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Crítica | Quase uma Rockstar

por Iann Jeliel
234 views (a partir de agosto de 2020)

“Todas essas pessoas se importam com você.”

Na última década, houve uma notória revitalização das comédias adolescentes oitentistas, seja usando a mentalidade representativa da nova geração para dar novas camadas dramáticas ao estudo da mentalidade jovial, seja para oferecer uma desconstrução sucinta de arquétipos para propor uma comédia mais inclusiva. Para ambas as vertentes, vários nomes promissores surgiram, dentre eles, Brett Haley talvez tenha sido a mais recente descoberta. Apesar de suas características se originarem um pouco fora desse nicho, seu estilo se encaixa na premissa de dramas leves sobre amadurecimento, o que consequentemente facilitou o processo de adaptação a uma linguagem geracional mais específica.

Em Por Lugares Incríveis, ele soube lidar muito bem com a efetivação dramática do exagero idealizado da mente adolescente, tratando uma temática perigosa como a depressão com uma sensibilidade aguçada o suficiente para ela não se perder dentro da romantização do universo do filme. Agora em Quase uma Rockstar, o cineasta perceberá novamente a romantização como ferramenta útil para se trabalhar o impacto de um efeito de virada, mais especificamente, usando-a como um conforto para subverter uma narrativa surpreendentemente pessimista dentro do gênero. Surpreendente porque Haley sabe trabalhar os dramas da juventude sem parecer uma mera derivação de John Hughes – o mestre quando se fala em dramas e comédias adolescentes. Ele busca dramas pouco explorados nesse universo e mergulha neles de um modo autêntico, usando a inexperiência dos personagens como mote de profundidade à narrativa, que apesar de séria, nunca abandona uma sensação de leveza e esperança que tange ao espírito jovial.

Nesse filme, a problemática pouco explorada é a condição financeira precária da protagonista junto a um conflito familiar. Os primeiros 10 minutos conseguem estabelecer muito bem essa situação através de um jogo de contrastes. Acompanha-se a rotina da protagonista, desde os vários centros de ajuda comunitária a pessoas idosas de que ela participa até a escola na qual ela organiza eventos beneficentes, e por fim, o trabalho, que concluirá o quão essa jornada é desafiadora. Em cada etapa dessa apresentação, no entanto, o que fica mais marcado é a personalidade da protagonista, sempre sorridente, bem-humorada, destacando o quanto sua energia é contagiante e faz a diferença para as pessoas ao seu redor, como nós, meros observadores até então, não temos a dimensão das adversidades vividas por trás.

Só então, ao fim da rotina, o filme aglomera esse cansaço de múltiplas coisas a se fazer com a informação extra de que ela vive em um ônibus por falta de dinheiro e precisa esconder dos outros para que o conselho tutelar não a tire da companhia de sua mãe. Em termos de estrutura, a decupagem insinua que a partir do momento em que as pessoas começarem a descobrir a realidade de Amber, consequências virão, ou seja, após essa apresentação, quando deixamos de ser meros observadores e somos convidados a participar intimamente daquela realidade, o filme começara a apresentar seus conflitos de um modo acumulativo incontrolável. O gatilho desse processo começa da informação mais íntima para fora, através da dramatização do atrito entre a mãe da protagonista e ela a respeito de uma espécie de relacionamento abusivo relacionado a alcoolismo com alguém chamado “Oliver”. Amber prefere morar no ônibus a aceitar a ajuda dessa pessoa, assim, fica implícito uma construção de personalidade preservista ligada a traumas do passado que irá refletir exponencialmente no acúmulo de tragédias daí para frente.

Cria-se um cenário ambíguo na cabeça da protagonista, quanto mais coisas ruins acontecem na sua vida, mais ela se culpa por não ter escondido direito, sendo que esse esconder vai a consumindo por dentro. Assim, a rotina é repetida, várias vezes, numa gradação cada vez mais fúnebre, já que o cenário sem a sua energia não tem a mesma vivacidade. Percebam como a decupagem acompanha cada processo, mas ciente dos implantes bem orquestrados do início, pouco a pouco começa a transformar esse pessimismo crescente em um presságio de benevolência. E o legal é que Haley faz isso sem criar convergências, ele não nega o debate do não aproveitamento da juventude por problemáticas sociais e pessoais, mas também se permite nas mágicas de um cenário jovem menos estereotipado e mais representativo garantir uma esperança com um efeito empático de uma personagem que não merecia ter tais fins.

Então, todo o aspecto secundário contagiado pelos primeiros minutos nos últimos dá o troco, para fechar um ciclo otimista baseado no acreditar que os sonhos de um jovem é o que fazem o mundo se transformar. Por isso, Amber é quase uma “rockstar”, só não é em fama mundial porque o espírito de transformar o mundo, seja através da música ou de ações humanistas, faz merecer esse título e que o universo conspirasse a seu favor. Esse ato final pode até parecer em alguma instância forçado, já que não há um grande desenvolvimento por trás de todas as figuras secundárias, mas acredito que a intenção de Haley, em seu detalhismo na decupagem, era realmente usar todas essas representações de um modo simbólico, o que funciona para os fins do filme e garante um coração aquecidinho ao fim da sessão.

Quase uma Rockstar (All Together Now | EUA, 2020)
Direção: Brett Haley
Roteiro: Brett Haley, Matthew Quick, Marc Basch
Elenco: Auli’i Cravalho, Rhenzy Feliz, Justina Machado, Judy Reyes, Anthony Jacques, Gerald Isaac Waters, Taylor Richardson, Fred Armisen, Carol Burnett, C.S. Lee
Disponibilidade no Brasil: Netflix
Duração: 92 minutos

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