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Crítica | Quarentena (2008)

por Iann Jeliel
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  • Leiam, aqui, as críticas de todos os filmes da franquia REC.

Mesmo sem a referência do originado espanhol, REC, de um ano antes, Quarentena já seria um filme catastrófico por sua condução nada harmônica no exercício de gênero específico proposto do found footage. Colocando a obra prima de Paco Plaza e Jaume Balagueró em consideração a coisa fica ainda mais feia, e chega a ser, realmente assustador, como “o mesmo filme” somente com diferentes execuções podem se transformar completamente, para o bem, ou para o mal. Infelizmente, esse é o segundo caso e um daqueles colaboradores para o rotulo pejorativo que se criou ao entorno dos remakes americanos, geralmente alegados como desnecessários ou colocados em via de uma regra inexistente de que “já nasceu inferior ao original”.

Eu não acredito nisso, mas, contudo, não sou cego a ponto de não condenar a prática que existe sim em hollywood, especialmente no terror e com obras não americanas, de conceber remakes apenas como ponte para o seu preguiçoso e elitista público que não gosta de ler legendas, a conhecer essas grandes obras através de sua história “americanizada”. Percebam que para esse tipo de remake, existe apenas um padrão de ideia, baseado puramente no exercício comercial de se aproveitar de sucessos estrangeiros para dentro do próprio território. No terror isso é mais comum, porque são obras de baixíssimo orçamento, que a depender do título que carrega, é um lucro fácil, que rende o dobro, o triplo, múltiplas vezes o próprio orçamento. A única característica que essa ideia trás, criativamente falando, é a desculpa da fidedignidade, disfarçada de homenagem, mas que no fundo é apenas um jogo seguro para vender o filme a ser assistido.

Quarentena, é a representação máxima disso, é um filme, que, diferente do espanhol, não possui uma ideia a ser concebido fora dessas ramificações comerciais. Portanto, é uma refilmagem desnecessária? Em parte. Costumo dizer que não existe filme “desnecessário”, pois não se deve questionar o porquê ou não de qualquer produto artístico existir, contudo, se é para, literalmente, conceber a mesmíssima obra com a mudança somente de língua, o fundamento artístico por trás de seu existir perde o sentido. É preciso propor uma perspectiva, se não, fica a impressão de que o filme só está “passando” uma história e não a contando. E o interessante nessa análise é que as vezes, a culpa não é nem falta de um grande autor por trás, mas realmente na ideia que tange todo o filme. Porque o John Erick Dowdle não é um diretor ruim, pelo contrário, seus filmes Assim na Terra Como no Inferno e Demônio são claros exemplos de que o diretor possui uma boa mão, especialmente para o estilo found footage e situações claustrofóbicas.

E aí é que está, esse filme não chega a ser uma mancha na sua carreira porque simplesmente não há sua autoria. É o chamado filme de produtor, que chamou o cineasta por suas características e o obrigou a fazer o filme sobre medida de seus desejos, que como não tem vias criativas, acaba tornando-se completamente artificial. A filmagem de John Erick nada mais que imita o primo espanhol, em estrutura, enquadramentos, situações. Não há nem a preocupação em conceber contextualizações de cenário especificas, como é o caso da cena do primeiro corpo caindo da escada. Geograficamente, o impacto da queda não condiz com a altura e logística do prédio em específico do filme, porque ela tem que ser IGUAL a queda do filme original, que era de uma altura consideravelmente maior e onde a geografia permitiria tal “esbagaço” do corpo. E esse é só um exemplo que se aplica a TODAS as cenas do filme.

Obviamente, essas quando juntadas se tornam uma concha de retalhos totalmente embananada em tom e linearidade narrativa. Não parece haver uma construção de desespero, quando é uma cena que é para ser desesperadora, é aplicado o desespero somente ali e fica completamente falso. Coitada da  Jennifer Carpenter que é a melhor atriz dali, forçada a fazer caretas e expressões que nem ela acredita está sentido, mas ao menos ela tenta, o restante do elenco pode até não ter culpa de o projeto não os conduzir de forma minimamente coerente, mas eles também não colaboram, não há nem uma tentativa de humanização, tem sequências que a artificialidade leva a risadas involuntárias ao telespectador, o que é sempre o final vermelho em filme de terror. Mas pera, não há nada no filme que é diferente? Sim, e a única coisa que escolhida para tal, consegue piorar ainda mais a situação, que é parte que tange o exercício social.

No original, a situação confronta tantos os moradores do prédio que eles começam a liberar diferentes preconceitos e acusações a respeito da origem do vírus, revelando a condição humana de xenofobia quando existe uma ameaça ao seu local de propriedade privada. Algo parecido é relacionado com este filme, mas num claro direcionamento aos negros que nos EUA são minoria, logo, a mesma lógica xenófoba se aplica aqui, mas o filme não apresenta isso como uma ideia devidamente contextualizada. A ironia presente em REC com uma ótima construção de realismo é transferida para aqui sem qualquer sutileza para Quarentena, sem esse aspecto realista, o que facilmente traz uma interpretação errônea sobre sua intenção. Os desdobramentos aos personagens negros só corroboram com isso, embora o filme seja tão protocolar no restante, que essa impressão acaba ficando o menor dos problemas durante a duração.

Contudo, não acredito que o remake seja tão inocente assim, afinal, uma de suas propostas é americanizar o original e se essa ideia não é passada, nem em cópia ao olhar crítico de REC, talvez seja porque o filme corrobora com o outro lado, criando uma outra dimensão de problemática ao longa. Pois é, além de praticamente cópia, Quarentena usa suas desculpas comerciais e disfarces de fidedignidade para colocar um discurso preconceituoso implícito que talvez ele não acredite, mas que certamente ajudaria a vende-lo em sua proposta de americanização para qualquer lado, um absurdo sem tamanho. E mesmo que essa parte seja uma viagem do autor, não anula o fato que este é um tipo de remake, completamente desprezível.

Quarentena (Quarantine | EUA, 2008)
Direção: John Erick Dowdle
Roteiro: John Erick Dowdle, Drew Dowdle
Elenco: Jennifer Carpenter, Steve Harris, Jay Hernandez, Johnathon Schaech, Columbus Short, Andrew Fiscella, Rade Serbedzija, Greg Germann, Bernard White, Dania Ramirez
Duração: 89 minutos

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