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Crítica | Quantum & Woody: Klang

por Luiz Santiago
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A alma da série Quantum & Woody, cuja versão original foi publicada pela Valiant entre 1997 e 2000 (com um hiato no meio) foi inicialmente moldada a partir de um outro trabalho que os criadores desses personagens tiveram entre 1984 e 1986: Luke Cage e Punho de Ferro. A dinâmica entre um homem branco e um homem negro, um sendo o lado sério da parceria e o outro sendo o alívio cômico serviu como guia básico para o escritor Christopher Priest e para o desenhista M. D. Bright embarcarem em mais essa empreitada, desta vez também inspirando-se nos personagens de Wesley Snipes e Woody Harrelson na comédia Homens Brancos Não Sabem Enterrar (1992).

Uma das formas que Priest gosta muito de escrever (algo que vemos na presente série, no famoso run dele no Pantera Negra e, em menor grau, no run dele no Exterminador) é diagramando a sua história em subtítulos normalmente cômicos ou satíricos e brincando o tempo inteiro com a percepção de tempo do leitor, inserindo momentos do passado, presente ou futuro da narrativa para erguer diferentes bases de suporte à história. Conheço alguns que não gostam desse estilo, que dizem ser “muito distrativo e difícil de acompanhar“, mas eu simplesmente adoro. E em títulos onde a gente não precisa de respostas imediatas, apenas curtir o avanço dos eventos e o progressivo desenvolvimento dos personagens, esse tipo de escrita intensifica a curiosidade, salva para o futuro informações verdadeiramente importantes e torna o grande número de atalhos algo cativante para se acompanhar.

Em Klang, primeiro arco Quantum & Woody, acompanhamos não apenas a formação dessa dupla, mas momentos da vida desses dois indivíduos que se conhecem desde que eram bebês e que acabaram ficando ligados para a vida por um certo acidente. Sabendo que se trata de uma aventura dos anos 1990, fica fácil de entender os caminhos utilizados para essa necessidade de parceria e principalmente, a arte exagerada, com finalização um tantinho suja e tortuosa, a cara das coisas que a gente tinha naquela década. Como a diagramação aqui tem um esqueleto bem específico por conta da liberdade que Christopher Priest teve para “fazer tudo no seu estilo“, a arte não ocupa páginas e páginas com músculos estourados e desenhos de ambiente uns 3 números a mais que qualquer escala normal dos quadrinhos, de modo que acompanhar o projeto visual de uma obra assim é sempre interessante, com nuances diferentes embrulhadas em seu período de origem.

E é claro que temos aqui discussões raciais e também ligadas às relações de classe. Nenhuma delas, porém, foi adicionada como crítica ou reflexão forçada, apenas “para constar“, como se vê a rodo hoje em dia. A relação entre esses dois amigos passa por seus altos e baixos e através dessas mudanças vemos como um enxerga o outro, bem como suas vidas de heróis e até mesmo as reflexões sobre suas vidas pessoais. Alguns saltos no miolo da trama fazem com que o leitor fique com mais dúvidas do que o necessário sobre o processo de determinada investigação ou explicação, e o roteiro segura bastante para dar um início de resposta, o que pode atrapalhar um pouco a construção do drama do momento, mas não é exatamente nada mortal para o arco.

Klang é uma comédia heroica tipicamente noventista e narrada em um estilo que exige maior concentração do público, pois mistura os tempos de ação dos personagens. Se o leitor comprar a ideia, entretanto, terá um mar delicioso, absurdo, irônico, ácido e até metalinguístico para nadar com gosto, tendo como companhia “os piores heróis do mundo“.

Quantum & Woody #0 a 7: Klang (EUA, junho a dezembro de 1997)
Publicação original:
Valiant Comics
Roteiro: Christopher Priest
Arte: M. D. Bright
Arte-final: Greg Adams (#1 a 6) e Romeo Tanghal (#7)
Cores: Atomic Paintbrush
Letras: Dave Lanphear
Capas: M. D. Bright
Editoria: Lynaire Thompson, Omar Banmally, Fabian Nicieza
168 páginas

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