- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.
Como o título não esconde, Caverna dos Horrores é o fim da missão de Mira, Fang, Fanguinhos e guerreiros buchas de canhão para salvar a menina raptada pelos javalis infernais que dobra também como artifício narrativo para a aguardada reunião com Spear zumbi. É, para todos os efeitos, a primeira história, desde a temporada passada, em que vemos todos os personagens principais juntos novamente, mesmo que um deles seja um desmorto caindo as pedaços que tem lampejos de sua vida pregressa. Genndy Tartakovsky entrega um episódio que, curiosamente, não faz tudo o que poderia ter sido feito em termos de nível de violência extrema, mas que coloca Mira na clara liderança do grupo, mesmo considerando a aflição natural que dá ver uma mulher grávida arriscando sua vida desse jeito.
Apesar de necessário para a formulação do plano de ataque de Mira, a repetição do ritual dos javalis no interior da caverna em que vemos humanos sendo jogados no fosso que é a “despensa” das criaturas, alguns sendo comidos pela javali albina matriarca que, então, deita para que os demais bebam seu leite é um momento cansativo em um episódio que, pela sua natureza, deveria ser dinâmico. Tartakovksy escolheu mostrar isso antes na temporada para criar atmosfera para o perigo que seria enfrentado, mas essa decisão custou o suspense e revelação que poderiam ter sido trabalhados aqui, o que resulta em uma das poucas “barrigas” de uma temporada muitos consistente em termos de equilíbrio entre contemplação e ação. Não é algo que estrague a apreciação do episódio, mas ele perde seu elã justamente por isso.
O restante é mais um bom casamento entre pura pancadaria sanguinolenta com uma pegada de humor muito bacana dedicada à aceitação de Spear por uma ainda desconfiada Fang, apesar de seus Fanguinhos já terem adotado o neandertal como fornecedor oficial de colo e comida. Não há, aqui, o mesmo tipo de finesse que vimos em Nenhuma Sombra Entre os Mortos, mas, considerando que Tartakovsky poderia ter se dedicado somente ao lado sério e mortal, fiquei feliz em perceber que o russo tem sabido suavizar a sanguinolência sem economizar na litragem. A ação na caverna do título, porém, apesar da demora em engrenar, funciona quando vai se aproximando da execução do plano de Mira, com a esperada chegada triunfal de Spear, Fang e Fanguinhos sendo aquele clássico momento feito para os olhos dos espectadores ficarem vidrados na tela. Minha maior surpresa foi constatar o tamanho da javali mãe com Fang. Uma T-Rex adulta cabe nas mandíbulas da porca, o que faz pouco sentido científico, mas muito sentido cinematográfico que, claro, é o que importa mais, especialmente levando em conta que esse universo é uma fusão de tudo o que Tartakovsky imaginar. E, lógico, ajuda muito o golpe final, com Fang pendurada na goela do monstro até arrancá-la.
O suspense sobre o destino de Mira e de sua filha não me agradou, porém. Pode ser que funcione para aproximar Spear ainda mais de sua antiga amada e, com isso, fazer Fang aceitá-lo finalmente, mas esse “será que ela morreu?” me pareceu preguiçoso, a não ser – e esse é um “a não ser” potencialmente muito interessante – que Tartakovsky, em seu projeto para a série, tenha a intenção de ignorar o epílogo da temporada anterior que vemos Mira viva, com sua filha cavalgando um dos Fanguinhos como Spear fazia com Fang. Mas eu sinceramente duvido que o russo, que parece ter se arrependido de ter matado Spear, tenha coragem de alterar tudo e criar um destino trágico para Mira e seu feto. Agora é esperar para ver se o cliffhanger será justificado, o que pode acontecer mesmo sem que Mira morra, vale frisar, ou se é só um artifício barato para criar suspense e que será revertido imediatamente.
Primal – 3X06: Caverna dos Horrores (Primal – 3X06: Cavern of Horrors – EUA, 15 de fevereiro de 2026)
Criação: Genndy Tartakovsky
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Mark Andrews, Genndy Tartakovsky
Elenco: Aaron LaPlante, Laëtitia Eïdo, Tre Mosley, Debra Wilson
Duração: 23 min.
