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Crítica | Procurando Dory

por Iann Jeliel
78 views (a partir de agosto de 2020)

Procurando Nemo foi uma das minhas animações favoritas na infância. Seu senso de encanto passava muito pela jornada através do oceano imenso e desconhecido de um pai em busca de seu filho deficiente. No filme em questão nem nos preocupávamos onde estava o Nemo, uma vez que a narrativa intercalava o núcleo dele com o de Marlin, portanto sabíamos que a história iria chegar na convergência dos dois, a mágica estava em como isso iria acontecer, e nesse caminho Dory foi uma personagem que roubou a cena com sua personalidade que tratava uma deficiência crônica com um bom humor inocente, mas especialmente respeitoso, que no subtexto alavancava sua condição a uma especialidade que foi fundamental nas resoluções da jornada. Agora em Procurando Dory, ela ganha o protagonismo para sua própria história, onde essa especialidade é convertida do humor ao drama, e a imensidão do oceano é reduzida a um oceanário (ambiente mais controlado) para ser proporcional à dificuldade da missão da personagem que não consegue se lembrar de nada, mas tem flashes de memórias com seus pais, e agora que ela sabe, precisa encontrá-los.

Diferentemente de Procurando Nemo, não temos a resposta do outro lado, a jornada de Dory é completamente incerta, tal como a funcionalidade de sua memória que vai sendo recapitulada aos poucos por meio da busca, criando o mesmo senso de encanto da aventura do antecessor, em que cada novo passo nos deixa mais apreensivos sobre “como” e agora “se” Dory vai conseguir encontrá-los. Torna-se mais dramático por justamente oferecer a mesma perspectiva da protagonista, num exercício de empatia por sua condição que não podia deixar tantas brechas no humor para não cair em contradição, ainda que o filme seja mais bobinho que o antecessor, é aquele bobo inocente, fofo, que corrobora o processo de identificação. A Dory criança é uma das coisas mais fofas das animações dos últimos anos, e incrivelmente, mesmo com um design proporcionalmente apelativo, não se torna assim no filme porque Andrew Stanton conhece a personagem e tem a sensibilidade certa para sincronizar o desnorteamento inocente do bebê tal como sua versão adulta, que nos conquista pelo mesmo fator especial da personalidade única, que incrivelmente nunca se torna (perdão pelo trocadilho) repetitiva na narrativa.

Aliás, um dos maiores méritos desta continuação é não seguir a fórmula tradicional da empresa, nem estruturalmente nem narrativamente. Pouco importa a expansão de mundo, os novos personagens aqui são introduzidos conforme as necessidades da história. Hank, Destiny e Bailey talvez não sejam tão carismáticos quanto os do antecessor, mas funcionam muito bem como esse auxílio à protagonista em momentos calculadinhos o suficiente para não se tornarem convenientes. O que mais interessa aqui é a história intimista de Dory que talvez tenha se resolvido cedo demais no filme. O ápice emocional disso é maravilhoso, mas o filme até pela proposta de ressignificação do status de família – um subtexto também muito bem trabalhado no roteiro – sente a necessidade de criar um novo clímax para resolver apoteoticamente esse lado, o que não precisava acontecer.

O maior demérito então vai para essa construção pós-clímax, que foi inserido ali somente para ter uma carga maior de ação na história, visando acabar grandiosamente como Procurando Nemo. Contudo, são histórias diferentes, fases diferentes da Pixar, enquanto lá o universo era fundamental, aqui não é, tanto que suas melhores partes vêm justamente das pequenas coisas. Então, os últimos minutos tornam o filme extremamente inverossímil, mesmo dentro de uma fantasia em que peixes falam. Mesmo com essa extrapolação exagerada no final, Procurando Dory é uma continuação digna de um dos melhores títulos da Pixar que valoriza ainda mais uma personagem que já era especial sem precisar dizer tanto que tinha necessidades especiais, mas que se torna ainda mais especial por conseguir fazer tanto com elas.

Procurando Dory (Finding Dory | EUA, 2016)
Direção: Andrew Stanton
Roteiro: Andrew Stanton, Victoria Strouse
Elenco: Ellen DeGeneres, Albert Brooks, Hayden Rolence, Ed O’Neill, Kaitlin Olson, Ty Burrell, Diane Keaton, Eugene Levy, Idris Elba, Dominic West, Sigourney Weaver
Duração: 103 minutos

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