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Crítica | Prisão Infernal

Van Damme mostrando que também é ator.

por Ritter Fan
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A fase pós-anos 90 de Jean-Claude Van Damme é um mistério para mim e, mesmo dando de cara com coisas muito ruins como Agente Biológico, tem sido surpreendente descobrir filmes como Replicante e A Irmandade que, admito, não são nem de longe maravilhosos, mas, por outro lado, são inegavelmente interessantes. O que eu realmente não esperava é encontrar um dos melhores longas do ator e lutador belga nessa fase (fora JCVD, claro) e é com isso que eu me deparei ao assistir Prisão Infernal, segundo “filme de prisão” de sua carreira, depois de Garantia de Morte (ou terceiro, se contarmos com A Colônia, mas vamos combinar que aquilo lá não é exatamente uma prisão e que esse trecho do filme é mínimo).

Claro que esse subgênero é saturado de exemplares excelentes, mas mesmo os de pegada mais básica, de pura ação, como Rota de Fuga, costumam funcionar bem simplesmente ao trabalhar os tropos e clichês que fazem parte de sua infraestrutura. E Prisão Infernal, terceira e última parceria de Van Damme com o diretor chinês de Hong Kong Ringo Lam (as outras duas são Risco Máximo e o já citado Replicante) que, por sua vez, já abordara assunto semelhante em Prisioneiro do Inferno, de 1987, tem tudo o que podemos esperar desse tipo de filme: violência física e psicológica, incluindo estupro, lutas sangrentas e mortais, guardas sádicos e diretor ganancioso que não titubeia em explorar os prisioneiros. O que não tem é protagonista preso por crime que não cometeu. Isso é trocado por um crime que ele inegavelmente cometeu – o assassinato do assassino de sua esposa -, mas em uma daquelas abordagens que claramente querem indicar com todas as letras que ele não merecia prisão perpétua por isso, especialmente não em uma prisão absurdamente violenta na Rússia, onde trabalhava quando a desgraça, mostrada no preâmbulo, ocorre.

Van Damme é Kyle LeBlanc que, e aí é que o roteiro de Eric James Virgets e Jorge Alvarez começa a divergir do padrão a que estamos acostumados em longas assim, ao chegar na prisão, é um homem conformado com o que fez e que passa por um processo oposto ao das conhecidas fases do luto, com sua transformação gradativa primeiro em um suicida e, depois, em um monstro de agressividade e raiva. Há, inegavelmente, um pouco de maniqueísmo visual na forma como o diretor usa as transformações físicas de Van Damme para pontuar as transformações psicológicas em seu personagem, mas até que a coisa funciona bem. Nós o vemos limpinho quando ainda é inocente na forma de encarar seu encarceramento, cabeludo e barbado quando desiste de viver e com cabelo lambido e cavanhaque quando ele veste seu lado sombrio e violento que explode em lutas no estilo “de rua” – que lembra muito as excelentes de Leão Branco, o Lutador Sem Lei, só que ainda mais sujas e viscerais – patrocinadas pelo diretor da prisão que, claro, organiza apostas com seus colegas.

Esse mergulho de Kyle em um inferno literal e metafórico abre espaço para Van Damme fazer o que raramente tem oportunidade de fazer em seus filmes: atuar. Sim, o belga realmente atua em Prisão Infernal. Claro, não é uma grande e inesquecível performance, mas seria muito inocência se, a essa altura de sua carreira, alguém achasse que ele seria capaz de algo assim, só que ela é madura e surpreendentemente eficiente para a proposta do longa. Sem esse trabalho de Van Damme que Lam, ainda bem, consegue tirar o máximo proveito ao deixar sua câmera cuidadosamente mirada no ator, o filme desmoronaria completamente e seria apenas mais uma obra qualquer e genérica desse subgênero.

Ajuda muito também que o roteiro introduz a misteriosa e ameaçadora figura do Prisioneiro 451 (Lawrence Taylor) que é ao mesmo tempo companheiro de cela de Kyle e, a partir de certa altura, uma espécie de narrador ou, talvez mais precisamente, um pequeno Coro Grego sobre as agruras da culpa e o mergulho na violência como uma forma de dar vazão à raiva que, claro, cobra seu preço sombrio. Da mesma forma, é bem-vinda, ainda que um tanto quanto brega, o “retorno” da esposa de Kyle, Grey (Marnie Alton) primeiro como uma mariposa que “impede” seu suicídio e, depois, em forma astral também, algo que pode não ser completamente necessário, claro, mas que empresta um caráter diferenciado à obra, especialmente porque Lam não exagera nesses momentos.

Prisão Infernal pode não ter ganhado quase destaque algum quando de seu lançamento, que foi direto em vídeo em boa parte do mundo, como a maioria dos filmes do ator a partir dos anos 2000, mas ele merece ser redescoberto seja porque é um representante legítimo dos “filmes de prisão”, com todos os ingredientes que esperamos resultando em uma apetitosa jornada, seja porque é um Van Damme diferenciado, que realmente mostra que o belga é mais do que apenas um rostinho bonito com corpo atlético que faz espacates em câmera lenta.

Prisão Infernal (In Hell – EUA, 2003)
Direção: Ringo Lam
Roteiro: Eric James Virgets, Jorge Alvarez
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Lawrence Taylor, Marnie Alton, Alan Davidson, Billy Rieck, Jorge Luis Abreu, Lloyd Battista, Michael Bailey Smith, Robert LaSardo, Carlos Gómez, Chris Moir, Valentin Ganev, Paulo Tocha, Raicho Vasilev, Emanuil Manolov, Valodian Vodenicharov, Veselin Kalanovski, Atanas Srebrev, Asen Blatechki, Juan Fernández, Michail Elenov, Milos Milicević, Yulian Vergov
Duração: 98 min.

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