Crítica | Primavera Para Hitler

Amplamente conhecido por seu humor ácido, irreverente e que nunca se ressentiu de ser politicamente incorreto, Mel Brooks causou um verdadeiro espanto quando anunciou que estava produzindo um filme sobre uma peça de nome Springtime for Hitler. Até aquele momento ele ainda não havia dirigido nada e se notabilizara como roteirista. Sua carreira como ator, nas telas, ainda engatinhava, com apenas dois trabalhos prévios a este aqui, um para o The New Steve Allen Show (1961) e outro como narrador no curta The Critic (1963), de Ernest Pintoff.

Quando falamos de The Producers é impossível não levantar uma discussão de olho em qualquer pseudo-humorista que não sabe o que significa (ou como se compõe) uma boa sátira, e que usa Mel Brooks como desculpa para a afirmação de que “o mundo está chato” e que “não se pode mais fazer piadas irreverentes” e que “se Mel Brooks podia fazer, por que eu não posso?“. Uma pergunta que se faz, nesta seara, e que todos os humoristas que eu já ouvi respondê-la cambaleia mas acaba respondendo “não” é a seguinte: há algum limite para o humor? Alguns emendam a resposta negativa com um “mas…“, o que acaba caindo na minha própria resposta para a mesma pergunta, que é “sim! Há limite para o humor!“. E que limite é esse? Simples: o limite entre a humanidade e a desumanidade. E é a observação dessa linha que faz com que Mel Brooks seja um verdadeiro gênio na maneira como orquestrou piadas imensamente problemáticas e ao mesmo tempo maravilhosas em torno de Hitler, aqui em Primavera, e também em torno do povo negro, no excelente Banzé no Oeste.

Usar Mel Brooks como princípio de liberdade de “escrita cômica a todo o custo“, sobre tudo e todos, sem nenhuma consequência para o escritor, não é só um ato de covardia como também de não-entendimento do que o diretor fez neste filme de 1967, abrindo um novo momento no tipo de representação cômica que judeus e nazistas passaram a ter nas grandes telas, e depois em outros espaços, como palcos, TV, livros, quadrinhos, etc. Até este filme, historicamente, o cinema conhecia três modelos abordagens à 2ª Guerra Mundial: 1) a comédia que cercava o tema mas não destacava romanticamente o objeto de terror (Hitler, no caso), sempre fazendo troça dele e do nazifascismo, como observamos em O Grande Ditador (1940) e Ser ou Não Ser (1942); 2) a comédia didática que misturava propaganda antinazista com cenas hilárias, moral, e aterradora conclusão, como A Face do Führer (1943) e Aprendizado Para a Morte (1943); e 3) os sérios dramas e documentários de guerra. Com o término do conflito, o advento da Guerra Fria e principalmente com a ocorrência de Dr. Fantástico (1964), o modo de representar conflitos muito sérios através da comédia nos cinemas mudaria por completo.

Primavera Para Hitler foi a estreia de Brooks na direção e uma obra que quebrava uma série que paradigmas do gênero, começando da representação de um assunto delicado e chegando à forma como a estética e o texto deixavam perfeitamente clara a ideia de sátira: com destino, intenção e colocação perfeitamente compreensíveis para qualquer espectador. Por mais que seja pura verdade o fato de que nenhum artista é responsável pelo que fazem ou interpretam erroneamente de sua obra, o fato é que realizações como Primavera Para Hitler sabem perfeitamente o que fazer com o tabu, tirando o glamour e o poder do objeto que critica, ao mesmo tempo que flerta com a própria produção da obra, seu conteúdo e os tons políticos em seu caminho. Em termos de abordagem delicada através da comédia, para mim, é uma das obras mais geniais do cinema e prova que sim, pode-se fazer piada de mal gosto e ofensiva sobre qualquer coisa, desde que o limite do humor (limite entre a humanidade e a desumanidade) seja respeitado.

O produtor teatral golpista e decadente chamado Max Bialystock (Zero Mostel) junta-se ao histérico contador Leo Bloom (Gene Wilder) para produzir uma peça que deve ser um fracasso de público. Eles precisam que seja um fracasso para que a lavagem de dinheiro funcione perfeitamente e então possam lucrar sem pagar as senhoras que investiram no espetáculo. A base do roteiro de Brooks é bastante entrecortada, o que atrapalha uma conexão lógica e realmente fluída ao longo da fita, especialmente no final, onde há o pior corte. Em cada um desses blocos, porém, o estilo do comediante de fazer piada a todo instante já pode ser visto, tanto de maneira física (com direito a slapstick e tudo), quanto de maneira narrativa, esta, fortalecida pela excelente interpretação da dupla protagonista.

Algumas piadas aqui não envelheceram bem ou não têm tanta graça quanto se pretendia, mas aquilo que dá sentido ao enredo, ou seja, a representação da peça dentro do filme, é algo para se tirar o chapéu. Misturando características dos musicais dos anos 1930, o cinema de Leni Riefenstahl — vide a coreografia que forma uma suástica, num belo, hilário e incômodo plongée — e, durante todo o tempo, ridicularizando em cada aspecto visual e narrativo possível a figura de Hitler, do nazismo e de toda a sua parafernália, Mel Brooks consegue criar uma obra que se blinda contra a romantização ou glamourização das odiosas figuras que ele tira sarro. E por mais ofensivo que seja em alguns momentos, o roteiro tem plena ciência de que pode ofender tranquilamente dentro dessa seara, que ele não assume como algo sério ou agressivo às vítimas do holocausto (a humanidade, lembram?). Outro ponto de destaque no ato teatral é o foco das piadas, que obedecem a um crescendo que começa na escolha da peça pelos produtores e termina na cômica, ácida e insana representação do III Reich.

O espectador está disposto a perdoar certos elementos forçados aqui, usados para preencher os espaços entre o golpe e o palco (por exemplo, tudo relacionado a Ulla, personagem de Lee Meredith) porque a temática principal é trabalhada com muita competência, mesmo que não flua de todo bem (à exceção do teatro) e tenha uma elipse absurda e intragável no final. O fato é que Primavera Para Hitler é um filme realmente engraçado e se tornou um marco muito importante no cinema, inclusive na apresentação de certos eventos delicados sob uma ótica cômica e irreverente. É sátira bem feita que sabe ofender, sabe ser de mal gosto e ao mesmo tempo criticar e ridicularizar, sem espaço para que a piada se torne uma adaga realmente agressiva e desumana contra qualquer vítima. Uma habilidade que poucos comediantes possuem hoje, dentro e fora do cinema. Infelizmente.

Primavera Para Hitler (The Producers) — EUA, 1967
Direção: Mel Brooks
Roteiro: Mel Brooks
Elenco: Lee Meredith, Kenneth Mars, Dick Shawn, Gene Wilder, Zero Mostel, Estelle Winwood, Renée Taylor, David Patch, William Hickey, Barney Martin, Shimen Ruskin, Frank Campanella, Josip Elic, Madelyn Cates, John Zoller, Brutus Peck, Christopher Hewett, Andréas Voutsinas, Bernie Allen
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.