Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Princesa Mononoke

Crítica | Princesa Mononoke

por Ritter Fan
1388 views (a partir de agosto de 2020)

Hayao Miyazaki nunca deixou para trás sua temática fortemente ambiental com elementos fantásticos desde Nausicäa do Vale do Vento, filme que tornou possível a criação do Estúdio Ghibli. O cineasta retornou a esse tema diversas outras vezes, seja de maneira lúdica como em Meu Amigo Totoro, seja bebendo fortemente da mitologia nipônica como em PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins, mas foi com Princesa Mononoke que ele efetivamente criou uma “continuação espiritual” – ou um prelúdio, se pensarmos bem – de Nausicäa, criando um universo sobrenatural com fascinantes regras próprias, só que desta vez baseado no Período Muromachi da História Japonesa, com um incrível trabalho de recriação de época nos figurinos tanto dos campesinos quanto dos lordes e samurais.

Como em Nausicäa, tentar descrever a história é perda de tempo dada a vastidão das ideias de Miyazaki e a forma absolutamente fascinante como ele apresenta personagens humanos e sobrenaturais que passam a popular a história. O elemento catalisador da narrativa, porém, é a jornada para oeste do jovem Príncipe Ashitaka (Yōji Matsuda) para investigar a origem de um javali-demônio que atacara sua vila e contaminara seu braço, condenando-o à morte segundo a anciã local. Nessa jornada, o rapaz encontra o mundo dos homens, representado por uma refinaria de aço controlada por Lady Eboshi (Yūko Tanaka), em conflito com o mundo natural, representado por uma matilha de lobos brancos falantes que, como em O Livro da Selva, acolheu a humana San, conhecida como a princesa do título (Yuriko Ishida). Ashitaka passa, então, a tentar ser a ponte entre mundos ao mesmo tempo que precisa lutar contra sua infecção que, porém, lhe dá algumas habilidades especiais que definitivamente vêm a calhar em diversos momentos.

Se o pano de fundo ambiental não traz grandes novidades, ainda que, como sempre, seja extremamente relevante, os detalhes da mitologia criada por Miyazaki são encantadores, algo que ele apresenta em uma estrutura típica de jornada de amadurecimento em que Ashitaka vai do menos ao mais sobrenatural de maneira muito fluida, sem que as criaturas mais bizarras pareçam completos absurdos fora de esquadro dentro de uma proposta que, com exceção do javali-demônio, parecia realista. Diferente de suas obras anteriores, a violência em Princesa Mononoke é explícita, com uma boa quantidade de braços e cabeças cortadas com todo o gore que segue daí, mas sem que esses momentos criem repulsa ou sejam explorados em detalhes nas sequências. Em outras palavras, eles acrescentam ao realismo inicial, mas já ajudando a quebrar barreiras potencial pré-concebidas por quem não conhece todos os trabalhos do diretor, pois PomPoko, vale lembrar, já carregava nesse lado mais explicitamente violento.

Também diferente dos longas mais lembrados de Miyazaki e apesar do título, o protagonista é um homem como em Porco Rosso, com a jovem San/Mononoke sendo muito mais um símbolo do que uma personagem efetivamente desenvolvida. Mas isso não quer dizer que as mulheres não povoem fortemente o longa. Além de San e de Lady Eboshi, dois completos opostos em absolutamente tudo, há as mulheres que trabalham duro na refinaria fabricando aço e que logo enxergam a bondade em Ashitake. Há um cuidado grande do design em tratar essas personagens razoavelmente fungíveis com uma musculatura diferente das demais mulheres da animação ou mesmo dos homens, já que, pela natureza do trabalho extenuante, elas desenvolvem mais o torso e os ombros, em uma composição muito bonita, respeitosa e inteligente, algo que inclusive ajuda em uma das temáticas “menores” do longa referente aos gêneros e à divisão do trabalho (algo que Porco Rosso também aborda, ainda que de forma bem diferente).

