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Crítica | Presidente (2021)

por Davi Lima
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Presidente

O que torna o documentário Presidente potente na sua natureza temática, de acompanhar as eleições no Zimbábue em 2018 – a primeira depois de 38 anos de regime não democrático – é sua maneira de manter a esperança narrativa dos personagens documentados presente, como uma luta constante pelo alcance democrático. O delinear palpável desse alcance é politicamente desenhado como uma história carismática de transformação em potencial. Quando um dos protagonistas do Movimento pela Mudança Democrática (MDC), Nelson Chamisa, concorrente nas eleições como oposição a permanência do poder do presidente Mnangagwa, do mesmo partido do antigo ditador Mugabe, fomenta uma cisão clássica e heróica para o povo, ornamentada visualmente pela diretora Camilla Nielsson. Mas dentro dos princípios realistas de universo fílmico, até materiais, muito agregados às formas de produzir documentários, a manutenção desse alcance redentivo da fraude política em uma democracia plena e transparente, naturalmente desemboca em uma contradição dolorosa. Por isso, unindo a progressão incessante da narrativa cinematográfica dos democratas pela democracia, mantida por uma montagem de cenas que intenta ser imperceptível para manutenção da esperança, em meio a uma temática real recheada de contradições desesperançosas, o drama potente surge nos cortes de edição, na aparência clara de pausas e olhares que refletem os impactos anti-democráticos.

A primeira imagem do documentário é exatamente o plano de perfil do antigo ditador Mugabe, vestido de militar, enquanto há uma descrição em voice off de retrospectiva introdutória para contextualizar a situação política no Zimbábue. Dessa perspectiva, o clássico sequenciamento se apresenta mostrando o conflito principal de maneira linear, apresentando o golpe de Mnangagwa e o primeiro concorrente dele nas eleições em 2018 chamado Morgan Tsvangirai. E dentro desse mesmo conflito eleitoral um entrave aparece: Morgan falece de câncer. E só assim o Presidente do título do filme aparece com a figura de Nelson Chamisa. Essa continuidade até chegar a Chamisa e seus comícios acochambrados, quase três por dia, em forte agitação, incendeia o filme para um ponto de vista de resolução clássica de um primeiro ato “roteirístico”. O acompanhar do dia-a-dia, ou das últimas semanas eleitorais, com detalhes mínimos quanto a propaganda de Chamisa e seu pedido por uma música mais agitada no seu discurso, junto a alternância entre gravações documentadas e vídeos de registros jornalísticos, fora a montagem de transição temporal, vão não apenas mantendo um sequenciamento organizado e dramaticamente bem dirigido, como mantém uma progressividade narrativa imersiva.

A imersão dita não se refere a características sensoriais mais explícitas de um experiência cinematográfica, como efeitos emocionais de uma trilha sonora, um discurso verbalmente bem engajante, ou alguma elaboração da fotografia que embeleza tecnicamente e deslumbra o espectador. Um dos fatores implícitos do cinema, e que por vezes é necessário que tal fator se subjugue ao papel coadjuvante na percepção de quem assiste, é a montagem. Especialmente em documentário, quando o realismo e o materialismo são enfáticos na produção linguística da obra, a montagem – o olhar de cima de uma pilha de planos fotográficos enfileirados, ou não, que organiza o trilho narrativo que a direção quer que a produção audiovisual tome – quanto mais invisível, mais a manutenção do realismo é possível. Essa invisibilidade parte da crença do espectador que  realmente está acompanhando o processo eleitoral em intensidade, como se estivesse dentro desse universo em 2018 no Zimbábue. 

“A decupagem é, portanto, comandada pelos aspectos dessa realidade”, como diria o crítico André Bazin em seu ensaio sobre a Montagem Proibida. Se um documentário como Presidente precisa da decupagem – o planejamento de filmagem -, ele também precisa da imprevisibilidade, da falta de planejamento para captar o fervor dos momentos e retratar a mesma realidade. Então, nessa antítese em que há essa falta de planejamento imediata, vê-se uma direção apurada da diretora para vislumbrar uma montagem posterior, de preparação do corte da produção cinematográfica e a permanência de aspectos ficcionais de efeito. A tensão, o drama e a expectativa ao longo da narrativa do documentário parte especialmente dessa montagem invisível formulada nessa difícil antítese, que induz o espectador a uma leitura unidirecional, continuada e em desenvolvimento narrativo no tema das eleições, desde os comícios até ao tribunal contra a fraude provocada por Mnangagwa.

