Crítica | Quadrilha de Sádicos 2

Com o fracasso de sua versão para O Monstro do Pântano em 1982, Wes Craven precisava de algo urgente para se fazer relevante na indústria cinematográfica. Ele havia demonstrado habilidade de gênio ao construir o suspense avassalador em Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos. Em 1984, apresentou ao público o melhor e pior de seu lado profissional: lançou o antagonista Freddy Krueger, personagem complexo que ao lado de Jason Voorhees e Michael Myers, tornou-se parte integrante do trio protagonista da Era de Ouro do Slasher estadunidense.

Seria um ano para colecionar críticas apenas positivas, caso Quadrilha de Sádicos 2 não fosse lançado, produção descartável, com roteiro sem razão nenhuma de ser e material estético abaixo da linha do slasher mais vulgar que o leitor possa imaginar. Nada funciona num filme que nem sequer se oferta como “sadismo intelectual”, um dos daqueles momentos a que assistimos algo péssimo apenas para se divertir, constatar os problemas e fazer parte de uma comunidade imaginada de consumidores de cinema das margens.

Cheio de flashbacks explicativos, o filme aposta num grupo de motoqueiros que precisam atravessar a mesma via deserta da história anterior para chegar ao evento que se programaram. Oito anos depois do sofrimento da família Carter, acompanhamos agora Bobby (Robert Hounston), o filho mais novo, a conversar com seu psiquiatra. Ele explica o trauma e fala que não sabe se conseguirá atravessar o “deserto” de novo haja vista os horrores anteriores. Ficamos perplexos com essa possibilidade absurda e desnecessária, mas a história nos explica melhor.

Ele é parte do grupo de motoqueiros que pretendem atravessar a estrada e testar um novo combustível, feito pelo próprio Bobby. O psiquiatra alega que os monstros já estão mortos e que ele deveria seguir em frente. Os sobreviventes sequer são mencionados, por isso, esqueça o bebê, a irmã e o cunhado. Agora acompanhamos o grupo que vai para a viagem sem Bobby, personagem que declina da proposta no último instante, deixando Rachel (Colleen Riley) como a acompanhante do pessoal.

Rachel, saberemos depois, é Ruby civilizada, a integrante do clã canibal que foi trazida para a civilização e transformada em um ser humano convencional. Ela namora Bobby e mesmo ciente de toda a história, segue a viagem, algo estranho, mas que desconsideramos depois de ver, em menos de 20 minutos, que o filme é uma confusão gigantesca, sem nada que o permita ser levado à sério. Um deles é a trilha que os viajantes pegam, tendo como proposta cortar caminho. Atrasados para o evento, o grupo ignora a lenda urbana do local, algo que Rachel sabe ser verdade.

O esperado acontece: flashbacks nos mostram que os canibais supostamente mortos no primeiro filme na verdade sobreviveram e que a estrada continua perigosa, com criaturas que não se sabe exatamente como, dominam motocicletas. Todos, vilões e mocinhos, comportam-se de maneira comprometedora e desafiadora, ora da verossimilhança, ora do bom senso. Lá pela metade, já estamos tão desgastados com a ruindade do filme que não nos importamos mais com nada e oramos para que todos morram e tudo acabe.

Da mesma maneira que a história de Leatherface, Craven investe num narrador gutural para explicar na abertura que os eventos assistidos são baseados em acontecimentos da vida real. Ele diz que os sobreviventes desse massacre físico e psicológico jamais esquecerão de tudo que ocorreu naquela região distante das grandes cidades e estradas, local onde as “colinas ainda parecem ter olhos”. O clima de horror prometido se desfaz logo no começo. Observe.

Um dos personagens sobe por uma via pouco convencional para chegar ao quarto da namorada, tendo em vista aplicar um susto. Mascarado, ele espera aterrorizá-la com o figurino macabro, pois a garota sequer espera a visita inesperada. O problema é que depois do susto, nos perguntamos se somos idiotas, burros ou se o roteiro está afim de nos desafiar, pois a personagem é cega e não tinha como se assustar com a máscara do namorado. Fosse apenas isso, riríamos do filme largamente, mas os desafios mentais nos acompanham até o desfecho, então, fica difícil suportar.

Harry Manfredini, ao assinar a trilha sonora, utilizou texturas de Sexta-Feira 13 Parte 4 – O Capítulo Final em quase todos os trechos do filme, algo bastante incomodo para quem conhece o material sonoro da franquia, basicamente único em todos os filmes, com alterações entre uma passagem e outra. A falta de criatividade também acomete o design de produção de Dominick Bruno, provavelmente inspirado nos cadáveres expostos na caverna em O Massacre da Serra Elétrica 2, outra sequência desnecessária para um filme de terror que já tinha falado mais que o suficiente em seu primeiro filme.

Na direção de fotografia, David Lewis nada faz para melhorar o filme, dramaticamente ruim e visualmente constrangedor. Essa não seria a primeira mancada de Wes Craven. Alguns anos depois, o cineasta tentou com A Maldição de Samantha, mas não avançou, pois o filme foi um fiasco. Arriscou com Shocker – 100 Mil Volts de Terror. Também não deu em nada que preste. Apenas em 1994 as coisas mudaram, no retorno de Freddy Krueger para seu sétimo filme (e último), segundo comandado pelo cineasta. Pânico, em 1996, também levantou a sua moral.

Esperamos continuações ruins, no geral, das pressões dos estúdios e de realizadores de segunda linha que pegam as obras-primas basilares de uma mitologia e as tornam exaustivas. Mas como lidar com isso quando o próprio criador do primeiro filme demonstra ter desaprendido tudo numa continuação? No mínimo se decepcionar, não é mesmo? Ao longo dos breves, mas tediosos 85 minutos, Quadrilha de Sádicos 2 nos apresenta uma das piores estruturas dramáticas de Wes Craven, o que resultou numa narrativa dolorosamente ruim.

Quadrilha de Sádicos 2 (The Hill Have Eyes 2/Estados Unidos, 1984)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven
Elenco: Tamara Stafford, John Bloom, Kevin Spirtas, Colleen Riley, Janus Blythe, John Laughlin, Willard E. Pugh, Peter Frechette, Robert Houston, Edith Fellows, Susan Lanier
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.