A natureza que cerca a refinaria recebe também enormes cuidados do design de produção, com um trabalho que chega a impressionar por não ter feito uso extensivo de computação gráfica (há CGI em 10% do filme, mas apenas em sequências compostas como as manifestações ao redor do braço infestado de Ashitake ou no enorme e translúcido espírito da floresta). Assim como no começo do longa, a equipe de desenhistas não perde de vista a abordagem primordialmente realista que, ato contínuo, sofre quebras dessas realidade com o uso da profusão de personagens fantásticos que vão aparecendo na medida em que a obra progride, mas sempre de maneira natural, quase que autoexplicativa, sem que o roteiro, também de Miyazaki precise dar explicações maiores do que breves palavras contextualizadoras.

Para ser completamente honesto, lá pelo final de seu segundo terço, quando Ashitaka conversa com a loba que comanda a matilha de San, o longa freia um tanto quanto bruscamente, criando uma espécie de barriga narrativa que é muito saliente exatamente pela economia de palavras do roteiro até aquele momento. Há uma tentativa do cineasta de reafirmar alguns conceitos e de conectar Ashitaka a San com mais força, mas que, confesso, não era exatamente necessário, pelo menos não segurando a ação e substituindo-a por sequências contemplativas que, por mais bonitas que sejam, carecem de timing.

Como acontece com Nausicäa, Princesa Mononoke é um filme para ter cada um de seus fotogramas admirados com a mão tentando segurar o queixo. Miyazaki mais uma vez entrega uma obra de temática poderosa, personagens fascinantes e execução quase perfeita (que eu tomei a liberdade de “arredondar” para perfeita) que encanta e hipnotiza o espectador de tal maneira que sua duração avantajada passa em um piscar de olhos. Aliás, que piscar que nada, pois o espectador não pode se dar ao luxo de perder uma fração de segundo dessa maravilha.

Princesa Mononoke (Mononoke-hime – Japão/EUA, 1997)
Direção: Hayao Miyazaki
Roteiro: Hayao Miyazaki
Elenco: Yōji Matsuda, Yuriko Ishida, Yūko Tanaka, Kaoru Kobayashi, Masahiko Nishimura, Tsunehiko Kamijō, Akihiro Miwa, Mitsuko Mori, Hisaya Morishige
Duração: 134 min.

Você Também pode curtir

30 comentários

Beto Magnun 20 de março de 2021 - 00:24

Gosto tão pouco desse filme que tatuei ele no braço.

Responder
planocritico 20 de março de 2021 - 02:42

FOTO!!!

Abs,
Ritter.

Responder
O Arrebatado Cartman 18 de março de 2021 - 21:58

Esse e Naussica são meus filmes favoritos do Miyazaki, além dessa pegada ambiental são filmes q tem grandes conflitos e mesmo com figuras que se antagonizam na trama não existe um vilão maniqueísta, todo mundo tem seus motivos de estarem um contra o outro.

Responder
planocritico 19 de março de 2021 - 01:48

Sim, sim. Isso é bacana nesses filmes. A vilania não é exatamente vilania, mas sim pessoas agindo conforme suas convicções.

Abs,
Ritter.

Responder
O Arrebatado Cartman 19 de março de 2021 - 02:01

Exato, studio ghibli tem dessas, Viagem de Chihiro tmb é assim.
Mas esses dois filmes pra mim se destacam por ser histórias q tem batalhas, guerras, esses grandes conflitos sem ter um vilão propriamente dito, é muito mais circunstancial. Eu acho um trampo difícil de fazer, é um tipo de construção de roteiro q eu valorizo muito, acho brilhante.

Responder
planocritico 19 de março de 2021 - 03:06

Com certeza, meu caro! Não à toa são obras-primas!

Abs,
Ritter.

Responder
Magnosama 18 de março de 2021 - 19:29

Esse filme é obra prima demais,
misericórdia…

Responder
planocritico 18 de março de 2021 - 21:22

Eu acho sensacional, mas um pouquinho abaixo de obra-prima, apesar de ter “arredondado” a nota para cima!

Abs,
Ritter.

Responder
Arthur Da costa palacio 18 de março de 2021 - 18:32

A eterna disputa entre homem e natureza representada perfeitamente. Todo o tom épico do filme, a trilha sonora, os planos amplos mostrando a natureza, fazem esse filme parecer um épico do David Lean.

Responder
planocritico 18 de março de 2021 - 18:58

Interessante você invocar o David Lean. Entendo a comparação, mas acho os estilos tão diferentes que não consigo fazer a “ponte mental”, por assim dizer.

