Crítica | Projeto Gemini

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Ele é tão bom quanto você, porque ele é você.

Ang Lee de alguma forma encantou o exterior pela forma peculiar como trata cada imagem como uma poesia, e como isso valoriza o aspecto visual em prol da narrativa. Em um paralelo longínquo, o diretor é uma espécie de James Cameron taiwanês, ou pelo menos tentou ser em determinados momentos da sua carreira, como em As Aventuras de Pi, e agora em Projeto Gemini, buscando na tecnologia um refúgio de engrandecimento a seu estilo. As propostas de um e de outro não estão tão equidistantes, já que ambos apostam no maravilhamento imagético de uma história que não é lá tão nova, focando em um determinado elemento específico que crucialmente será 100% digitalizado. 

Nesse caso, ainda carrega o bônus de ser filmado por completo em lentes que capturam o movimento a 120 FPS (frames por segundo), renderizado ao final em 60 FPS, quase 3 vezes mais que o normal de apenas 24 FPS, proporcionalmente deixando a experiência cinematográfica mais fluída no amonte das imagens, além de a profundidade do 3D (vendido como 3D+ ou 3Dplus) ficar mais nítida. Em essência, é um filme que clama por sua vista nos cinemas, em especial nas salas com a maior capacidade audiovisual possível (IMax, XD, etc), para corroborar com a forma como ele foi filmado. Esse é o grande chamativo, e realmente faz diferença na imersão da ação devidamente bem coreografada e executada, embora seja muito gamificada inconsequentemente, já que a lógica interna do filme não corresponde às elipses de desafios episódicos, característicos da estrutura de um jogo, pelo contrário, ele as nega ao focar em um debate de humanização filosófico raso.

É verdade que essas linhas sociais fazem parte do estilo de Lee e garantem alguns momentos dramáticos eficientes, no sentido de hiperbolizar os sentimentos dos personagens diante da missão que lhes é imposta, mas fatalmente ela surge com um efeito contrário ao tom de espionagem mais extravagante. Aliás, é um filme indeciso sobre o gênero em que melhor se encaixa, se é no drama existencialista, na ficção científica ou na ação noventista. Particularmente, em cada vertente ele consegue ser tecnicamente competente, mesmo que a contragosto da maneira mais visual com que o diretor trabalha suas nuances, sendo verborragicamente explícito e autoexplicativo. Um filme que conta demais e mostra de menos, geralmente se limita a mastigar uma reflexão que deve ser sentida em algo direcionado, caindo num território moralista pouco possibilitador.

É algo que ocorre com o roteiro revisado de David Benioff (sim, o mesmo de Game of Thrones) e companhia, que tenta usar o preceito ético da utilização de clones como substitutos armamentistas como forma de distanciamento do filme de um território genérico e possivelmente gratuito para colocar um astro contra si próprio, uma jovem contra a velha, abrindo margens para o desafio digital ser necessário para o desenrolar da trama. O tratamento é no mínimo satisfatório, é possível sentir o “vale da estranheza” nas movimentações labiais imperfeitas do boneco de Will Smith jovem, o que não tira o mérito da densidade emocional do personagem, transparecida no detalhamento facial da captura de movimentos. Parece uma pessoa de verdade, com conflitos íntimos muito bem estabelecidos e uma textura que interage de forma imperceptível ao cenário, mesmo com a maior captura de quadros que dificulta o disfarce entre cortes alojados. 

O próprio Will Smith está ótimo também, a essa altura do campeonato ele sabe lidar com a performance de si mesmo de forma a ser orgânica para o personagem em questão. O arco central busca espelhamentos óbvios no estabelecimento de um vínculo entre as duas versões, como a questão do espelho e como ele reflete a psique afetada de cada um em momentos específicos, e funciona para construir um sentimento de presságio ou inquietação para quando os dois ficarem frente a frente. Embora o texto em si pinte esse conflito com uma aura de mistério um pouco desnecessária, já que além do material de divulgação ser pautado nisso, os próprios elementos pincelados para a virada acontecer são relembrados constantemente, perdendo o impacto quando de fato acontece, mesmo que a ótima trilha Lorne Balfe evoque bem o espírito de grandiosidade desejado à revelação.

Como dito, esta não é uma história muito diferente da típica de um ex-assassino que agora é caçado por seu governo em plena aposentadoria por conta de ter informações cruciais sobre a organização em que trabalhava ou ter sido enganado por ela de alguma forma. Ela tem o mérito de buscar ser sensorialmente mais sólida e testar um novo passo de um recurso tecnológico promissor, mas ao sair disso não oferece nada tão memorável quanto poderia, principalmente tendo em vista os talentos envolvidos. Talvez, se apostasse mais na persona gráfica de Lee em benefício da técnica, e não o contrário, sobraria um projeto de mais personalidade.

Projeto Gemini (Gemini Man) – EUA, 2019
Direção: Ang Lee
Roteiro: David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke
Elenco: Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Benedict Wong, Douglas Hodge, Theodora Miranne, Ralph Brown e Linda Emond
Duração: 117 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.