Home TVTemporadas Crítica | Prison Break – 5ª Temporada

Crítica | Prison Break – 5ª Temporada

por Ritter Fan
764 views (a partir de agosto de 2020)

Obs: Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Prison Break não é e nunca foi uma série muito boa. Longa demais, com um elenco em linhas gerais fraco (a grande e mais constante exceção sendo Robert Knepper, o T-Bag) e baseado em premissa estapafúrdia com roteiros absurdos, que exigem demais da suspensão da descrença e que fazem uso constante de coincidências e deus ex machina para encerrar arcos narrativos, a série, porém, é, pelo menos para mim, um inexplicável prazer. Ou, na verdade, é algo perfeitamente explicável, pois ela cai como uma luva na lista de guilty pleasures, ou seja, obras que sabemos que são no máximo razoáveis, constantemente ruins, mas que funcionam maravilhosamente bem em um nível subconsciente que é mais forte do que nós.

É assim que me senti ao longo das quatro temporadas clássicas da série, de 2005 a 2009, só não  conseguindo ver qualidade alguma no terrível telefilme The Final Break, que serviria para “encerrar de vez” a história. Como todo guilty pleasure, após seu fim, o que ficava era aquela sensação de ter visto algo divertido com um cara tatuado que entrou na prisão para soltar seu irmão, mas não muito mais do que isso. Corta para o presente, com o anúncio da Fox de que, na linha de 24: Legacy e Heroes Reborn, ressuscitaria também Prison Break para uma “temporada evento” de nove episódios. Eis que aquele lugarzinho no cérebro reservado a porcarias divertidas acorda novamente e corre atrás das temporadas anteriores em preparação à volta de Lincoln, Sara e, por incrível que pareça, Michael Scofield, apesar de ele ter morrido e sido enterrado ao final da quarta temporada. Como não ficar curioso pelo menos com a engenhosidade de Paul Scheuring em trazer Michael de volta à vida depois desse tempo todo? Ou será que ele não volta e tudo é apenas uma cortina de fumaça?

E, como o tempo real passado entre as temporadas, a volta de Prison Break começa sete anos depois dos eventos que sepultaram a série original, com T-Bag finalmente saindo de Fox River e recebendo, junto com seus pertences, um envelope com uma foto desfocada e em preto e branco do que seria Michael Scofield vivo em alguma prisão no Oriente Médio ou país de forte influência árabe em razão de um minarete que aparece ao fundo. É a partir do detento que deveríamos odiar, mas que aprendemos a amar, que Scheuring põe todas as suas peças em movimento, logo envolvendo Lincoln, novamente envolvido com a criminalidade, e Sara, casada novamente e cuidado de seu filho Mike (Christian Michael), em uma luta para descobrir o que realmente acontecera com Michael, isso se aquela pessoa que aparece na foto for mesmo ele.

Todo o nível de absurdo que a série havia chegado na quarta temporada não chega nem aos pés do que vemos aqui. E isso, por mais contraditório que possa ser, é muito bom. Esperar verossimilhança, realismo ou qualquer coisa semelhante de Prison Break é o mesmo que esperar água doce no oceano. E Scheuring sabe disso, já que os roteiros trabalhados por ele, Josh Goldin, Rachel Abramowitz, Michael Horowitz e Vaun Wilmott parecem ter sido costurados em reuniões regadas à muita bebida e narcóticos para apagar qualquer traço da libido deles, permitindo que literalmente qualquer coisa fosse para a telinha. Com isso, temos Michael – ou alguém muito parecido com ele chamado Kaniel Outis, terrorista procurado mundialmente – em uma prisão do Iêmen tentando libertar o Osaba bin Laden local, mas com a cidade sendo constantemente bombardeada pelo Estado Islâmico. Lincoln e C-Note (Rockmond Dunbar), este convenientemente com contatos na comunidade muçulmana, partem para libertar esse Michael/Kaniel e, no Iêmen, arregimentam a ajuda da bela Sheba (Inbar Lavi).

Nos EUA, Sara tenta desbaratar o mistério envolvendo essa possível volta à vida de Michael, passando a ser perseguida por uma dupla de assassinos – A&W (Marina Benedict) e Van Gogh (Steve Mouzakis), mais incompetentes do que os stormtroopers em Star Wars – e sendo ajudada algumas vezes por T-Bag. O enorme mistério por trás de tudo parece girar em torno de um agente da CIA com agenda própria cujo codinome é Poseidon e é esse quebra-cabeças que passa a ser montado ao longo dos frenéticos nove episódios da temporada que realmente prendem a atenção do espectador que estiver disposto a aceitar os absurdos e só divertir-se da maneira mais descerebrada possível.

