Crítica | Punição Para a Inocência (Agatha Christie’s Marple 3X02)

Ordeal by Innocence punição para a inocência Agatha Christie's Marple

A primeira coisa que devemos assumir neste episódio (ou telefilme) da série Agatha Christie’s Marple é a transformação de uma história que originalmente não tem um detetive oficial trabalhando para resolver o assassinato, em uma história onde Miss Marple é a detetive. Para alguns espectadores isso pode causar imensa estranheza e rejeição imediata, o que é compreensível. O modo como Agatha Christie apresentava suas histórias era bastante específico e pensado, em termos de atmosfera e desenvolvimento, para um grupo diferente de pessoas ou decodificadores do mistério. Quando isso é alterado, muita coisa precisa ser feita para que o restante da obra não perca a essência do original. Considerando esse parâmetro é que vemos a coisa ficar ainda mais séria em relação a esta versão do livro Punição Para a Inocência, escrito por Christie em 1958 e assumidamente um de seus favoritos, de sua própria biografia.

A colocação de Miss Marple aqui não é o único fator preocupante. Há também uma quantidade muito grande de mudanças em estruturas narrativas, estas sim, bastante sérias e que, do ponto de vista de um fã, não poderiam ter sido feitas. Mesmo tendo gostado do produto final, confesso que me incomodei bastante com algumas trocas, com o tratamento dado a alguns personagens e com o encerramento da história. O livro também não é um dos meus favoritos, mas ele tem um peso, um impacto sobre o leitor que certamente funcionaria muito mais se fosse seguido, mesmo que pequenas nuances ao seu redor fossem alteradas, sem tocar no destino ou característica desses personagens.

SPOILERS!

Na história, conhecemos a família Argyle, que, no momento em que a obra começa de verdade, passados os dois anos do assassinato de Rachel, está se preparando para o casamento de Gwenda (Juliet Stevenson) e Leo (Denis Lawson). Sob direção de Moira Armstrong, a trama ganha a simpatia do espectador, mesmo já tendo passado algumas estranhas alterações do roteiro de Stewart Harcourt (que escreveria uma péssima versão de Assassinato no Expresso do Oriente em 2010). A entrada de Miss Marple em cena não é feita de qualquer forma, ao menos em relação à chegada da personagem à casa dos Argyle. O clima de felicidade da família, as relações cúmplices e um certo ar de que existe algo escondido funcionam bem neste início, até melhor que no livro. Mas este ponto bastante positivo logo recua fervorosamente, pois cada um dos indivíduos apresentará uma versão comportamental quase impossível de atribuir ao que Agatha Christie escreveu. Seria até demais dizer que se trata de uma adaptação. Está mais para um livre leitura da obra da Rainha do Crime. Chega um certo ponto que parece estarmos em qualquer outra realidade, menos na de Punição Para a Inocência.

Meu primeiro choque veio com a alteração da personalidade de Philip (Richard Armitage) e Mary (Lisa Stansfield) Durrant. Enquanto foi possível encontrar alguma coisa positiva em todas as outras alterações de personalidade, essas duas simplesmente não se encaixam em lugar nenhum. Aliás, uma certa crise de ciúmes de Mary que temos na reta final do livro é colocada aqui como uma realidade absoluta e elevada a uma potência quase inacreditável, a ponto de não combinar com o ambiente em que toda a história acontece. De pessoa decidida, um pouco amargurada mas animada para estar na mansão Argyle e investigar o crime, Philip se transformou em um proto-sociopata irascível, olhando como se estivesse planejando um crime a cada cinco minutos. Em oposição, Mary virou uma dona de casa rica, com poses e olhares de luxo. Afetada por tabela, ao lado do casal, temos Hester (Stephanie Leonidas), que inicialmente tem uma boa construção por parte da atriz, mas se torna cada vez mais “Alice” e viajada, chegando a um ponto de não ser reconhecida como uma personagem do livro.

Mas se o espectador faz um esforço, ele com certeza vai encontrar uma história minimamente intrigante de um crime supostamente resolvido, revivido inadvertidamente por um cientista meio bobo. Este lado da trama funciona bem, porque traz o clima de convivência em uma grande mansão, onde certos segredos parecem querer sair de trás das portas e dos olhares a todo momento, mas sempre tem algo segurando a todos. Claro que isso vai depender da paciência, entrega e aceitação do espectador para o tipo de enredo que esta leitura trouxe, depois de tanta alteração em diversos níveis e camadas. No fim, o estabelecimento do mistério seguido de uma investigação incomum convence por sua peculiaridade.

O positivo saldo final, todavia, não indica que a obra não tenha problemas de estrutura. O cacoete do roteiro (seguido pela direção) de mostrar pequenas atitudes e olhares suspeitos a todo o momento ganham um estranho ar didático. Para mim, isso não chegou ao ponto do insuportável, mas era incômodo e ao mesmo tempo engraçado ver a mesma entrelinha ser martelada através de linhas do roteiro ou de alguns planos da câmera. Conforme o tempo passa, os perigos aumentam — movimento acompanhado por uma natural agilidade no ritmo da montagem — e as tragédias pré-revelação de quem é o assassino se aproximam, passamos a ver o filme muito mais como algo independente do que vindo diretamente de um livro de Agatha Christie e aí a obra ganha alguns pontos, porque existem decisões viáveis e coerentes com a proposta à parte.

Podemos dizer que esta é, no mínimo, uma versão polêmica de Punição Para a Inocência. Mesmo com todas as mudanças, o mote de “o que importa agora não é o criminoso, é o inocente” se mantém e recebe um empurrão de Miss Marple no final, num bom jogo psicológico típico da personagem, mas que, novamente, pode ganhar rejeições se buscarmos uma compreensão Universal desse desfecho com aquilo que o livro nos traz. Isoladamente, o produto é bom, aproveitando-se da linha familiar explorada na literatura, mas não há muito mais semelhanças. O restante é apenas uma luta do espectador para captar, entender e processar o que parece ser um outro Universo de mistério baseado na criação de Agatha Christie.

Agatha Christie’s Marple 3X02: Ordeal by Innocence (Reino Unido, 30 de setembro de 2007)
Direção: Moira Armstrong
Roteiro: Stewart Harcourt (baseado na obra de Agatha Christie)
Elenco: Geraldine McEwan, Juliet Stevenson, Denis Lawson, Alison Steadman, Richard Armitage, Stephanie Leonidas, Lisa Stansfield, Burn Gorman, Jane Seymour, Tom Riley, Reece Shearsmith, Julian Rhind-Tutt, Bryan Dick, Gugu Mbatha-Raw, Andrea Lowe
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.