Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Prelúdio Para Matar

Crítica | Prelúdio Para Matar

por Luiz Santiago
461 views (a partir de agosto de 2020)

Dario Argento se debruçou sobre o roteiro de Prelúdio Para Matar enquanto ainda finalizava Le Cinque Giornate, sua dramédia histórica de 1973. Impulsionado pelo bom recebimento da Trilogia dos Bichos, o diretor procurava retornar a alguns temas anteriormente filmados, agora sob uma ótica mais madura — estética e narrativamente –, tendo em especial Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza como a obra com o maior número de ingredientes a serem retrabalhados. E o diretor não estava errado. O clima cheio de tensão e o excelente mistério em torno do assassino mais a forma inovadora e visualmente deliciosa com que as mortes são mostradas reaparecem e encontram a sua verdadeira explosão neste Profondo Rosso,  o melhor e mais instigante filme do cineasta até aquele momento.

A parceria com o fotógrafo Luigi Kuveiller tem aqui um papel de imensa importância para a elevação da obra ao seu deleite visual, a começar da inteligente interação feita entre a sobriedade clássica de alguns cenários versus a linha barroca de todo o restante da obra, que sim, está repleta de exageros — em termos de estranhas possibilidades para os assassinatos — mas todos eles, na minha leitura, muitíssimo bem colocados e coerentes com a proposta da obra. Por mais estranheza que nos causem (a exemplo do pássaro atravessado pela agulha de tricô ou a cena final, com o colar puxado pelo elevador) esses momentos são coerentes com a atmosfera até um tantinho fantasiosa que cobre os assassinatos. Das representações visuais mais sóbrias, o destaque absoluto vai para a recriação da pintura Nighthawks (1942), de Edward Hopper, e mais adiante a colocação de uma mulher, no mesmo bar, recriando a personagem de Automat (1927), do mesmo pintor.

Esses pontos de “paz visual” são importantes porque colocam Carlo, o personagem de Gabriele Lavia, como se tivesse um único problema a ser resolvido (o alcoolismo) e o ambiente ao seu redor indicasse da maneira mais simples possível a decadência do pianista. Notem também que há uma preocupação do fotógrafo e do diretor em capturar aquele local com a mesma intensidade de luz e basicamente sob a mesma marcação de ângulos e planos, deixando claro que ali, apesar de tudo, é um espaço seguro, o lugar onde as coisas se revelam de diferentes maneiras para Marcus, o protagonista vivido por David Hemmings. Como disse antes, o diretor e co-roteirista procurou repensar uma série de elementos de 4 Moscas, reutilizando, por exemplo, a premissa musical (que sinceramente não dá muito certo a longo prazo mas, ao cabo, não interfere significativamente na obra) e fazendo com que o protagonista vivido por Hemmings fosse uma versão mais intensa e interessante que de Michael Brandon em seu giallo anterior.

Tendo sido ajudado por Bernardino Zapponi, porque já não encontrava caminhos interessantes para finalizar o texto, Argento logra avançar com uma premissa até que bem pouco chamativa (embora baseada em reais teorias sobre telepatia, que pulularam nos anos 1970) para uma perturbação psicológica e trauma de infância que estão colocados de uma maneira visualmente exemplar. A trilha sonora — majoritariamente da banda Goblin, com pequenos inputs de Giorgio Gaslini, que abandonou o projeto por divergências com o diretor — é um complemento de imensa importância para o reforço das cenas de assassinato e para a ligação entre os blocos, com uma grande quantidade de transições fascinantes. A busca pelo assassino aqui é também uma jornada de encontros inesperados e aprendizado — a proposital construção de Marcus como um machista é justamente para fazer com que essa opinião sirva de “lição impossível” para ele, especialmente no desfecho.

A memória de um assassinato e o impacto que isso pode ter para uma pessoa é espalhada em diferentes núcleos neste Prelúdio Para Matar, fazendo não só uma excelente construção para revelar o assassino, mas também para mostrar que, ao redor grandes eventos de maldade e perturbações que ferem e matam muita gente, existem ainda pequenas outras infâmias cotidianas, praticadas por crianças e adultos e que jamais serão conhecidas ou terão implicações fora de seu ambiente. O vermelho profundo do título parece ser uma de nossas caraterísticas mais curiosas, a vontade de se vingar, de infligir dor em algumas pessoas, em certas ocasiões… Algo adormecido ou fraco para alguns e  intenso e faminto para outros; mas de uma forma ou de outra, sempre conosco.