Na medida que se fomenta a explicação dos processos de campanha de Chamisa, da fraude eleitoral das cédulas de voto, assim como a contagem de dias no presente acompanhado pelo documentário, cada pausa, cada close-up, e cada plano aberto na fotografia composta pelo filme acentua um drama, um ponto de virada nos atos, e uma perda de esperança cumulativa, como reverso a narrativa geral de crescente esperançosa. Claro, isso é efetivo especialmente para quem não conhece os fatos noticiados no Zimbábue, em vista que muito da perda de efeito desses documentários mais lineares, que documentam o dia a dia de um processo, é quando a “suspensão de descrença na narrativa real” não existe pelo prévio conhecimento do espectador. 

Dessa forma, a expectativa na vitória do presidente Chamisa, que era chamado assim antes mesmo de ser eleito, vira apenas mais um acompanhar de vídeos de alguém que foi para o Zimbábue em 2018 e que gravou algumas cenas inimagináveis. Nesse sentido, o efeito da montagem invisível se torna realmente invisível. Apesar disso, o documentário, quando coloca divisões diárias, com datas e contagem em tela, ameniza essa entrega total a uma narrativa de desconhecimento do público sobre os fatos, e usa o artifício da tensão termométrica de controle do tempo.

Diante disso, as divisões de atos do roteiro ganham mais importância. Algumas mudanças no governo de Mnangagwa acontecem e vão demarcando os pontos de viradas dramáticas da narrativa de expectativa. A escolha de uma ministra envolvida nas eleições, que constantemente é colocada em foco durante o filme; as cédulas de votação não revisadas pela oposição, contrariando a transparência das eleições segundo a legislação do país, em que a fotografia busca as facetas da Comissão Eleitoral do Zimbábue (ZEC); a própria vitória nas eleições, em que a gravação do anúncio na TV se deforma num close-up, basicamente representando o olhar melancólico de um dos participantes do partido MDC assistindo a TV, sentado, são exemplos temáticos que ficam potentes quando há uma mínima interferência da montagem de cenas. Junto a isso, a saída de cena de Chamisa na virada no meio do filme, com a vitória do chamado pelo apelido Crocodilo, o Mnangagwa, para segurança do jovem candidato na apuração das urnas, em que ele havia recebido ameaças no telefone, provoca uma êxtase de desesperança. A esperança democrática só é retomada quando Chamisa volta e todo o grupo jurídico em dois dias se arruma para elaborar uma interpelação no tribunal contra os números apresentados pela Comissão Eleitoral do Zimbábue. 

Com a primeira barreira anti-democrática posta no primeiro plano do filme (Mugabe), e a segunda posta na TV com a revelação da perda de Chamisa, a transposição dela com a empolgação nas transições de cenas, com vários papéis e pesquisas com levantamentos de números das seções eleitorais que comprovavam de maneira inabalável a fraude nas eleições no Zimbábue em 2018, dá uma oxigenada no último ato, digno de um terceiro ato finalizador de uma transformação democrática. Entretanto, com um último plano, o que finaliza o documentário é a figura do Crocodilo em perfil, como última barreira antidemocrática não transpassada, na perda do MDC nos tribunais.

Essa rima visual, dos perfis inicial e final dos dois representantes do União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (ZANU-PF), Mugabe e Mnangagwa, respectivamente, são os planos em câmera lenta, são as gravações que fragmentam a realidade do documentário na composição fílmica. Em conclusão, os olhares e as pausas de cada presidente encaixota a narrativa de esperança democrática desenvolvida em um universo realista do documentário com a figura do Presidente Chamisa e seu partido MDC. Essa é a potência dramática, citada no começo do texto. Na figuração do povo, sempre representado durante o documentário, apoiando Chamisa, gritando nos comícios no começo do filme e fugindo do ataque do exército violento do governo do Zimbábue. Quando a participação popular encontra sua figura presidencial democrática, ela se torna apenas uma ponte entre dois planos cinematográficos de perfil de dois ditadores republicanos.

Presidente (President) – Zimbábue, 2021
Direção: Camilla Nielsson
Roteiro: Camilla Nielsson
Elenco: Robert Mugabe, Emmerson Mnangagwa, Nelson Chamisa, Morgan Tsvangirai, Tendai Biti
Duração: 130 minutos

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