Crítica | Presença de Ellena

Em Presença de Elena, o espectador tem como material dramático um enredo que segue fielmente a cartilha da psicopatia feminina hollywoodiana, com algumas alterações “ali” e “aqui” para dar um clima próprio para a narrativa. O tal clima, por sinal, é composto por uma atmosfera televisiva barata, semelhante ao período em que os telefilmes eram claramente produções menores em comparação às produções que circulavam nas exibições em salas de cinema, tanto no quesito estético quanto no quesito temático.

Produzido pelo canal Lifetime, rede lançada em 1984 e conhecida por emitir e criar materiais com foco no público feminino, Presença de Elena é um curioso relato sobre a obsessão de uma mulher em relação não apenas a um homem casado, mas também na destruição de seu “lar”. Os créditos iniciais afirmam que a trama é inspirada numa história real, mas não há detalhamento de “quando” e “onde”, apenas que se inspirou num artigo publicado por Marie Brenner.

Logo depois da breve abertura, uma música temática toma as faixas de áudio da produção, concatenada com os sons de um chuveiro forte, momento de apresentação da personagem.  Elena, interpretada por Jenna Elfman, é exposta em meio aos pequenos trechos do seu corpo no banho, bem como por um jogo de sombras externo, realizado pela direção de fotografia de Ron Stannett, esquema que revela pouco, mas deixa um clima de sensualidade com base nas curvas da personagem, delineadas pela sombra firmada na cortina do banheiro.

Mais adiante, Elena é abordada por dois policiais em sua casa. Faz a linha “não compreendo o que está acontecendo” antes de ser detida. É neste momento que o filme faz uma digressão e por meio de flashbacks, flerta com o passado e o presente dos personagens, numa ilustração dos motivos que levaram Elena e David Stillman (Sam Robards) a se encontrar, começo da perseguição que durou bastante tempo e esgotou psicologicamente a todos os envolvidos. No relato dela, eles tiveram um caso. No depoimento dele, ela é uma louca que imaginou toda a intriga. Quem está falando a verdade?

Em seus 90 minutos, Presença de Elena apresenta uma linha narrativa instigante, mas esteticamente irregular. A trilha sonora de Joseph Conlan é razoável, flerta rapidamente com a musicalidade noir, mas não estabelece uma textura auditiva firme. A montagem de Frank Morriss perde o ritmo em alguns trechos, o que não permite maior clima de suspense ao filme. O setor que cumpre bem o seu trabalho é o design de produção, assinado por Michel Proulx, responsável por criar espaços que dialogam com os perfis psicológicos e sociais de cada personagem, além dos figurinos de Luc J. Béland, cuidadoso na construção visual da postura sexual explosiva de Elena Roberts, refletida nas fendas e outros detalhes de seus vestidos.

Dirigido por John Badham, realizador inspirado pelo roteiro de Matthew Tabak, Presença de Elena entretém, mas nunca sai da linha do mais ou menos. Foi um sucesso na era das videolocadoras, o que me permitiu bater as metas constantemente ao inclui-lo no pacote de locação de meus clientes, em especial, nos finais de semana, períodos onde as famílias geralmente se uniam para se deliciar com filmes de suspense com reviravoltas, fórmulas que hoje já estão desgastadas, mas que funcionaram muito bem em determinadas “eras”.

Em suma, não é um grande filme, mas é uma produção que tem uma boa história e traz ainda uma amiga imaginária para a “psicótica da vez”, dando um tom diferencial em relação aos seus antecessores similares, isto é, os clássicos das mulheres que perseguem homens e desejam tirá-los de suas respectivas esposas, noivas e/ou namoradas.

Presença de Elena — (Obsessed) Estados Unidos, 2002.
Direção: John Badham
Roteiro:  Matthew Tabak
Elenco: Jenna Elfman, Kate Burton, Sam Robards, Jane Wheeler, Lisa Edelstein, Vlasta Vrana, Linda Smith, Giancarlo Cantabiano, Sheena Larkin, Holly Uloth, Tyrone Benskin
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.