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Crítica | “Punisher” – Phoebe Bridgers

por Matheus Camargo
291 views (a partir de agosto de 2020)

Either way, we’re not alone
I’ll find a new place to be from

Muito se falava sobre o próximo trabalho de Phoebe Bridgers, uma artista que cresceu lentamente como uma nova promessa do indie-folk, ainda em meados de 2017, após um debut sólido e intimista, que não falhava em demonstrar o poder de suas letras e a originalidade em que ela era capaz de expressar seu âmago. E é num momento muito nebuloso em que Punisher, seu segundo disco, caminha em jardins assombrados por questionamentos dolorosos e pessoais na expectativa de entender algo tão abstruso quanto a vida. É uma ferida exposta. É um sonho, meio abstrato, onde você acorda assustado tentando achar algum sentido. É aquela música silenciosa da madrugada que te abraça nos momentos mais ilusórios. É um ode à desconexão da atualidade.

A capa com uma fantasia de esqueleto e um contraste entre azul e vermelho foram suficientes para chamar a atenção dos meus olhos. Mais ainda quando, após repetir o álbum por inúmeras vezes e digerir cada palavra cantada, ver Bridgers se apresentar com sua banda nos vídeos que surfam a web, onde todos se encontram com a mesma fantasia irônica, simples, vaga, e estão numa sintonia que torna o ato de ouvi-los além do imersivo. Suas performances são inconsistentes e cruas. Entre uma música e outra, dão risada de suas próprias experiências ou de seus erros, contam das vezes que gritaram da plateia que a música é ruim, ou apenas resumem suas letras complexas, com um cáustico “essa música é sobre não acreditar em deus. é… decepcionante!”. Tudo se encontra num oceano que está em constante renovação.

Garden Song, o primeiro single do trabalho foi lançado junto a um videoclipe. Em seus devaneios, Phoebe é rodeada por pensamentos, representados por pessoas trajadas das aleatoriedades que, provavelmente, não fazem sentido nem mesmo ao eu-lírico. E eles dançam, se beijam, abraçam seu corpo, dão algo a ela, ou retiram, mas sabem que não precisam ser levados a sério, porque é tudo parte de uma euforia que provém do subconsciente da própria, enquanto sua voz ao menos tenta traduzir aquele tornado interno. E ela canta, numa timidez delicada, como se estivesse num sonho recorrente que amedronta e afeta todas as partes da composição humana.

Chinese Satellite dialoga sobre uma sensação estranha de “querer acreditar” em algum ser superior porque isso provavelmente daria um conforto a mais em momentos difíceis. A solidão contida na ideia de estar sozinho em um universo tão grande se torna desesperadora, mas existe um apreço certamente agonizante na ideia de ter a certeza de que, no fim disso tudo, você não vai simplesmente embora pra sempre. É uma concepção muito sensível da fé que concorre fortemente ao título de uma das canções mais bem-escritas do ano. Entre expressões do seu psique e de sua genialidade posicionada em cada linha e harmonia, encontramos pérolas de sensibilidade como “there’s a last time for everything”, cantada suavemente na última repetição melódica de Halloween. Levando essas sensações ao extremo, temos a album-closer I Know The End, a maior faixa da obra, que em quase seis minutos resume seus medos, pesadelos, angústias e traumas – ou pelo menos tenta. É demais para falar. Começa serena, beirando um repouso, relembrando momentos nostálgicos, falando sobre uma dependência amorosa, voltando à busca da espiritualidade, sentindo a dor de uma queda que nós sabemos que virá logo. E ela vem, com gritos de aflição repetindo a mesma frase psicodelicamente. “The end is near! The end is here!” num lamento devastador de bateria, guitarra e intensidade que te fazem se sentir próximo até demais do juízo final – e a ideia de enfrentá-lo nunca soou tão atrativa.

Poucas coisas me soaram tão enigmáticas e escrachadas ao mesmo tempo. Phoebe Bridgers cria um universo que, de início, parecia apenas um refúgio do assustador mundo em que estamos vivendo, mas é justamente um enfrentamento aos milhões de “finais do mundo” pelos quais passamos até aqui, sejam eles internos, pessoais, ou globais. Punisher tem um storytelling envolvente, uma produção abrangente, letras inteligentes, uma voz de aquecer, mas ele é mais que um disco. É uma desconstrução do temor pela vida, uma verdadeira e definitiva catarse. Quando sobe, te faz pular e girar e se perder entre batidas fortes e acordes tocados com garra. Quando desce, te faz refletir, mastigar cada palavra e tensiona a sua mandíbula. É um deleite libertador e, sem dúvidas, uma das experiências mais apocalípticas que já presenciei no campo da música.

Aumenta!: Punisher
Diminui!:
Minha canção favorita do álbum: Chinese Satellite

Punisher
Artista: Phoebe Bridgers
País: Estados Unidos
Lançamento: 18 de junho de 2020
Gravadora: Dead Oceans
Estilo: Folk, Rock

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