Abs,
Ritter.

Responder
Victor Martins 18 de março de 2021 - 14:48

Meu longa favorito do Ghibli. Um filme bastante intenso e hipnotizante, especialmente nas sequências de “guerra”.

“Now watch closely, everyone. I’m going to show you how to kill a god. A god of life and death. The trick is not to fear him.”

Lady Eboshi não só é minha personagem favorita do Miyazaki, mas também uma das minhas vilãs (Será?) favoritas do cinema. Eu sei que ela estava tentando destruir a floresta, e na verdade eu acho que os dois lados são extremos nessa história, mas o grande feito do Miyazaki nesse filme é ter conseguido manter sempre essa pegada mais ambígua em relação ao caráter da personagem, que nunca descamba totalmente pra vilania. Ele de fato criou um debate, que é algo que muitos filmes tentam fazer mas que acabam não tendo relevância cultural e política alguma.

Responder
planocritico 18 de março de 2021 - 04:48

Lady Eboshi é uma personagem muito interessante. E sua pergunta sobre ela ser ou não vilã é o que mais chama atenção, pois ela até pode agir como tal se olharmos de maneira rasa, mas tenho para mim que ela está longe de ser facilmente classificável. Se alguma coisa, eu diria que ela é muito mais o progresso tecnológico encarnado do que uma vilã, a não ser que você classifique a tecnologia como inerentemente ruim…

Abs,
Ritter.

Responder
Gabriel Leão 26 de março de 2021 - 16:15

Sim, eu a vi exatamente assim, como uma representação do progresso tecnológico, que inerentemente significa a degradação do meio ambiente. Aliás, eu vejo esse filme como uma representação da transição do Japão feudal para o moderno.

Responder
planocritico 27 de março de 2021 - 04:15

Uma forma bacana de encarar o filme!

Abs,
Ritter.

Responder
Diário de Rorschach 18 de março de 2021 - 14:39

Eu confesso que não acho o Hayao Miyazaki toda essa rapadura doce que falam não, mas esse filme é realmente muito bom.

Responder
planocritico 18 de março de 2021 - 17:28

He, he. Miyazaki é toda a rapadura doce (no meu caso, eu usaria doce de leite, que acho muito melhor, mas tudo bem) que existe no mundo animado!

Abs,
Ritter.

Responder
Diário de Rorschach 18 de março de 2021 - 21:05

Eu entendo quem endeusa ele, mas sou apenas eu kkk não sou muito fã também de animação japonesa cara

Responder
planocritico 18 de março de 2021 - 21:14

Também não sou fã de animação japonesa não. Acho animes normalmente muito cansativos. Mas Miyazaki e os demais diretores que trabalharam para o Ghibli fazem animações, ponto final, da mesma forma que a Pixar faz animações e não animações americanas.

Mas eu te entendo. Gosto é gosto!

Abs,
Ritter.

Responder
Diário de Rorschach 18 de março de 2021 - 23:41

Pra tu ver, acho Túmulos dos Vagalumes por exemplo, talvez a melhor animação que já vi na vida, mas não consigo gostar tanto assim de Meu Amigo Totoro.

planocritico 19 de março de 2021 - 01:48

Normal!

Abs,
Ritter.

Victor Martins 19 de março de 2021 - 11:21

Se não tiver assistido, recomendo muito os filmes do Satoshi Kon também, inclusive ele era a maior inspiração do Darren Aronofsky, que chegou a comprar os direitos de Perfect Blue pra replicar cenas do filme em Requiem For a Dream e Black Swan.

Tem também o famoso caso de Inception/Paprika, mas se tratando de Nolan ele nunca vai admitir a inspiração.

E a melhor animação de todos os tempos, na minha opinião, Ghost in the Shell, do Mamoru Oshii.

planocritico 21 de março de 2021 - 01:47

Já vi Padrinhos de Tóquio e Paprika dele. Muito bons!

Ghost in the Shell eu nunca vi e eu tenho zero de interesse para dizer a verdade… Mas vou tentar fazer um esforço!

Abs,
Ritter.

Lucio Adriano Mendonça 18 de março de 2021 - 10:59

Excelente filme. Junto com nausica são os melhores pra mim. O espírito da floresta apareceu no filme 47 Ronin e no filme Branca de Neve e o caçador.

Responder
planocritico 18 de março de 2021 - 17:28

Um baita filmaço mesmo, mas eu prefiro Nausicäa entre os dois.

Abs,
Ritter.

Responder
Peter 18 de março de 2021 - 04:19

Esse filme para mim é a obra sublime e suprema do Studio Ghibli, a mensagem dele e o roteiro me fazem pensar que nunca veremos algo parecido como essa obra e tão escatológico como seu trabalho. Apoteótico e atemporal, é um filme para se ver em todas as épocas.

Responder
planocritico 18 de março de 2021 - 04:49

Eu gosto mais de Nausicäa dentre os filmes de mesma temática do Estúdio Ghibli, mas entendo perfeitamente seu amor por Mononoke!

Abs,
Ritter.

Responder
Guilherme 17 de março de 2021 - 23:12

Tem como escrever um spoiler por aqui? Porque gostaria de destilar o meu ódio pelo final dessa obra. 🙂

Responder
planocritico 17 de março de 2021 - 23:13

Pode sim. Manda ver, pois fiquei curioso agora!

Abs,
Ritter.

Responder
Guilherme 19 de março de 2021 - 17:04

O que me incomoda no final do filme é que ele força demais a barra. Quando o espírito da floresta é destruído e vira aquele “robô gigante”, ele começa a destruir tudo o que encontra pela frente. Ponto de observação: aquela floresta que conhecemos tão bem nos dois atos é destruída, o que gera um grande impacto de imediato. Eu pensei: “caramba; não esperava isso. O que será que vai acontecer?”. A sequencia se desenrola até que então eles param a criatura e bla bla bla. E aí, o que aconteceu depois, foi O-F-E-N-S-I-V-O.
Toda a floresta antes destruída, se regenerou completamente… (pausa; ainda em choque porque não consigo acreditar que ele fez isso) . Aquelas pessoas ruins, não só porque ficavam desmatando a floresta por negócios, tudo bem, eles eram completos ignorantes e não sabiam do impacto que isso poderia gerar ao mundo; porém, a partir do momento que eles espantam, tentam ferir os espíritos “macacos”, que deixa claro que são espíritos que querem reconstruir a floresta (o que há de mal em reconstruir; coitado das entidades), eles para mim se tornam então pessoas ruins. Elas não aprenderam nada no final das contas.
Eu pensei que eles, por cobiça, e pela decisão da lady, teriam a consciência pesada pelos seus atos, e então tentariam replantar, ou tentariam não repetir o erro. Simplesmente, trazer tudo de volta, e mais bonito, até as partes que eles detonaram antes, não tem mensagem nenhuma para aqueles humanos. Ou seja, eles podem destruir de novo, se quiserem. Para mim era o momento perfeito onde aqueles humanos iriam plantar árvores e esperarem, sei lá quanto tempo leva para a floresta voltar, até crescessem. Poderiam até mesmo trabalhar com as entidades. Hoje em dia, não temos homens e mulheres tão unidos com os animais. Ou com a floresta…. Meio ambiente… Que bola fora, heim. Imagina o tempo que levaria até ficar bom, do que simples surgir do nada. Seriam anos com a culpa em mente; seriam anos construindo algo de valor, e não tirando… Deixando sua marca… Aprendendo com o “diferente”; as entidades; animais no caso. De novo… Que bola fora…

Eu vejo isso como: ressuscitar todos os judeus que Hitler matou; ele assumir o erro; e seguir em frente, sem consequências de seus atos…

Esse final eu achei uma porcaria….

Mas… estou aberto a mudanças.

Responder
planocritico 22 de março de 2021 - 18:00

Interessante sua visão. E ela procede. Eu só acho que ela te incomoda muito mais do que me incomodou.

Eu interpreto que, quando a entidade morre (ou algo do gênero), a mágica morre completamente e a floresta volta a ser o que era como uma espécie de última chance. Agora, os humanos estão sozinhos. Não há mais protetores da natureza, não há mais macacos reflorestadores. É na linha de “ok, vocês acabaram com a mágica, então, agora, se virem aí com a floresta que, se morrer novamente, não renascerá”.

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais