Crítica | Príncipe Suzano e o Dragão de 8 Cabeças

estrelas 3

Também conhecida como O Pequeno Príncipe e o Dragão de 8 Cabeças, essa animação de Yûgo Serikawa resgata uma antiga lenda xintoísta que conta a história de Suzano (ou Susanoo), o deus do mar e das tempestades. Segundo a mitologia, Suzano é irmão de Amaterasu, deusa do Sol e do Universo; e de Tsukuyomi, o deus da Lua. Em uma visão bastante superficial e comparativa, Suzano é uma espécie de Loki desse panteão, sempre se comportante mal e fazendo coisas erradas, pelo menos até o seu encontro com o dragão de oito cabeças, com o qual ele luta depois de ter feito a criatura beber vários jarros de saquê.

A adaptação de Serikawa, no entanto, deixa de lado o caráter mais cru da mitologia e faz de Suzano um deus-criança bonzinho, cujas ações erradas justificam-se pela sua pouca idade e inocência, todas elas cometidas enquanto ele tentava ajudar a alguém. O roteiro peca tremendamente ao misturar esses dois mundos. Em um momento ou outro a real face de Suzano aparece e denuncia a falha, como nas cenas em que ele espanca o tigre (de quem depois fica amigo); quando destrói parte do castelo do irmão ou quando causa furor entre os camponeses da Terra do Sol, regida por sua irmã Amaterasu, a ponto dela retirar-se para uma caverna e imergir aquele mundo em completa escuridão.

Para quem não conhece o mito no qual o anime foi baseado, as coisas podem ser bem diferentes. Embora o fator do impossível e de sequências ou diálogos incoerentes (mesmo considerando o universo da fantasia) incomodem um pouco, a fita é divertida e conta uma história de teor universal. O pequeno Suzano aqui é uma boa criança, inconformada com a morte da mãe (embora a palavra “morte” jamais seja citada) e, desafiando a tudo e a todos, decide ir buscá-la. O texto de Ikeda e Iijima consegue um excelente resultado na exploração da poesia e simbolismos tipicamente nipônicos, mas falham na construção de uma narrativa coesa. O filme acaba sendo fechado em pequenas crônicas, todas elas marcadas por eventos protagonizados por Suzano e seus amigos, sendo o maior deles o encontro com a Princesa que se parece com a mãe dele (não foi intenção dos roteiristas — ao menos eu espero — mas o tom edípico da cena em que ele a conhece chega a ser desconcertante) e a batalha com o dragão.

Com uma técnica de animação simples mas muito bonita (especialmente nas cores e na bela sequência de dança dos camponeses — deuses do panteão, no mito), Príncipe Suzano e o Dragão de 8 Cabeças é uma adaptação cativante e emocionante em certos aspectos. A relação entre mãe e filho ou entre Suzano e seus amigos — que são apresentados na história tal qual os personagens de O Mágico de Oz — tornam o enredo cheio de ternura e recebe bons momentos cômicos, protagonizados pelo coelho tagarela. A animação foi exibida inúmeras vezes na TV aberta no Brasil, na década de 1980, mas depois desapareceu do mapa e hoje é conhecida apenas de um pequeno público (pelo menos os mais novos), o que é uma pena. O resgate para um desenho desse tipo é sempre necessário, mesmo que não se trate de nenhuma obra-prima.

Em tempo: este foi o primeiro (ou o segundo, dependendo da fonte pesquisada) trabalho profissional da carreira de Isao Takahata, co-fundador do Studio Ghibli. Neste filme, ele ocupou o cargo de assistente de direção.

Príncipe Suzano e o Dragão de 8 Cabeças (Wanpaku ôji no orochi taiji) – Japão, 1963
Direção: Yûgo Serikawa
Roteiro: Ichirô Ikeda, Takashi Iijima
Elenco (vozes originais): Morio Kazama, Yukiko Okada, Chiharu Kuri, Hideo Kinoshita, Setsuo Shinoda, Masato Yamanouchi, Shûichi Kazamatsuri, Noriko Shindô, Kiyoshi Kawakubo, Kinshirô Iwao
Duração: 86 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.