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Crítica | Primal – 3X02: Reino do Luto

A sinfonia da morte.

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Não tenho ideia do que se passa na cabeça de Genndy Tartakovsky, minha frustração com a temporada anterior de Primal ainda não passou e, sinceramente, não sei se vai passar, e, ainda por cima, continuo sem saber se gosto ou não do conceito de Spear zumbi, mas eu admiro profundamente a capacidade do russo de contar uma história visual arrebatadora, capaz de hipnotizar o espectador do início ao fim. Das sequências contemplativas com uma manada de sivatheriums pastando em uma savana até quando vemos o neandertal sair vitorioso em sua luta contra um gigantesco leão cinza de juba preta (que momentaneamente me lembrou de Golias, na clássica animação Sansão e Golias, da Hanna-Barbera) e seguir sua longa caminhada quase instintiva (pois não creio que Spear ouça mesmo os rugidos) em direção a Fang, Reino do Luto é um primor audiovisual que, de maneira até contrária ao espírito de qualquer série, parece ter um fim em si mesmo, como se o episódio estivesse nos desafiando a aceitá-lo sem nenhuma outra consideração que não seja o fato de ele existir como é.

Em essência, o segundo episódio do terceiro e, sob vários aspectos, inesperado ano de Primal, é uma jornada de autodescoberta em que Spear vaga na quase mística direção de sua parceira de mandíbulas avantajadas enquanto parece enfrentar todo o mundo, seja na forma de um inusitado “verme da areia” que, como vampiros, queima no sol, seja na forma de um sonho/pesadelo lisérgico em que ele se vê em sua forma original e é banhado por uma chuva de fogo, seja, finalmente, no alongado embate contra uma alcateia de leões em uma cidade morta que, ao que tudo indica, um dia foi gloriosa. Se nada mais funcionasse, sequências líricas como Spear tocando na lança de sua versão pré-zumbificação e violentas como ele correndo com três leoas ensandecidas em suas costas e dois leões flanqueando-o já teriam valido o preço do ingresso com muita facilidade.

Se é estranho ver criaturas totalmente fantásticas como o tal verme da areia – eu nunca realmente gosto quando Tartakovsky faz uso de criaturas inventadas, mas, a essa altura do campeonato, já me acostumei -, é simplesmente fascinante ver o comportamento naturalista dos leões e a maneira como a animação não economiza na violência extrema com direito ao angustiante afogamento de cinco dessas majestosas criaturas e também a Spear usando uma leoa inteira como tacape para espancar um leão até a morte. É um show de horrores lindíssimo, se é que me entendem, algo que vem acompanhando de uma trilha sonora composta por Tyler Bates e Joanne Higginbottom que é a manifestação musical tanto da calma antes da tempestade quanto da própria tempestade em seus mais furiosos momentos. É como ver e ouvir uma sinfonia da morte que nos faz torcer por um zumbi e até secretamente aceitar que a magia desse universo de alguma forma traga Spear de volta como ele era antes e, ao mesmo tempo, sofrer com as mortes dos belos leões e leoas em uma profusão de sentimentos caóticos e antitéticos que, de alguma forma que não sei bem explicar, acabam fazendo sentido.

Além disso, e sei que posso estar “vendo coisas”, parece-me que, na medida em que o corpo físico desmorto de Spear se esfacela a olhos vistos a cada sequência de pancadaria extrema, ele parece reerguer-se mentalmente, lentamente aproximando-se do que ele um dia foi, como a sequência dele manuseando a lança para acabar com o mega-leão mostra. Há, portanto, um quê de jornada de autoredescoberta nessa temporada, algo que, se pararmos para pensar, não deveria funcionar com um zumbi, mas que esses dois episódios simplesmente fazem funcionar, especialmente se levarmos em conta um lado mais espiritual que parece levar Spear ao máximo sofrimento para algum tipo de redenção lá no fim. Como disse no começo, não tenho a mais remota ideia do que poderá vir pela frente, mas se os episódios futuros forem variações do que Reino de Luto foi, eu já me dou por satisfeito. Se for algo mais do que isso, bem… talvez seja até possível cogitar perdoar (será?) o que Tartakovsky fez com sua própria magnífica criação ao tentar inventar moda. Mas ainda é cedo para pensar nisso e o que interessa é degustar semanalmente essas pequenas doses de brutalidades majestosas.

Primal – 3X02: Reino do Luto (Primal – 3X02: Kingdom of Sorrow – EUA, 18 de janeiro de 2026)
Criação: Genndy Tartakovsky
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: David Krentz
Elenco: Aaron LaPlante
Duração: 23 min.

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