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Crítica | Quando Paris Alucina

por Leonardo Campos
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Criatividade é um tema complexo. Em Ser Criativo, de Stephen Nachmanovitch, o autor descreve que o trabalho criativo das pessoas é algo constantemente submetido ao poder dos limites ou circunstâncias que exigem adaptação e postura controlada. Ao lidar com os “limites”, uma espécie de potência para a criatividade, podemos ter a concretização da inspiração? Os erros, tidos como fracassos, na perspectiva de Nachmanovitch, podem ser transformados em matéria-prima para o aprendizado. No desenvolvimento de Quando Paris Alucina, analisado no período em que conferia a leitura deste famoso livro de Nachmanovitch, a capacidade de expansão criativa humana é a premissa para o trajeto de uma história repleta de reflexões que gravitam em torno do bloqueio criativo, do desenvolvimento da inteligência humana, dentre outras abordagens que ainda permeiam o tecido social contemporâneo, na ficção e nos debates da realidade.

A falta de inspiração é um conflito básico, já bastante trabalhado no cinema e agora, nas séries, mas ainda assim, rende bastante quando exercido como uma situação que abala as necessidades dramáticas de uma história que também precisa de bons personagens para funcionar adequadamente. Lançado em 1964, Quando Paris Alucina foi dirigido por Richard Quine, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro de George Axelrod, dramaturgo embasado na história de Julien Duvivier e Henry Jeanson. No enredo, somos apresentados ao roteirista Richard Benson (William Holden), um homem criativo, mas com pouca disposição para desenvolver a sua função. Constantemente mergulhado nas bebidas que lhe fazem passar mais rapidamente o tempo ocioso, ele acaba envolvido com Alexandre Heyerheim (Noel Coward), um produtor hollywoodiano que se interessou por um argumento seu e deseja que ele o entregue como roteiro, pronto para ser filmado, num prazo bastante apertado.

Benson poderia até negar a empreitada, mas possui uma dívida enorme e precisa pagar, haja vista os prejuízos gigantescos que envolvem a ausência de quitação. É deste ponto que começamos a adentrar na história dentro da história, isto é, A Moça Que Roubou a Torre Eiffel, uma narrativa rocambolesca que está engatilhada pelo escritor, em profunda bloqueio criativo para dar continuidade ao trabalho. Para conseguir avançar, ele contrata a estenógrafa Gabrielle Simpson (Audrey Hepburn), profissional que o ajudará na missão de escrever a história, sempre com opiniões, contrapontos e outras atitudes que demonstram falta de empatia entre ambos nos primeiros momentos, situação apenas preambular para os sentimentos em ebulição até o desfecho da trama que se alonga, desnecessariamente, por 110 minutos nada econômicos. Contemplados pela direção de fotografia de Charles Lang, fluente nos espaços internos e externos do apartamento do dramaturgo, os personagens vivem intensamente as duas histórias.

A interna, parte integrante do roteiro que eles desenvolvem, e a externa, a primeira camada, inicialmente cômica e depois envolvida na mescla com traços românticos. Com apoio do design de produção multicolorido de Gabriel Béchir, eles dão vazão aos seus desejos e brincam constantemente não apenas com a condição metalinguística do filme, mas com o contexto cultura de produção na era do star system em drástico declínio, haja vista as mudanças oriundas do surgimento da televisão e dos impactos da crítica do movimento europeu chamado nouvelle vague, “os filmes nos quais nada acontece”, como aponta um dos personagens num momento bastante humorado. As estratégias de produção hollywoodianas e a maneira como os filmes são feitos ganham camadas generosas de ironia nesta narrativa com trilha sonora assinada por Nelson Riddle, condução musical engajada na comicidade da situação apresentada.

Ademais, Quando Paris Alucina traz algumas participações especiais, dentre elas, Tony CurtisMarlene Drietrich. Destaque para a cena com a fileira de folhas de papel em branco no chão, metáfora para muitas coisas, dentre elas, a circulação de histórias recicladas cotidianamente num sistema de produção que nesta época, já apresentava crise criativa. Nos créditos, somos informados que a história é releitura de um filme francês com estrutura semelhante, o que torna Alex & Emma, de 2003, uma produção vergonhosamente ladra. Com Kate Hudson e Luke Wilson como a versão do casal formado por Hepburn e Holden, a narrativa é uma cópia infiel do clássico de 1964, mas não o credita nem como “inspiração”. Também não informa em momento algum se tomou algo emprestado da história por detrás de O Jogador, romance de Dostoievski publicado em 1866 como acordo para pagamento de uma dívida, tal como os personagens de Quando Paris Alucina e de sua versão não assumida dos anos 2000.

Quando Paris Alucina (Paris – When It Sizzles) – EUA, 1964
Direção: Richard Quine
Roteiro: Richard Quine
Elenco: Audrey Hepburn, Grégoire Aslan, Marlene Dietrich, Noel Coward, William Holden
Duração: 110 min.

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