Prelúdio Para Matar (Profondo rosso) — Itália, 1975
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Bernardino Zapponi
Elenco: David Hemmings, Daria Nicolodi, Gabriele Lavia, Macha Méril, Eros Pagni, Giuliana Calandra, Piero Mazzinghi, Glauco Mauri, Clara Calamai, Aldo Bonamano, Liana Del Balzo, Vittorio Fanfoni, Dante Fioretti, Geraldine Hooper, Jacopo Mariani, Nicoletta Elmi, Salvatore Baccaro
Duração: 127 min.

Você Também pode curtir

12 comentários

Matheus Oliveira 9 de agosto de 2020 - 18:59

Excelente filme, a fotografia e as atuações são maravilhosas e o clima de tensão construído ao longo da narrativa é fantástico. Filmão

Responder
Luiz Santiago 9 de agosto de 2020 - 19:33

Giallo sensacional do Argento. Mostra o quanto ele era muito competente nesse tipo de condução tensa num ambiente artístico lindo de se ver.

Responder
Matheus Oliveira 9 de agosto de 2020 - 23:53

Mais alguma filme nesse estilo que você possa me recomendar?

Responder
Luiz Santiago 10 de agosto de 2020 - 00:41

Se você soubesse o tamanho do sorriso que eu abri aqui agora quando eu li essa pergunta! HAHHAHAHAHAHAHAHAH

Nós temos um Espcial Giallo aqui no site, que eu estou atualizando de modo frequente. Confira aqui: https://www.planocritico.com/especial-giallo-filmes-e-quadrinhos-cinema-hqs/

Agora respondendo diretamente a sua pergunta, posso indicar um Giallo direto e uma homenagem ao estilo feita nos EUA. O primeiro, indico outro do Argento: Suspiria. O segundo, indico um do DePalma: Vestida Para Matar.

Responder
Matheus Oliveira 10 de agosto de 2020 - 14:32

Vou conferir os 2 filmes e dar uma olhada nessas da lista, dps que eu ver, passo pra comentá-los 😂😂😂

Luiz Santiago 10 de agosto de 2020 - 15:31

Tem crítica para os dois aqui no site! Pareça e bora conversar sobre!

Gabriel Carvalho 23 de março de 2019 - 08:22

Cadê a minha crítica de Phenomena? Vai me autorizar quando??

Ótimo texto, btw.

Responder
Luiz Santi⚡GADO 23 de março de 2019 - 14:01

Ainda estou considerando… Muita emoção envolvida preciso pensar, meu querido gafanhoto! AHHAHAHAHAHAHAHAHHHAHAHAHAHAHAHA Valeu!!!

Responder
Rafael Lima 23 de março de 2019 - 02:43

Meu filme preferido do Argento (e por consequência, o melhor Giallo que ele já dirigiu). Engraçado que a primeira vez que assisti nem tinha gostado tanto, mas ele foi crescendo com o tempo. Tem mesmo um resgate de diversos elementos que foram trabalhados na trilogia dos bichos como a questão da memória (e ao mesmo tempo uma sinalização para o futuro, com o flerte com o paranormal), mas tudo é muito bem articulado. O casal protagonista tem química, e David Hemmings é mesmo um dos melhores protagonistas que o Argento já teve. A questão de um “descompromisso” com a realidade que o filme apresenta é sentida mesmo, mas como você bem aponta, é algo claramente intencional dentro da proposta da obra, e funciona maravilhosamente. E a reviravolta final tem um “que” de inteligência e absurdo que eu adoro.

PS: Guardada as devidas proporções, você percebe algumas semelhanças nos personagens do Hemmings aqui e em “Blow Up”? Não sei por que, mas na época fiquei com a impressão que o Argento dá uma piscadela pro clássico do Antonioni aqui.

Ótimo texto, Luis!

Responder
Luiz Santi⚡GADO 23 de março de 2019 - 14:01

Eu fiquei exultante no final. É como tu disse, “um “que” de inteligência e absurdo que eu adoro.” Vejo exatamente da mesma forma. E põe na gente aquele sorriso besta, né? É impressionante.

E quanto a tua pergunta: rapaz, ótimo você tocar nesse ponto, poque eu vejo que não estou louco. Eu juro que até comecei a escrever isso pra abordar indiretamente na crítica, como citação en passant, mas achei que era viagem demais e deixei de lado. No entanto, realmente temos essa mesma impressão aqui, uma piscadela do diretor que é fantástico ver!

Responder
planocritico 22 de março de 2019 - 21:42

Mais boneco assustador???

Esse Argento não sabe fazer nada diferente não???

Abs,
Ritter.

Responder
Luiz Santi⚡GADO 22 de março de 2019 - 21:43

HAHAHHAHHAHAHHAAHHAAHAHA os bonecos do capeta vão te perseguir pra sempre!!!

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais