Home Música Crítica | Pulp Fiction – Tempo de Violência (Trilha Sonora Original)

Crítica | Pulp Fiction – Tempo de Violência (Trilha Sonora Original)

por Leonardo Campos
143 views (a partir de agosto de 2020)

Pulp Fiction – Tempo de Violência foi a segunda grande incursão industrial de Quentin Tarantino no cinema. No filme, três histórias se cruzam sem a devida cronologia padrão dos filmes de apelo mercadológico. Na primeira, Vincent Vegas e Jules Winnfield, uma dupla de mafiosos, devem fazer uma cobrança bem específica. Na segunda, Vincent deve levar a mulher do chefe para se divertir enquanto ele está fora, numa viagem de negócios. Na terceira, Butch Coolidge, um boxeador que sabe a sua obrigação de entrar numa luta em que já há um vencedor determinado previamente, age de maneira surpreendente e foge com o dinheiro do prêmio.

Tal como Cães de Aluguel, a explosão midiática, o alvoroço do público e da crítica transformaram o filme num objeto de culto. Nomeados de Vincent e Veja e a Esposa de Marsellus Wallace, O Relógio de Ouro e A Situação Bonnie, primeiro, segundo e terceiro “episódios”, respectivamente, a produção trouxe mais uma vez, tensas discussões sobre a estetização da violência no cinema, pauta que deixava Tarantino irritado, pois na opinião do cineasta, expressa na biografia de Paul Woods, violência no cinema é uma coisa, violência na vida real é outra totalmente diferente, isto é, uma não influencia necessariamente a outra.

A trilha sonora traz elementos do funk, do rock e da surf music, este último, bem mais dominante no tecido narrativo de Pulp Fiction – Tempo de Violência, um filme visualmente expressivo e que pede ao espectador mais que uma participação passiva banal, um avanço na forma de contar histórias, além dos numerosos detalhes de ordem estética, importantes para a compreensão das dimensões audiovisuais na evolução da linguagem do cinema recente. Com música constantemente diegética, em vários momentos, nos deparamos com o botão play sendo acionado, ou então, uma agulha de disco deslocando-se ou inserindo-se num vinil, pronto para tocar para os personagens do filme e para nós, espectadores.

Imbricada aos diálogos, as músicas na narrativa são pensadas ao passo que o roteiro é edificado por Tarantino, conforme o próprio cineasta afirmou em uma das entrevistas que constam em suas biografias. Sobre a surf music, devo ressaltar que é uma presença forte no filme. Oriunda das décadas de 1950 e 1960, direto da Califórnia, o estilo musical reflete o “estado de espírito” dos personagens, com guitarras, saxofone, instrumentos de bateria e teclados que emulam a sonoridade das ondas do surfe. É um som reverberante, evocativo, com canções que versam sobre sol, mar, praias, carros velhos e corridas, além da temática sexual, tratada de maneira bastante sutil.

As seguintes faixas compõem o álbum: “Misirlou”, interpretada por Dick Dale & His Del-Tones, “Coffee Shop Music”, uma cortesia de Capitol e Ole Georg Music, “Jungle Boogie”, por Kool & The Gang. “Strawberry Letter #23”, interpretada por Brothers Johnson, “Bustin’ Surfboards”, interpretada por The Tornadoes, “Let’s Stay Together”, numa performance de Al Green, Son Of A Preacher Man, de Dusty Springfield, “Bullwinkle Part II”, por The Centurians, “Waitin In School”, interpretada por Gary Shorelle, “Lonesome Town”, de Ricky Nelson, “Ace Of Spades”, de Link Wray, “Rumble”, interpretada por Link Wray e His Raymen, “Since I First Met You”, pela banda The Robins, Teenagers In Love, por Woody Thorne, “You Never Can Tell”, desempenhada pelo “movimentado” Chuck Berry, “Girl, You’ll Be A Woman Soon”, interpretada por Urge Overkill, “If Love Is A Red Dress (Hang Me In Rags)”, por Maria McKee. “Flowers On The Wall”, do grupo The Statler Brothers, “Out Of Limits”, do grupo The Marketts, “Surf Rider”, interpretada pela banda The Lively Ones e “Comanche”, do grupo The Revels.

Nos créditos de abertura, Misirlou, conduzida por Dick Dalee His Del-Tones, canção originalmente grega, composta em 1927, adaptada ao contexto do estilo “surf music” nos primeiros anos da década de 1960, estabelece o tom nostálgico e a atmosfera musical de toda a trilha sonora. Logo mais, ao longo de Jungle Boogie, interpretada por Kool e The Gang, adentramos na zona das músicas semelhantes ao processo sonoro de videogames, com presença da flauta overdubbed, técnica de gravação que mixa duas passagens diferentes em trechos simultâneos.

Em You Never Can Tell, Chuck Berry expressa a vida em um casamento e seus desdobramentos, adornado por um arranjo dançante, impregnado de twist, dança provocante inspirada no rock and roll. Creio que seja a faixa mais representativa da trilha sonora, haja vista a famosa cena com John Travolta e Uma Thurman. A faixa Comanche, tocada pelo grupo californiano The Revels, ressoa no filme como uma das diversas canções no estilo surf music, responsável, como já apontado, pelo estabelecimento da atmosfera de Pulp Fiction – Tempo de Violência, narrativa sem partitura encomendada, com trechos de diálogos envolvidos nas músicas e presença diegética de clássicos do pop-rock.

Ademais, importante ressaltar o desapego de Tarantino pelo clichê, pois mesmo quando o utiliza, há uma reforma narrativa interna preocupada em satiriza-los. O mesmo ocorre com a trilha sonora, “desapegada do que todo mundo faz”, isto é, a ausência do estilo “Tip Pan Alley”, musicalidade constante nos filmes com traços do noir e dos gangsters. Música destinada ao público estadunidense branco, urbano, geralmente de classe média alta, essas partituras tradicionais mescladas com jazz, blues e ragtime não estiveram presentes nas histórias entrelaçadas de Pulp Fiction – Tempo de Violência.

A trilha reflete o legado de Tarantino no campo musical de seus filmes, isto é, um realizador focado em partes no resgate de canções do passado, na exorbitante presença da metalinguagem, além do apreço pelo contrato audiovisual, condição da linguagem cinematográfica que versa sobre as imagens e músicas agregarem valor entre si, de forma indissociável, o que nos leva ao que o teórico Michel Chion chama de valor agregador, a ideia de que a música emana naturalmente da imagem. Qualquer filme pode ter uma trilha sonora? Óbvio. Mas poucos conseguem torna-las tão expressivas quanto Tarantino, cineasta que em sua próxima incursão, Jackie Brown, apresentaria ao público outro trabalho apurado de condução musical para uma narrativa cinematográfica.

Pulp Fiction (Original Motion Picture Soundtrack)
Compositor:
Various Artists
Gravadora: MCA
Ano: 1994
Estilo: Rock, Surf Rock, Soul, Pop.

Você Também pode curtir

4 comentários

Big Boss 64 7 de agosto de 2019 - 01:08

🎶Girl… You’ll be a Woman… Soon…🎶

Responder
Aldir 12 de março de 2017 - 12:15

trilha maravilhosa, pra o melhor trabalho do Tarantino! Alguns filmes se tornam marcantes não só pela sua parte cinematográfica mais também pelo conjunto da obra, a trilha sonora que anda tão em baixa atualmente nos filmes torna-se essencial em grandes filmes!

Responder
JC 16 de janeiro de 2016 - 18:25

Podem até não gostar do cara como diretor….mas as trilhas sonoras do filme dele….nossa.

Responder
Lucas Nascimento 16 de janeiro de 2016 - 23:33

Não tem como botar defeito…

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais