Crítica | Quando o Amor Acontece

Na cerimônia do Oscar de 2010, antes da entrega da estatueta de Melhor Atriz, cada indicada teve a sua trajetória comentada por alguém que havia trabalhado com a próxima ganhadora de um dos prêmios mais importantes do evento anual. Forest Whitaker, mais conhecido por suas incursões dramáticas enquanto ator, foi o convidado para tecer palavras de respeito à Sandra Bullock. Ele comentou a experiência com a atriz em Quando o Amor Acontece e trouxe à tona as características que a tornam uma pessoa admirável na indústria.

Contemplada pelo prêmio na ocasião e indicada mais adiante por seu desempenho em Gravidade, a atriz provavelmente rememorou o final dos anos 1990 e o grande balanço que houve em sua carreira, ameaçada pelo fracasso de Velocidade Máxima 2 e também pela cobrança frequente dos críticos em relação aos papeis mais relevantes e fortes, pois não há condições de se manter como a namoradinha da América a vida toda, principalmente numa indústria que descarta tão rápido quanto fabrica. Ponto pouco flamejante de sua trajetória, o filme não goza dos mesmos privilégios de outras produções, mas não deve ser considerado uma obra tão menor.

Narrado em 114 minutos, Quando o Amor Acontece foi concebido com base no roteiro de Steven Rogers e retrata uma história potencialmente cinematográfica, principalmente no terreno das comédias românticas e dramas: a redenção de alguém que foi subjugado. Humilhada publicamente pelo marido e amiga que a convidam para um programa no estilo Casos de Família, a sua personagem, Birdie, passa para o público a sensação de vulnerabilidade. Alguém do interior que se casou e construiu a família em cidade grande. Esnobe no passado, não ganhou a sorte na metrópole e depois do grande golpe, precisará retornar para casa de sua mãe e se reorganizar para dar novo rumo a sua existência.

Em sua jornada de retorno, Birdie leva Bernice (Mae Whitman), filha e lembrança do casamento fracassado com Bill (Michael Paré), um cafajeste de marca maior. Ao retornar para o lugar onde nasceu, Birdie atravessa a sua recuperação de maneira deprimente. A filha que implica com tudo, a presença constante de Ramona (Gena Rowlands), sua mãe, majestosa e guerreira, sempre positiva diante dos acontecimentos ruins, mas também dos bons. Ela é quem desperta para a possibilidade de Justin (Harry Connick Jr.) se tornar seu novo par romântico.

Para contar essa longa história, a equipe que acompanha Whitaker cumpre bem o trabalho de ajuste dos elementos estéticos do drama romântico. A direção de fotografia de Caleb Deschanel aposta numa iluminação fria em alguns momentos, em especial, nos instantes de agonia da personagem de Sandra Bullock abandonada pelo marido. Logo mais, investe em tons mais alegres, tendo em vista acompanhar a evolução da jornada da personagem. O design de produção de Larry Fulton também acerta, em especial o setor responsável pelos figurinos que delineiam o estereótipo “dona de casa” e country. A condução musical de Dave Grusin faz seu trabalho com base na simplicidade, sem momentos memoráveis ou estratégias de concepção além do solicitado industrialmente.

Das cinzas ao voo pleno, Birdie vai rever pessoas que deixou para trás, outras que magoou, logo mais, vai ceder aos encantos de Justin, mas antes disso, comerá o pão que o diabo amassou. Tudo isso é narrado de maneira convencionou por Fores Whitaker, num filme bem “família”, leve e pouco pretensioso, sem grandes diálogos e momentos, mas agradável e melhor que muitas comédias românticas de Meg Ryan, Julia Roberts e da própria Sandra Bullock, atrizes que foram os grandes nomes deste gênero cinematográfico nos anos 1990, um segmento rentável por bastante tempo, mas que atualmente se encontra na lama do ostracismo.

Quando o Amor Acontece (Hope Floats – Estados Unidos, 1998)
Direção: Forest Whitaker
Roteiro: Steve Rogers
Elenco: Sandra Bullock, Gena Rowlands, Harry Connick Jr., Mae Whitman, Michael Paré, Cameron Finley, Bill Cobbs
Duração: 114 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.