Aliás, descerebrada não, pois há uma hilária prepotência por trás desse trabalho de Scheuring ao pontilhar os episódios, de maneira nada discreta, com elementos que fazem remissão à Odisseia. Sim, aquela mesmo escrita por Homero, uma das mais importantes obras literárias do ocidente. Poseidon, como todos devem saber, é o deus que desvia o caminho da volta de Ulisses (ou Odisseu) para o reino de Ítaca e, consequentemente, para sua mulher e seu filho, depois que Ulisses cega Polifemo, o cíclope que é filho desse deus. Não coincidentemente, não só um dos vilões menores da temporada não tem um dos olhos e é apelidado de Cíclope (Amin El Gamal), como a cidade onde Sara e o pequeno Mike moram com Jacob (Mark Feuerstein) é justamente Ithaca, em Nova York, e há diversas outras menções a mitos gregos, especialmente nos desenhos que vemos Mike fazer já lá pelos episódios finais. Ou seja, a quinta temporada de Prison Break é, na cabeça de Scheuring, uma versão da Odisseia. O showrunner obviamente deixou o sucesso afetar sua sanidade, ou não?

Mesmo com todos os seus problemas de roteiro que são carregados de temporadas passadas e amplificados geometricamente a cada episódio, o que permite furos homéricos (pegaram a referência?) na história, a odisseia de Lincoln e essa pessoa que pode ser ou não seu irmão morto há sete anos tem um charme irresistível para quem gosta da série. Chega a ser quase sadomasoquista deixar-se envolver com os cliffhangers escalafobéticos e deliciar-se com as revelações improváveis e explicações surreais que vão se amontoando como se não tivessem solução possível, mas que, por incrível que pareça, chegam a um final redondo. É até perfeitamente possível perdoar alguns momentos com CGI sofrível e superposição de determinadas cenas – especialmente com Lincoln – que claramente deixam entrever o chroma key, diante da volta de personagens clássicos que ainda incluem pontas de Amaury Nolasco como Sucre e de Paul Adelstein como Paul Kellerman.

A volta de Prison Break era necessária? Certamente que não. A temporada pelo menos é boa? Certamente que não também. Mas seu fator guilty pleasure a alça a um patamar de divertimento que, somado à breve estrutura de nove episódios que tem, gera uma temporada-evento que, não tenho vergonhar de dizer, não deixa muito a dever ao que veio antes.

Prison Break – 5ª Temporada (EUA – 04 de abril a 30 de maio de 2017)
Criador e showrunner: Paul Scheuring
Direção: Nelson McCormick, Maja Vrvilo, Guy Ferland, Kevin Tancharoen
Roteiro: Paul Scheuring, Josh Goldin, Rachel Abramowitz, Michael Horowitz, Vaun Wilmott
Elenco: Dominic Purcell, Wentworth Miller, Sarah Wayne Callies, Rockmond Dunbar, Amaury Nolasco, Robert Knepper, Paul Adelstein, Mark Feuerstein, Inbar Lavi, Augustus Prew, Rick Yune, Kunal Sharma, T.J. Ramini, Numan Acar, Amin El Gamal, Akin Gazi, Marina Benedict, Steve Mouzakis, Christian Michael Cooper, Curtis Lum, Crystal Balint
Duração: 405 min. aprox. (9 episódios)

Você Também pode curtir

16 comentários

Beatriz Lynch 5 de agosto de 2020 - 15:12

É… ainda fico com meu Orange no quesito serie de prisão kkkkk

Responder
planocritico 5 de agosto de 2020 - 15:40

Ah, mas não dá nem para comparar! OITNB é BEM melhor!

Abs,
Ritter.

Responder
Luis Fernando 11 de junho de 2017 - 21:25

Mas a graça de Prison Break é ser sem sentido, claro que de vez em quando incomodada. Mas sempre achei Prison Break perfeito, e a quinta temporada foi boa justamente por ser mais curta.

Minha nota é 10, 5 estrelas para a quinta temporada, mas ainda foi um pouco inferior as duas primeiras.

Ah, e o Michael não merecia terminar morto, e sim vivo, tendo um final feliz com o irmão e a família.

Responder
planocritico 11 de junho de 2017 - 22:21

Eu não diria que Prison Break é sem sentido. A série tem todo sentido do mundo. Ela só é exagerada. E, para mim, apesar de eu gostar bastante, é cheia de defeitos de atuação (fraquíssimas em geral) e roteiro (repletos de clichês sempre dependentes de soluções mágicas) para eu gostar acima do guilty pleasure. Mas que bom que você gosta nesse nível!

Abs,
Ritter.

