Crítica | Punição Para a Inocência, de Agatha Christie

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SPOILERS!

Agatha Christie dizia que Punição Para a Inocência (1958) era, juntamente com A Casa Torta (1949), os livros favoritos de sua própria bibliografia. A obra se passa dois anos depois do assassinato de Rachel Argyle. A esta altura, o suspeito de ter cometido o crime — o próprio filho de Rachel — havia sido preso, julgado, condenado e morrido na prisão, seis meses depois. Mas então surge a figura do Dr. Arthur Calgary. Depois de uma concussão e de uma expedição para a Antártida, o cientista volta ao Reino Unido, é informado do crime, reconhece a foto de Jacko Argyle em jornais ‘antigos’ e aparece para o escritório do advogado de defesa, para a polícia e para a família Argyle com uma informação impensável. Ele era a peça que faltava. Ele era o álibi de Jacko. Independente de todas as coisas ruins que ele fizera, a verdade é que o crime pelo qual foi condenado e aprisionado não era um crime que ele havia cometido. Jacko era perverso. Mas neste caso, era inocente.

A visitação a casos “já fechados” não era uma novidade na obra de Agatha Christie, mas aqui, a memória de um crime “resolvido” ganha ares de ficção psicológica e amadora, porque durante a maior parte do livro, não existe um Detetive encarregado do caso e a investigação é realizada pelo “homem que chegou tarde demais”, o Doutor Calgary e, em fase já avançada da narrativa, por Phillip Durrant, esposo de Mary Argyle, uma das filhas da falecida. A narrativa fica marcada por um profundo desenvolvimento dos personagens, em detrimento de uma verdadeira investigação do crime — ou de algo mais intenso, talvez um pouco mais formal ou constante, como ocorre nos livros onde há um especialista responsável.

O que choca os personagens aqui também é algo que choca o leitor, ou seja, as mais estranhas reações possíveis ao anúncio que Calgary faz a respeito da inocência de Jacko. Como disse antes, trata-se de um livro onde o desenvolvimento dos personagens ganha máximo destaque, o que torna as reações dos irmãos (todos filhos adotivos), do viúvo Leo Argyle, da governanta da casa (ou algo próximo disso) e da secretária de Leo ainda mais suspeitas, criando muito cedo a boa sensação que temos em livros de mistério, onde existem muita gente que poderia ter cometido o crime, onde o espaço de ação é relativamente limitado e onde cada conjunto de capítulos trazem detalhes que nos fazem mudar de suspeito para suspeito, terminando por não ter certeza de quem cometeu o crime.

O problema desta formatação mais teatral é que faltam coisas interessantes para o leitor em praticamente todo o miolo da obra. Estou certo de que esta recepção pode variar de leitor para leitor, mas à parte as visões pessoais do que uma linha narrativa pode trazer de interessante ou não, o fato é que o livro começa de maneira instigante, com uma excelente descrição do ambiente e da chegada meio macabra do Doutor à mansão da família, em Sunny Point. Na outra extremidade, apresenta-se uma excelente sequência de acontecimentos, momentos antes da revelação final, enquanto a própria revelação e principalmente o desfecho do volume se mostram burocráticos e anticlimáticos. No meio de tudo isso, já uma montanha-russa de questões que ora parecem interessantes, talvez nos levando para algum lugar; ora parecem simplesmente descrições do que acontece na casa enquanto as pessoas dizem frases suspeitas para confundirem o leitor.

A rigor, nenhuma dessas partes são ruins, mas são bem fracas se comparadas aos momentos iniciais e imediatamente pré-revelação do mistério, além de ocupar um espaço que normalmente a autora cederia para análises do ambiente e de situações específicas, não exclusivamente de pessoas. Claro que existem vantagens ou incursões curiosas com tudo isso, basta considerar a visão de alguns personagens sobre o casamento, sobre o comportamento e o desejo feminino, sobre o conceito de família e a relação entre filhos adotivos e seus pais. Não concordo com a maioria dessas ideias internas da obra (novamente, ideias dos personagens, não necessariamente da autora), mas acho bastante interessante como esses pensamentos de época compõem a personalidade dos indivíduos e ainda servem como material para pensar o caso. O delito e a repercussão dele, que Agatha Christie apresenta aqui, nos fazem considerar aquilo que pouquíssima gente pensa quando se trata de um crime não é resolvido ou de uma injustiça cometida contra alguém. O culpado a gente já sabe como cabe na história. Mas… e os inocentes, como é que ficam?

Punição Para a Inocência (Ordeal by Innocence) — Reino Unido, 3 de novembro de 1958
Autora: Agatha Christie
Editoria original: Collins Crime Club
No Brasil: L&PM Pocket, 29 de junho de 2009
Tradução: Pedro Gonzaga
272 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.