Crítica | Primal (2019) – 1ª Temporada

Temporada
(não é uma média)

O maior defeito de Primal, nova série animada do genial Genndy Tartakovsky que, depois de um desvio cinematográfico vampiresco, voltou para a TV para encerrar a fenomenal saga Samurai Jack, é que ela só tem míseros cinco episódios e, ainda por cima, de econômicos 22 minutos cada um. Como seu protagonista humano muito apropriadamente diria, ARRRRRRGGGGGGHHHHHHHHH!!!

Mas tudo bem. Pelo menos Primal existe e não foi podada pelo Cartoon Network por ter hectolitros de sangue e tripas, além de uma desconcertante – mas saudável! – quantidade de violência pré-histórica explícita. Porque Primal é justamente isso, uma espetacular pancadaria pré-histórica que anacronicamente reúne um homem das cavernas (Spear) com um tiranossauro rex fêmea (Fang) depois que os dois passam por terríveis tragédias pessoais logo no triste primeiro episódio (Spear and Fang) que pega emprestado a boa e velha estrutura de amizade entre seres humanos e animais e calibra-a para algo adulto, frenético e visualmente impactante.

E tem mais: não há falas, só rugidos e grunhidos. Mesmo que esse artifício, em circunstâncias semelhantes, seja lógico e já utilizado famosamente no inimitável prólogo de 2001 – Uma Odisseia no Espaço e ao longo de toda a duração de A Guerra do Fogo, é sempre fascinante ver um cineasta manobrar uma versão do “cinema mudo” em pleno fim da segunda década dos anos 2000. E Tartakovsky, que já havia mostrado maestria na economia verbal em Samurai Jack, triunfa completamente com sua saga em que olhares, ações, rugidos e grunhidos conseguem ser mais significativos do que as proverbiais mil palavras.

Não só Spear, apesar de seu tamanho abrutalhado, tem expressões corporais e faciais que traduzem à perfeição o que ele sente, como Fang, mesmo sendo um gigantesco “lagarto” bípede, ganha econômicas, mas precisas reações “antropomorfizadas” que garantem completa expressividade e uma conexão direta com seu amigo humano. Mas Tartakovsky, apesar da pequena quantidade de episódios, não facilita as coisas e dedica o segundo episódio inteiro (River of Snakes) na sedimentação dessa conexão entre seus dois personagens primais, estabelecendo uma certa concorrência entre eles e uma estrutura narrativa que por muitas vezes circunda o conceito básico de sobrevivência diária, com a caça sendo o centro das atenções de ambos os protagonistas.

Quando o relacionamento de Spear e Fang está consolidado, o autor então parte para o mais belo episódio de sua curta 1ª temporada, A Cold Death, que coloca a dupla caçando um mamute idoso e machucado em meio a um mortal e congelante ambiente. Aqui, a conjugação da narrativa de sobrevivência com a lírica melancolia do círculo da vida é absolutamente perfeita e, diria, emocionante, capaz até, se o espectador se descuidar, de fazer com que uma lágrima furtiva escorra (claro que não aconteceu comigo, mas só estou avisando, pois sou camarada…).

Terror Under the Blood Moon coloca a dupla fugindo de uma manada de ágeis dromeossauros (esses aí da imagem de destaque) quando, em um eclipse, eles têm que enfrentar criaturas ainda mais assustadores. E e aí que o segundo problema da temporada começa a aparecer. Sim, tenho plena consciência que Primal se passa em um mundo pré-histórico que saiu da cabeça de Genndy Tartakovsky e que só pelo fato de juntar homem e dinossauro (algo irresistivelmente sexy, até porque, quando bem pequeno, quando descobri que nunca coexistimos com os monstrões, fiquei desapontado…) ele já demonstra isso com todas as letras. No entanto, exatamente por ele não precisar obedecer as regras geológicas e palentológicas, o cineasta russo-americano poderia ter feito uso de qualquer ser pré-histórico que já tenha existido, de qualquer era. Mas não. Ele elegeu trazer, nesse episódio, outros monstros desconectados de um mínimo de ciência e isso é algo que reduziu um pouco minha imersão na experiência feroz que é a série.

E ele repete a dose – ainda que de forma diferente – em Rage of the Ape-Men, o derradeiro episódio, quando estabelece um quê de magia (ou super-anabolizantes de efeito imediato). O resultado é magnificamente violento e explícito, com a técnica de animação chegando a seu auge e colocando no chinelo as de tão bem-quistas obras de animação para TV ou lançadas diretas em vídeo (*cof *cof DC Animated *cof *cof) que tanto vemos por aí, mas a pegada mais para o lado sobrenatural é algo que me incomodou tanto quanto os monstrões do episódio anterior.

Mesmo com esses “senões”, que reconheço que podem nem ser “senões” para muita gente, Primal é animação de primeira categoria, daquelas que fazem o queixo cair e os olhos brilharem. Se a barganha para se ter qualidade nesse nível é que as temporadas sejam curtas como a primeira, então que assim seja!

Ranking de episódios:

5º Lugar:
1X04: Terror Under the Blood Moon

4º Lugar:
1X05: Rage of the Ape-Man

3º Lugar:
1X01: Spear and Fang

2º Lugar:
1X02: River of Snakes

1º Lugar:
1X03: A Cold Death

Primal – 1ª Temporada (EUA – 07 a 11 de outubro de 2019)
Criação: Genndy Tartakovsky
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Genndy Tartakovsky, David Krentz, Don Shank
Elenco: Aaron LaPlante, Tom Kenny
Duração: 22 min. por episódio (cinco episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.