Crítica | Psicopata Americano 2

Há filmes que dispensam continuações. Psicopata Americano, sátira sangrenta ao individualismo corrosivo da sociedade consumista, lançado em 2000, é um desses casos que poderiam ilustrar tranquilamente a famosa cena do debate entre os estudantes de Cinema em Pânico 2. No filme de Wes Craven, os diálogos escritos por Kevin Williamson deflagram como as sequências estabeleceram uma zona polêmica de debates no bojo da indústria cinematográfica. Algumas são convincentes, tais como o próprio filme e O Poderoso Chefão 2, dentre outros.

Há casos, no entanto, que reforçam a falta de lastro narrativo que permita a continuidade do que se pretende contar. É aí que entramos em Psicopata Americano 2, nome puramente comercial para uma produção que poderia ter como título, qualquer coisa conectada às famigeradas imitações de Atração Fatal e Instinto Selvagem, lançadas dos anos 1990 pra cá, tema que por sinal para nunca se esgotar ou desistir de fazer parte do conflito dos roteiros de narrativas contemporâneas.

O sucesso do filme anterior, no entanto, é o que embasa a realização desta sequência com Mila Kunis no papel da psicopata do título, um “monstro” empiricamente construído para roubar, matar e destruir, sensualmente, algumas vidas que se postam como obstáculos em seus objetivos. Lançado diretamente em vídeo, o suspense flerta com momentos de séria busca por complexidade, para na maioria dos outros, assumir-se como uma trama farsesca, bonitinha, mas com tons ordinários. Toda a energia macabra transformada em potência, aqui, esvai-se.

Na trama, Rachel Newman (Mila Kunis) é uma garota aplicada, envolvida num grupo de estudos que tem como meta, a aprovação para uma vaga de agente do FBI. Herdeira das ações de Patrick Bateman no passado, a jovem cresceu com tendências sociopatas e decide compreender mais a criminologia para colocar os seus planos em ação. Em suma, uma psicopata disfarçada. O problema é que o roteiro de Alex Sanger e Karen Craig, autores “inspirados” nos personagens de Bret Easton Ellis, colocam os colegas de Newman como obstáculos em sua trilha.

O que fazer? Adaptar Vestibular da Morte, outro clássico da era VHS, isto é, matar os concorrentes para alcançar o primeiro lugar da lista. Para isso, ela torna-se bem aplicada nas aulas do professor Starkman (William Shatner), seu mentor, um especialista em psicopatas seriais. Ela acredita na possibilidade da vaga, mas para isso precisará aniquilar a concorrência. Dentre seus oponentes, temos Brian (Robin Dunne), Keith (Charles Officer) e Cassandra (Lindy Booth). O primeiro é um rapaz rico e esnobe, capaz de comprar a vaga para satisfazer aos seus interesses. O segundo é um aluno aplicado e a terceira chega a dormir com o professor para garantir boas notas. Todos, concorrências desleais.

Desta maneira, ao longo dos 88 minutos de Psicopata Americano 2, sob a direção de Morgan J. Freeman, o filme dialoga com suspense, tem pitadas eróticas, há um picador de gelo utilizado para a realização de algumas ações criminosas. Insana em alguns momentos, macabra noutros, a protagonista psicopata vaga pela produção trajada pelos figurinos de Donna Wong, acompanhada sempre da música farsesca de Norman Orenstein e captada pela direção de fotografia de Vanja Cernjul.

Ademais, Rachel Newman também precisa lidar com o seu terapeuta (Geraint Wyn Davies), pois a cada sessão, ele percebe que a sua paciente possui um lado macabro, algo que precisa ser sinalizada urgentemente para o mentor da jovem, esperta ao ponto de sacar que está sendo avaliada e arranha logo uma estratégia de colocar mais um nome em sua lista de eliminações. Fosse um suspense do selo Supercine, Psicopata Americano 2 não sofreria tanto com comparações. Mas por tenta surfar na onda alheia, naufragou como o previsto. Em cena, Mila Kunis exibe alguma sensualidade, sendo menos sexy que muitas mulheres fatais do cinema, mas com intensidade mortal muito além de tantas outras.

Psicopata Americano 2 (American Psycho 2: All American Girl) — Estados Unidos, 2002
Direção: Morgan J. Freeman
Roteiro: Karen Craig, Alex Sanger, Bret Easton Ellis
Elenco: Mila Kunis, William Shatner, Robin Dunne, Lindy Booth, Charles Officer, Geraint Wyn Davies, Jenna Perry, Michael Kremko, Kate Kelton, John Healy
Duração: 98 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.