Responder
Hilton Silva 5 de junho de 2017 - 17:52

Certas coisas devem permanecer apenas na memória e nunca devem ser revividas, eu me sinto assim sobre “Prison Break”. Eu me lembro que AMAVA essa série, afinal, ela foi a minha primeira, e a primeira vez a gente nunca esquece, certo? Mas agora eu vejo como a primeira vez foi ruim, pois eu não tinha experiência, mas hoje (muito mais experiente) estou assistindo “The Sopranos”, digamos que eu me apeguei a uma coisinha chamada “QUALIDADE”!

Responder
planocritico 5 de junho de 2017 - 19:41

Cara, isso depende muito. Eu gosto de filmes como Guardiões da Galáxia e Stallone Cobra, assim como eu gosto de filmes como O Poderoso Chefão e Ladrões de Bicicletas. Gosto de pipoca e de caviar. Acho que não podemos ser nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Revia as quatro temporadas de Prison Break há pouco tempo e, dentro da proposta da série, ela se segura muito bem. Acho que comparar com Sopranos ou querer algo próximo a Sopranos (ou a Better Call Saul, só para usar série mais recente) pode nos levar a deixar de apreciar muita coisa bacana.

Abs,
Ritter.

Responder
Hilton Silva 5 de junho de 2017 - 21:41

Eu acho que você não me entendeu muito, mas eu explico: o que estou querendo dizer é que antes eu não sabia o que era realmente bom, entende? Por exemplo, antes eu achava “Prison Break” uma série espetacular e se eu assistisse Sopranos naquela mesma época, eu acharia uma série ruim. É tudo questão de aprendizado…

Responder
planocritico 7 de junho de 2017 - 02:14

Ah, sim. Tem TODA razão, @disqus_7BVBtvgOsp:disqus !

Abs,
Ritter.

Responder
richard 20 de agosto de 2020 - 13:39

Compartilho da mesma situação, eu assisti ela novamente quando ela voltou para o prime, realmente tudo ali no roteiro é previsível e clichê, mas na primeira vez (foi a primeira série que assisti), eu achava ela perfeita, por causa dos exagerados momentos de ação e suspense, porém depois que comecei a ver séries e filmes mais trabalhados, prison break virou uma serie tier B ou até C na minha opinião…

Responder
planocritico 20 de agosto de 2020 - 14:29

Mas sem dúvida é uma série B ou C, mais para C…

Abs,
Ritter.

Robson Luz 4 de junho de 2017 - 16:49

Lembro dos tempos que series de tv não eram tão populares quanto hoje e a internet era uma porcaria, Prison Break foi a primeira que assisti e mesmo com suas falhas sempre vai ser especial, já tinha achado a 4ª temporada fraca, cheia de absurdos e desnecessária e quando fiquei sabendo que ia sair a quinta logo pensei que só queriam fazer mais dinheiro com uma coisa morta mas decidi dar uma chance e até que não foi tão ruim, só senti falta da presença de Mahone, meu personagem favorito na série.

Responder
planocritico 4 de junho de 2017 - 21:08

Mas o absurdo faz parte da série. Quanto mais absurdo melhor! Na próxima, quero ver Michael fugindo de uma prisão na lua! HAHHAHAHAHAAHHAHAHAHA

Abs,
Ritter.

Responder
Nicolas Dias 3 de junho de 2017 - 23:53

Prison Break é uma série datada, é uma forma de se construir e contar uma história que hoje não se sustenta mais, porque lembro que na exibição original esses absurdos características da série não saltavam tanto aos olhos (não para a maioria pelo menos) e eram mais fáceis de digerir. Esse retorno não era necessário, não foi marcante, e se sustentou na nostalgia, mas eu gostei. Eu comprei a ideia, relevei as saídas fáceis, as conveniências de roteiro e momentos deus ex-machina que brotam a todo instante, e consegui me entreter pela nostalgia, foi legal rever os personagens de uma das séries responsáveis por eu ter viciado em séries, e por ser apenas 9 episódios não foi cansativo e conseguiu me divertir. E diga-se de passagem, eu gostei do Poseidon, foi legal ver o Michael tendo um oponente inteligente como ele, que conseguiu estar a frente dele algumas vezes, o que fez o Michael não ser tão MacGyver o tempo todo.

Responder
planocritico 4 de junho de 2017 - 00:07

Concordo com todos os seus pontos. Gostei também. E com nove episódios apenas, até que a estrutura funcionou bem. Não reclamaria se tivesse mais uma temporadinha desse tamanho…

Abs,
Ritter.

Responder
Huckleberry Hound 4 de junho de 2017 - 19:53

Com certeza,13 episódios no máximo como a boa terceira temporada funciona melhor,uma temporada gigante só funcionou muito bem (pra maioria eu acho) na primeira temporada!

Responder
planocritico 4 de junho de 2017 - 21:08

Sim, sim. Mesmo a primeira foi cheia de enrolação!

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais