Crítica | Punhos de Campeão

A primeira cena de Punhos de Campeão mostra um jovem vendedor de jornal tomando o ponto de venda de um comerciante mais velho na frente de uma arena de boxe. Desde já, um sutil anúncio sobre a principal temática da obra de Robert Wise. Chegando aos seus 35 anos, o boxeador Stoker (Robert Ryan), que só perdeu durante toda sua carreira, sabe que há uma corrida contra o tempo para vencer, pelo menos uma vez, antes que chegue a hora de se aposentar. Porém, o que ele não sabia era que seu treinador, sem avisá-lo (já que confiava tanto em sua derrota), havia combinado com a máfia que, naquela noite, ele perderia. Enquanto isso, sua esposa, Julie (Audrey Totter), não aguenta mais assisti-lo apanhar e afirma que não irá ao evento.

Curioso (mas não sem propósito) é o fato de Stoker e Julie estarem hospedados em um hotel que se separa da arena por apenas uma rua. Esta curta distância é algo que Wise faz questão de estabelecer, seja pelo movimento de câmera que sai de uma localização para a outra, ou no plano que acompanha o protagonista indo do hotel para a arena. Até na cena que se passa no quarto, é possível ver a frente da arena pela janela, em uma decupagem extremamente calculada. Além do maniqueísmo óbvio — a escolha entre o seu sonho profissional e o amor de sua vida — representada pela saída de um ambiente para o outro, o que parece acontecer é que, ao longo do filme, a distância entre a arena e o hotel se torna cada vez maior no campo psicológico do protagonista, simbolizando a briga entre o casal.

Assim, Wise parece estar preocupado em estender, ao máximo, o momento que precede a luta, criando um drama psicológico em tempo real para Stoker no vestiário. Cada vez que a luta se aproxima, o semblante de Robert Ryan vai ficando mais preocupado ao ver os lutadores anteriores voltando machucados e pensar que ele pode ser o próximo. De mesmo modo, todos os diálogos trocados no vestiário parecem ganhar um peso maior, refletindo sobre temas como a religiosidade, morte e juventude, todos esses que lhe afetam de alguma forma. Enclausurado naquele ambiente e certo de seu destino, o máximo que o boxeador consegue ver do mundo lá fora, através de uma frecha da janela, é justamente aquele hotel, que representa sua amada — tão perto, mas tão distante. Stoker sabe que suas chances de não voltar daquela luta são grandes, mas seu senso de honra e orgulho próprio parecem levá-lo para frente em busca de uma última chance. Por outro lado, Wise se preocupa em trazer momentos melancólicos de Julie vagando pela cidade, mas tudo a sua volta parece lembrá-la daquilo que ela quer esquecer. Logo, esses elementos vão encaminhando Punhos de Campeão dramaticamente em direção ao seu grande evento. 

Quando a luta começa, o que mais chama atenção não é nem o realismo daquela sua coreografia de socos, mas como Wise também se volta para a platéia, por meio de close-ups que buscam captar toda a pulsação do povo com o esporte.  O diretor explora esse aspecto da luta como um espetáculo, mais focado no contra-plano do que no plano, nessa alternância entre a felicidade e o descontamento que diz muito mais do que os socos em si. Inclusive, pode-se dizer que muitos dos planos escolhidos para mostrar os lutadores criam uma própria moldura interna, com os ambos dentro de duas cordas do ringue, reforçando mais uma vez essa atmosfera claustrofóbica que vai tomando cada vez mais. 

Desse modo, temos duas metades que contrastam de maneira muito forte. Obviamente, Punhos de Campeão. não está condenando os consumidores do esporte, mas evidenciando a diferença entre mundos. Enquanto o público se diverte e vai embora do espetáculo sem sofrer consequências, boxeador e sua mulher sofrem. Ao fim da luta, a arena vira literalmente uma prisão para Stoker, na qual ele deve escapar para conseguir chegar do outro lado da rua, retornado a essa lógica que parece aumentar as distâncias. 

Porém, tudo isso é quebrado no exato momento final, em que a câmera faz seu último movimento, em um zoom out, que volta a enquadrar a arena e o hotel, símbolos daqueles dois mundos (e pessoas) antes tão distantes, que agora foram unidos novamente. Não mais Stoker e Julie ficarão separados, ainda que Punhos de Campeão tenha dado muita porrada em seus protagonistas antes de permitir que isso aconteça.  

Punhos de Campeão (The Set-Up) – EUA, 1949.
Direção: Robert Wise
Roteiro: Art Cohn (baseado no poema de Joseph Moncure March)
Elenco: Robert Ryan, Audrey Totter, George Tobias, Alan Baxter, Wallace Ford, Percy Helton, Hal Baylor, Darryl Hickman, Kevin O’Morrison
Duração: 73 mins

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.