Crítica | Quadrilha de Sádicos

Wes Craven estava em plena forma quando desenvolveu o sufocante Quadrilha de Sádicos, alguns anos após o ótimo desempenho ao emular Ingmar Bergman em Aniversário Macabro, o seu primeiro filme, narrativa impactante e bem conduzida, produção que o colocou, juntamente com Tobe Hooper e George A. Romero, no hall do horror, panteão que mais adiante incluiria David Cronenberg, John Carpenter e Sean. S. Cunningham, realizadores de filmes que interpretaram as inseguranças e medos sociais da década 1970 e 1980 por meio de narrativas tensas e horripilantes. A divulgação já deixava espaço para a especulação. Em seu cartaz, os produtores afirmavam que “uma típica família americana… que não queria matar… mas também não queria morrer”. O que esperar de um filme com essa premissa, isto é, matar ou morrer?

Quadrilha de Sádicos é resultado das peculiaridades dos anos 1970, era de conflitos sociais, mudanças de paradigmas de produção cultural e turbilhões políticos que precisavam ser exorcizados, expurgados por meio de sessões terapêuticas. Bem próximo ao clima e estilo do também eficiente O Massacre da Serra Elétrica, desta vez, mais um grupo de pessoas se encontrarão sitiadas diante do maior pesadelo de suas vidas. Escrito e dirigido por Wes Craven, a produção segue a agenda de críticas sociais e violência explícita do horror que se produzia na época, tendo como diferencial o seu tom de exortação dos problemas que acometiam o esfacelamento da família que já não podia mais ser tradicional, tamanha as forças das mudanças no tecido social, subtexto latente em cada cena da produção.

Ao longo dos 89 minutos de Quadrilha de Sádicos, o cineasta Wes Craven nos coloca diante de uma angustiante viagem de um grupo de pessoas da mesma família, todos em profunda provação ao ter que lidar com situações extremas e inesperadas. Na trama, humanos são colocados em confrontos com canibais e o duelo entre civilização e barbárie se estabelece numa narrativa que para os padrões atuais, soa como básica, mas que em sua época, transgrediu muitas regras e chocou plateias e especialistas. Como no filme do clã de Leatherface, a família é o alvo, mas neste caso, dois grupos, inicialmente colocados como o bem e o mal, para adiante, nos fazer adentrar num debate sobre violência e barbárie e o questionamento sobre quem age como humano ou animalesco diante de determinadas situações.

Basicamente, em minha leitura, observo que uma possível “moral” da história é a capacidade do ser humano de se reinventar e ser tão monstruoso quanto o ser que lhe ataca e agride. No jogo da sobrevivência, observa-se pela lição de Wes Craven que vale tudo. É o que contemplaremos na catarse de família Carter. Antes da viagem maldita que demarcaria para sempre a falta de sorte dos que não morreram, encontramos Ruby (Janus Blythe), uma garota de importância narrativa, a tentar permutar com Fred (John Steadman). Os objetos que a jovem leva são roubados de viajantes que anteriormente, passaram pelo local e tiveram o mesmo destino que espera a já citada família Carter, ponto nevrálgico da narrativa. Fred, ciente do que acontece naquele local, começa a se negar, pois alega que as ações dos “olhos das colinas” estão chamando à atenção dos militares, haja vista a quantidade de famílias desaparecidas.

Os conflitos começam quando os viajantes param no posto da estrada e dialogam rapidamente com Fred sobre um atalho, o tal caminho habitado por presenças inoportunas. Quem comanda o grupo é Big Bobby (Russ Grieve), o patriarca da família. Ele é um veterano da polícia, aposentado e interessado em desanuviar com a matriarca Ethel (Virginia Vincent) e os filhos Brenda (Susan Lanier), Bobby (Robert Houston), Lynne (Dee Wallace), a última, acompanhada do marido Doug (Martin Speer) e seu bebê, além dos cachorros Beauty e Beast. Fred ainda insiste para a família seguir pela rota normal, mas a teimosia do patriarca que exala machismo por todos os seus poros é maior e ele pega o atalho.

Um acidente calculado impede a continuidade da viagem em pleno deserto. Impedidos de ir ou vir, eles se separam para resolução dos problemas. Com o acidente, a roda do carro prejudicada impede o deslocamento. Numa era predecessora ao GPS e tecnologias cheias de aplicativos, o grupo fica à mercê dos vultos que passam a observá-los com binóculos. A caça e os caçadores estão em plena ação. Enquanto o pai vai para um lado com o genro Doug, Bobby, filho mais novo, fica com a mãe e as irmãs. Fora de cena por algum tempo, após ser o primeiro a fazer parte do ataque que ganhará contornos violentos mais adiante. Doug acaba por se separar, Bobby se recupera e volta, um dos cachorros aparece violentamente morto, uma das transgressões narrativas que marcaram a época, algo incomum em filmes, postura corajosa de Wes Craven que lhe rendeu um monte de críticas bastante contundentes.

O roteiro, bem organizado no quesito tensão, nos mergulha de maneira abissal, com desdobramentos parciais da ação. Eles primeiro perdem o carro, não conseguem se deslocar de maneira mais ágil. Logo mais, sitiados, tendo os seus elementos civilizatórios usurpados. Observados de maneira curiosa, graças ao ótimo trabalho de Eric Saarinen na direção de fotografia, sentimos a presença do mal, tal como a criatura marinha de Spielberg, mas não os enxergamos de maneira clara, algo que ocorre apenas nos ataques próximos ao meio da ação, quando de fato o grupo se depara com Júpiter (James Whitworth), Mars (Lance Gordon), Pluto (Michael Berryman), Mercury (Peter Locke) e Mamãe (Cordy Clark), além de Ruby, já conhecida pelos espectadores, membro que se dissociará do grupo canibal para ajudar a família Carter próximo ao desfecho.

Anteriormente, somos informados que a área onde vivem já foi e ainda é foco para testes militares de tiro e experimentos com material nuclear, alegoria para desumanização dos habitantes locais. O patriarca, aprisionado por um desses membros (Júpiter), torna-se isca para as atrocidades que surgirão em seguida. O clã estabelece uma brincadeira nada confortável com fogo e a imprecisão sobre o que ocorreria ou não dá espaço para a histeria do grupo que é atacado sem dó nem piedade. Antes do ataque principal, acompanhamos uma cena explicativa que nos permite compreender, não necessariamente aceitar, a situação daquelas pessoas e de seus hábitos estranhos. Durante o percurso em que Big Bobby se perde Doug, ele acaba indo parar no posto de gasolina. Ao chegar, depara-se com Fred tentando se matar. Questiona e durante a explicação o homem alega que não aguenta mais a situação e conta o passado tenebroso que se desdobrou nas ações violentas do presente. Na história absurda, o homem confessa que um de seus filhos nasceu animalesco, nomenclatura encontrada para se referir a possível deficiência do jovem.

Certa ocasião, em confronto, ele machucou o jovem e quase o esmagou, largando-o para morrer do deserto. O que se sabe é que a criatura não morreu e tal como uma força da natureza, fez a sua espécie se manter firme e perpetuou até mesmo uma família. Agora, habitam a região e são donos desses atos abomináveis que observaremos ao passo que a narrativa avança, depois que a calmaria da revelação dá espaço para um susto, seguido de morte e aprisionamento de Big Bobby, colocado na situação citada anteriormente, introdução ao ataque aos membros da família Carter, até então acuada e passiva, sem saber exatamente o que lhe esperava.

A narrativa ganha uma virada intensa quando o bebê é raptado e passa a ser cogitado a jantar do clã canibal. É neste momento que o resto da família Carter parte para o ataque, cheio de fúria. Eles estão cientes dos monstros que precisam enfrentar. A repulsiva cena em que o pássaro de estimação da família é devorado vivo por um dos canibais já diz tudo. A palavra de ordem é guerra. E neste quesito, segue bem a linha conservadora do “olho por olho, dente por dente”, isto é, é “dando que se recebe”, “aqui se faz, aqui se paga”, “bandido bom é bandido morto”. Depois dos horrores que presenciaram, os sobreviventes partem para a batalha de maneira tão transgressora quanto os seus algozes. O paralelo com o filme de Tobe Hooper se mantém, com um grupo de pessoas acuadas num ambiente que não lhe é natural.

