Crítica | Prelúdio Para Matar

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Dario Argento se debruçou sobre o roteiro de Prelúdio Para Matar enquanto ainda finalizava Le Cinque Giornate, sua dramédia histórica de 1973. Impulsionado pelo bom recebimento da Trilogia dos Bichos, o diretor procurava retornar a alguns temas anteriormente filmados, agora sob uma ótica mais madura — estética e narrativamente –, tendo em especial Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza como a obra com o maior número de ingredientes a serem retrabalhados. E o diretor não estava errado. O clima cheio de tensão e o excelente mistério em torno do assassino mais a forma inovadora e visualmente deliciosa com que as mortes são mostradas reaparecem e encontram a sua verdadeira explosão neste Profondo Rosso,  o melhor e mais instigante filme do cineasta até aquele momento.

A parceria com o fotógrafo Luigi Kuveiller tem aqui um papel de imensa importância para a elevação da obra ao seu deleite visual, a começar da inteligente interação feita entre a sobriedade clássica de alguns cenários versus a linha barroca de todo o restante da obra, que sim, está repleta de exageros — em termos de estranhas possibilidades para os assassinatos — mas todos eles, na minha leitura, muitíssimo bem colocados e coerentes com a proposta da obra. Por mais estranheza que nos causem (a exemplo do pássaro atravessado pela agulha de tricô ou a cena final, com o colar puxado pelo elevador) esses momentos são coerentes com a atmosfera até um tantinho fantasiosa que cobre os assassinatos. Das representações visuais mais sóbrias, o destaque absoluto vai para a recriação da pintura Nighthawks (1942), de Edward Hopper, e mais adiante a colocação de uma mulher, no mesmo bar, recriando a personagem de Automat (1927), do mesmo pintor.

Esses pontos de “paz visual” são importantes porque colocam Carlo, o personagem de Gabriele Lavia, como se tivesse um único problema a ser resolvido (o alcoolismo) e o ambiente ao seu redor indicasse da maneira mais simples possível a decadência do pianista. Notem também que há uma preocupação do fotógrafo e do diretor em capturar aquele local com a mesma intensidade de luz e basicamente sob a mesma marcação de ângulos e planos, deixando claro que ali, apesar de tudo, é um espaço seguro, o lugar onde as coisas se revelam de diferentes maneiras para Marcus, o protagonista vivido por David Hemmings. Como disse antes, o diretor e co-roteirista procurou repensar uma série de elementos de 4 Moscas, reutilizando, por exemplo, a premissa musical (que sinceramente não dá muito certo a longo prazo mas, ao cabo, não interfere significativamente na obra) e fazendo com que o protagonista vivido por Hemmings fosse uma versão mais intensa e interessante que de Michael Brandon em seu giallo anterior.

Tendo sido ajudado por Bernardino Zapponi, porque já não encontrava caminhos interessantes para finalizar o texto, Argento logra avançar com uma premissa até que bem pouco chamativa (embora baseada em reais teorias sobre telepatia, que pulularam nos anos 1970) para uma perturbação psicológica e trauma de infância que estão colocados de uma maneira visualmente exemplar. A trilha sonora — majoritariamente da banda Goblin, com pequenos inputs de Giorgio Gaslini, que abandonou o projeto por divergências com o diretor — é um complemento de imensa importância para o reforço das cenas de assassinato e para a ligação entre os blocos, com uma grande quantidade de transições fascinantes. A busca pelo assassino aqui é também uma jornada de encontros inesperados e aprendizado — a proposital construção de Marcus como um machista é justamente para fazer com que essa opinião sirva de “lição impossível” para ele, especialmente no desfecho.

A memória de um assassinato e o impacto que isso pode ter para uma pessoa é espalhada em diferentes núcleos neste Prelúdio Para Matar, fazendo não só uma excelente construção para revelar o assassino, mas também para mostrar que, ao redor grandes eventos de maldade e perturbações que ferem e matam muita gente, existem ainda pequenas outras infâmias cotidianas, praticadas por crianças e adultos e que jamais serão conhecidas ou terão implicações fora de seu ambiente. O vermelho profundo do título parece ser uma de nossas caraterísticas mais curiosas, a vontade de se vingar, de infligir dor em algumas pessoas, em certas ocasiões… Algo adormecido ou fraco para alguns e  intenso e faminto para outros; mas de uma forma ou de outra, sempre conosco.

Prelúdio Para Matar (Profondo rosso) — Itália, 1975
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Bernardino Zapponi
Elenco: David Hemmings, Daria Nicolodi, Gabriele Lavia, Macha Méril, Eros Pagni, Giuliana Calandra, Piero Mazzinghi, Glauco Mauri, Clara Calamai, Aldo Bonamano, Liana Del Balzo, Vittorio Fanfoni, Dante Fioretti, Geraldine Hooper, Jacopo Mariani, Nicoletta Elmi, Salvatore Baccaro
Duração: 127 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.