Home FilmesCríticas Crítica | Professor Polvo (My Octopus Teacher)

Crítica | Professor Polvo (My Octopus Teacher)

por Leonardo Campos
2142 views (a partir de agosto de 2020)

A vida marinha é intrigante, encantadora, misteriosa, deslumbrante, dentre tantos outros adjetivos, reforçados enquanto assistia o terapêutico documentário Professor Polvo, primeira produção sul-africana original da Netflix, dirigida por Pippa Ehrlic e James Reed, dupla que acompanha Craig Foster, fundador do projeto Sea Change, em suas aventuras durante um período mergulhando numa espécie de floresta subaquática de algas marinhas nas imediações da Cidade do Cabo. Dividido entre os depoimentos do aventureiro e as imagens da vida marinha local, a produção reflete a peculiar observação de Foster em relação ao polvo que habita a região, criatura que apresenta um comportamento muito além do que imaginamos para as espécies não dotadas da racionalidade conhecida por ser marca dos humanos. É um trajeto de 85 minutos sem muitas palavras. Nosso papel é apenas observar e contemplar tamanha beleza. Tanto do ponto de vista do realizador quanto do cenário natural.

A impressão que temos ao assistir Professor Polvo é a de que estamos mergulhando junto com ele. Sem cair no sensacionalismo típico das produções documentais voltadas ao desvendar da vida marinha e suas espécies, o documentário é pura poesia e se aproxima muito do trabalho realizado em Oceanos. Não há momentos frenéticos, tampouco ferrões musicais para acompanhar a passagem dos tubarões que ocasionalmente aparecem para os seus rituais de caça. Aqui, a beleza está na observação do polvo, suas estratégias de caça, numa narrativa que busca acompanhar o seu processo ainda “minúsculo” até a fase adulta, com o desfecho de sua vida por causas naturais. Há momentos de tensão, principalmente quando uma espécie de tubarão decide escolher o tentacular animal como parte de sua dieta, mas não é preciso dizer que o nosso “protagonista” sai vivo da situação e se permite ser parte da encenação desta produção audiovisual que é um primor em seus requisitos estéticos.

A edição está devidamente no ponto, a trilha sonora e o design de som não desapontam, os depoimentos de Craig Foster não se apresentam como intrusivos, dispersões para o que de fato importa neste tipo de produção: a observação do mar e de suas maravilhas. Graças ao bom trabalho dos diretores e dos documentados, Professor Polvo vai do levemente humorado ao suspense sutil, jornada que ganha pontos também por evitar excesso de informações biológicas que poderiam transformar o material num produto exclusivamente didático para guiar professores e interessados em ensinar/aprender ciências naturais. Ao focar na análise de um molusco que possui a maior parte de seu cérebro situado em seus tentáculos, criatura que pode se tornar sólida mesmo não possuindo esqueleto ou líquida mesmo tendo um bico que a poderia impedir tais transformações, o documentário reverte as informações biológicas em dados sutis que trafegam por quase uma hora e meia de filosofia, interação humana na natureza, etc.

Há uma clara noção ambientalista no filme, mas o discurso deixa de lado o panfleto. Importante ser árido em alguns casos, agressivo, pontual e até mesmo gritalhão, no entanto, filosofar sobre as coisas com mais tranquilidade também não impede que a mensagem chegue ao espectador. E é bem isso que o documentário consegue. Craig Foster versa sobre a sua observação de maneira romântica, mas não longe da realidade de relatos humanos que de fato se envolvem com a vida animal. Alguns com cachorros, outros com gatos, neste caso, temos um polvo. Após desistir de sua carreira estressante, a missão de Foster foi se dedicar ao mergulho e neste processo, conheceu o animal que sabemos, possui uma curiosa história no bojo da evolução das espécies, uma intrigante jornada que ainda deixa muitos pesquisadores. Quando encerramos o documentário, percebemos que o sentimentalismo tende a eclipsar a objetividade científica, mas como mencionado, a proposta dos realizadores parece ser justamente essa: “foco na poesia”.

Ser poético não impede um discurso crítico. É apenas colocar mais tons de “pessoalidade” num documentário que poderia ser exclusivamente acadêmico. Em Professor Polvo, podemos contemplar a tese já muito bem comprovada sobre os polvos, exposta no ótimo Outras Mentes, de Peter Godfrey-Smith. Diferente do documentário, no entanto, o livro é mais científico, mas ambos, cada um a sua forma, refletem o comportamento curioso de caça, deslocamento, proteção e outros atos de inteligência deste animal que exibe muita peculiaridade diante das tantas espécies que habitam o seu mesmo espaço. A sua luta para pegar o caranguejo, a esperteza ao batalhar com um tubarão e acabar nas costas do animal, protegido, bem como outras características deste ser encantador integram essa belíssima mensagem sobre a natureza. Ademais, em Blue Planet 2, parte da equipe que trabalha aqui já havia tratado sobre o assunto de maneira mais geral, sem o foco exclusivista de Craig Foster para seu “molusco inteligente”.

Professor Polvo — (My Octopus Teacher, África do Sul/2020)
Direção: Pippa Ehrlich, James Reed
Roteiro: Pippa Ehrlich, James Reed
Elenco: Jean-Yves Robin, Marc Stanimirovic, Nicolas Coppermann, Yann Arthus-Bertrand
Duração: 85 min.

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