Mas em dado momento, os berros passivos de desespero são trocados por personagens que empunham as armas que podem para tentar sobreviver, afinal, ninguém queria matar, mas também não queria morrer, não é isso que divulgaram na campanha promocional da produção? Outro detalhe importante é um certo distanciamento do maniqueísmo comum neste tipo de enredo. Sabemos que o grupo que vive por ali foi alvo de situações políticas contextuais, tão vitimadas pelo sistema quanto os familiares que atravessaram “o seu espaço”. A diferença é que o convívio social e civilizatório de um é o oposto da relação ambivalente do outro, nascido e crescido como “animal na selva”, num jogo de relações culturais extremas e diferentes, comportamentos que tornam o filme um arsenal de momentos de desconforto.

Visualmente, Quadrilha de Sádicos é uma a experiência é positiva. Com design de produção assinado por Robert A. Burns, o mesmo de O Massacre da Serra Elétrica, o filme trabalha bem o espaço cênico natural, com suas paisagens amplas, de colinas extensas, responsáveis por criar bifurcações ideais para os momentos de tensão, um dos melhores pontos do roteiro. Na seara dos figurinos, assinados por Joanne Jaffe, as cores dos trajes são bem trabalhadas entre a noite e o dia, numa série de escolhas acertadas para a construção visual de um filme de baixo orçamento, carente de muitos efeitos especiais e afins. Orelhas ressecadas e dentaduras e funcionam como o “souvenir” de passageiros que tiveram um terrível destino no local fazem parte dos adereços dos membros do clã de malditos.

Com a condução sonora de Don Peake é outro acerto, tal como o design de som e seus uivos, ventos assobiantes e outras manifestações auditivas que mesclam pavor e arrepios. A citada direção de fotografia com seus enquadramentos amplos, representantes do perigo que pode vir de qualquer lugar, também é uma escolha narrativa importante para permitir que o filme funcione bem. Gravado no deserto de Mojave, na Califórnia, Quadrilha de Sádicos é inspirado numa história lida por Wes Craven durante extensa pesquisa na Biblioteca Pública de Nova Iorque. Foi lá que ele encontrou relatos sobre o caso Sawney Beave, escocês que ao longo de alguns anos da transição entre os séculos XIV e XV ficou aprisionado numa região repleta de montanhas íngremes, juntamente com a sua família, um grupo de 16 pessoas, seres humanos que acabaram adotando uma postura tida como “selvagem” ao atacar e devorar as expedições que passavam pelo local. Agiram assim por mais de 25 anos, até a descoberta, seguida de prisão e pena de morte, história bem adaptada para o contexto de Wes Craven em começo de carreira.

A narrativa, cabe ressaltar, não envelheceu e continua tão impactante que não perde para a ótima refilmagem de 2006, Viagem Maldita, assinada por Alejandro Aja, mais óbvia e explícita, porém com seus tons críticos igualmente aguçados.  Os filmes de terror da geração de Quadrilha de Sádicos mudavam o panorama do que se produzia no gênero, pois os fantasmas, casas assombradas e monstros clássicos e mutações genéticas estavam ficando para trás. Havia um punhado de imitações de Tubarão, focada em monstros, mas todos alegóricos para medos verdadeiramente humanos. Com o extenso subtexto que incluía o Vietnã, os conflitos raciais cotidianos, a descrença na paz e amor hippie e no pessimismo e desesperança da Era Nixon, o horror real transformava humanos em aberrantes monstros perigosos.

Quadrilha de Sádicos (The Hill Have Eyes/Estados Unidos, 1977)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven
Elenco: Dee Wallace, James Whitworth, John Steadman, Lance Gordon, Martin Speer, Michael Berryman, Robert Houston, Russ Grieve, Susan Lanier, Virginia Vincent
Duração: 89 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.