Crítica | Psicopata Americano

Psicopata Americano ainda é um filme muito atual. A sua abordagem destrutiva e sadicamente paródica do american way of life reflete uma crítica aos rompantes do individualismo e materialismo da década de 1980, mas a crítica social se estende aos nossos dias, num elo entre conteúdo reflexivo e estética apurada. Dirigida por Mary Harron, também responsável pela construção do roteiro, escrito numa parceria com Guinevere Turner, a produção é dilacerador retrato da nossa sociedade de máscaras e imagens falsificadas, manipuladas para a representação de status fabricados, ainda mais atual numa leitura em paralelo com o advento e desdobramentos das redes sociais e aplicativos.

Na trama, acompanhamos um homem de vida dupla. Ao longo do dia, trabalha num escritório luxuoso. Na calada da noite, descarrega as suas ansiedades em crimes hediondos cometidos dentro de um método próximo ao que conhecemos pelo modo operacional dos assassinos slasher. Seu nome é Patrick Bateman (Christian Bale), vice-presidente da Pierce & Pierce, Bem-sucedido financeiramente, ele é um homem arrogante que possui ânsia patológica por reconhecimento. Do que adianta ter o relógio de uma marca luxuosa, se não pode ostentar? Pra que trajar-se com ternos sob medida, se não pode exibi-los em idas aos restaurantes caros da cidade, onde uma reserva às vezes leva meses para ser conquistada, caso você não seja badalado socialmente?

É esse o mundo ilusório, podre e caótico do protagonista, nada distante de nossa realidade cotidiana no Instagram e Facebook, algo que nos faz temer ainda mais a mensagem do filme. Num certo dia, um dos principais conflitos se estabelece e faz a raiva de Bateman transbordar de tal forma que um rastro de sangue começa a se desenhar em sua trajetória: a comparação dos cartões de visita. É uma cena alegórica, forte e irônica, pois os homens exibem cada um o seu, numa disputa para saber quem é dono do melhor. A melhor impressão, o melhor papel, a melhor aparência em design. Abaixo dos outros, Bateman sente a sua impotência neste mundo de aparências e disputas vazias.

Assim, os jogos psicológicos e sádicos começam. Ele despeja a sua ira no morador de rua, na garota de programa, no colega de trabalho que possui um cartão de visita melhor que o seu, caminhando por uma via sem limites, rumo ao fundo do poço do crime. Namorado de Evelyn (Reese Whiterspoon), jovem que representa as manias das estruturas tradicionais e suas famílias regidas por sucesso e boas posições sociais, Patrick Bateman ainda precisa enfrentar um novo obstáculo em seu cotidiano: o detetive Donald Kimball (Willem Dafoe), investigador que começa a ficar no encalço de seus atos covardes. Daí, as coisas começam a ficar insuportáveis para o personagem, um psicopata nato.

É quando a narrativa, num ponto de virada brilhante, nos reforça que é tudo parte de sua mente insana. Os seus assassinatos eram nada mais que uma macabra válvula-de-escape para as tensões cotidianas nas malhas do poder. Uma estratégia bizarra, mas conveniente de sua mente trabalhar a sublimação das ansiedades corrosivas. Tudo isso soa muito Clube da Luta. Com roteiro repleto de diálogos que reforçam as críticas propostas pelo argumento, inspirado no livro de Bret Easton Ellis, publicação que causou furor e polêmica, esteticamente Psicopata Americano é um adequado exercício da linguagem cinematográfica.

Os figurinos de Isis Mussenden vestem bem o personagem maníaco por seus abdominais diários, sessões de bronzeamento artificial, jantares caríssimos e consumo de drogas para tornar a existência mais suportável. Por meio de sua narração em off, entendemos o seu apego por gel sem álcool, água mineral em luxuosas garrafas de vidro, adereços de primeira linha, etc. Captado sempre por enquadramentos empoderadores, graças ao bom trabalho de Andrzej Skula na direção de fotografia, a psicopatia de Bateman ganha contornos macabros, haja vista as suas facas, a motosserra, o brilhante e afiado machado, a disparadora de pregos, dentre outras armas brancas fálicas e dignas de deixar Ghostface, Jason e Freddy com inveja.

Os seus monólogos sobre música pop dos anos 1980, antes da execução dos crimes, são hilários, mas ao mesmo tempo aterrorizantes, oriundos de uma mente doentia. O personagem circula pelos ambientes erguidos por um design de produção inspirado, sob a assinatura de Gideon Ponte, setor que por meio da direção de arte, consegue nos fazer sentir o vazio da vida de Bateman em seu apartamento sem memorabília, com paredes brancas e janelas de vidro que indicam o seu interior oco de sentido, representação cabal da sua superficialidade, parte de uma narrativa repleta de liberdades narrativas e desapego com a total verossimilhança, mas delineada por um realismo crítico de nos fazer corroer a unha e desconfiar sempre do próximo.

Psicopata Americano (American Psycho) — Estados Unidos, 2000
Direção: Mary Harron
Roteiro: Mary Harron, Guinevere Turner
Elenco: Christian Bale, Chloë Sevigny, Guinevere Turner, Jared Leto, Justin Theroux, Reese Witherspoon, Samantha Mathis, Steve Zahn, Willem Dafoe
Duração: 104 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.