta bom resultado em seus movimentos e enquadramentos, além de posicionar-se bem em prol do desenvolvimento da tensão. O uso do zenital, por exemplo, garante que possamos acompanhar os pormenores da cada cena de perseguição, trabalho que cresce por conta da boa edição de Elliot Greenberg, ágil, mas sem nunca tornar as cenas um emaranhado de cortes bruscos.

Em termos dramáticos, Predadores Assassinos é uma história que oferta simplicidade, mas traz subtexto para diversas discussões externas, dentre elas, a fragilidade dos laços familiares, traumas, solidão, além de apresentar personagens repletos de problemas pessoais intensos, mas que nunca perdem a vontade de sobreviver para resolvê-los. Haley é uma excelente heroína, alguém que nos faz se importar com a sua conduta e desejar que vença a batalha épica que marcará para sempre a sua vida. Junto ao seu pai há “Sugar”, a cadela “carismática” que nos faz torcer por sua vitória junto aos humanos. Dentre a lista de possíveis vítimas, há a dupla de policiais e os saqueadores da loja de conveniências do outro lado da rua, personagens que entrecortam a narrativa para dar intervalo aos sobreviventes situados na hostil parte inferior do piso da casa.

Com design de produção assinado por Alan Gilmore, o filme é uma experiência visual convincente, tamanha a atmosfera construída pela direção de arte de Dragan Klapaveric e também por conta da cuidadosa cenografia de Lucy Eyre, bastante atenta aos detalhes. Cada corredor, porta, adereços e móvel do ambiente, contemplado pela câmera, possui função narrativa. O mesmo pode ser dito da criação dos animais pelos efeitos visuais de Dickon Mitchell e maquiagem de Adrien Morot, responsáveis pelo design das criaturas, monstros assustadores que emitem sons idem. E o melhor: estão constantemente presentes na produção, sem ficar escondido por conta da falta de qualidade, algo comum em filmes do subgênero horror ecológico.

Ademais, Predadores Assassinos é uma experiência cinematográfica intensa, ciente da hora adequada de começar a sua ação e encerrar a sua história. Confesso que as expectativas estavam em alta, haja vista as críticas positivas após a estreia internacional. Não que o filme seja irrelevante, mas acredito que a exposição excessiva aos diversos trailers e outros demais recursos de marketing prejudiquem o impacto ao assistirmos ao produto final. As principais cenas estão na divulgação, então quando assistimos ao seu desenvolvimento, a nossa catarse já está estabelecida, diluída por antecipação. Como desfecho, deixo a relação com Tubarão no uso do POV para algumas passagens dos crocodilos em cenas submersas, referência eficiente e respeitosa ao clássico ponto de partida dos embates entre seres humanos e “predadores assassinos” da natureza.

Predadores Assassinos (Crawl/Estados Unidos, 2019)
Direção: Alexandre Aja
Roteiro: Michael Rasmussen, Shawn Rasmussen
Elenco:Ami Metcalf, Annamaria Serda, Anson Boon, Barry Pepper, Colin McFarlane, George Somner, Jose Palma, Jovana Dragas, Kaya Scodelario, Morfydd Clark, Ross Anderson, Savannah Steyn, Tina Pribicevic
Duração: 87 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.