Crítica | Quatro Casamentos e Um Funeral

“Ainda está chovendo? Eu não percebi.”

Morreu? Ótimo. Casou? Que pena. Ou vice-versa. Os casamentos, cobiçados, e os funerais, assustadores, são basicamente os dois eventos mais importantes a que podemos ser cordialmente – ou com grande pesar – convidados. Como é de praxe ao protagonista Charles, interpretado por Hugh Grant, sempre vendo a si mesmo nesses ambientes, tais são espaços propícios para que repensemos nossas vidas amorosas e nossas vidas em si. No universo de Quatro Casamentos e Um Funeral, os mesmos amigos são chamadas a todos os quatro casamentos e o único funeral do enredo, criando-se uma sucessão de eventos que contarão com a presença desses personagens e essas cerimônias como cenários. Charles se apaixona por uma mulher, Carrie (Andie MacDowell), e que nunca tinha visto antes, numa dessas ocasiões. O que será que o destino o levará repensar?

Das grandes virtudes de Quatro Casamentos e Um Funeral, uma é, através de sua estrutura narrativa um tanto quanto episódica até, criar uma atmosfera muito agradável e particular ao espectador. Mike Newell captura esses ambientes com bastante espirituosidade, permitindo os personagens transitarem pelos planos de um modo fluido, embora um tanto caótico. São as pessoas indo e vindo das nossas vidas. Os casamentos e os funerais, muito mais singulares que aniversários ou festas ordinárias, são, muitas vezes, as únicas coisas unindo certas pessoas. Charles vai cumprimentando quem quer que surja, ouvindo as mesmas piadas de seus velhos e queridos amigos – a maior parte da graça é inerente a essas interações, certeiras. Richard Curtis, responsável pelo roteiro, fomenta um senso de descomprometimento, interessante a esses casos.

Um senso, contudo, que é contrariado posteriormente, pois a narrativa proposta é muito mais restringida que impulsionada pela estrutura adotada por esse projeto. Os personagens não trabalham. Os personagens possuem ótimas condições financeiras. Essas características são recorrentes dentro do universo cinematográfico de comédias românticas escritas ou dirigidas por Curtis. Com isso, o cerne é estimulado para observar só o viés amoroso, ou seja, um recorte próprio. Mas o senso episódico é problemático porque o roteiro não renova esses momentos da trama, o que evidenciaria efemeridades, uma abertura para a vida surpreender. São meses se passando, ao invés de anos. E Carrie sempre retorna. O que o longa realmente possui a dizer sobre a natureza do matrimônio, da morte e da vida? O que quer que seja, não mostra-se razoável.

Está a cargo de Mike Newell e do próprio protagonista, Hugh Grant, contornar essas situações, imprimindo escopos distintos para distintas situações. Hugh Grant, por exemplo, é um dos grandes nomes das comédias românticas norte-americanas e Quatro Casamentos e Um Funeral é uma dessas provas, onde traja um carisma que mistura-se a seu comportamento um tanto quanto ingênuo, muitas vezes observador do que acontece no seu entorno. Mike Newell poderia ter explorado isso melhor com a personagem Fiona (Kristin Scott Thomas), ganhando uma importância particular no terceiro ato que é injustificada, por ser abrupta demais. Uma saída para a narrativa – que nem é desenvolvida depois – ao invés de uma construção. O cineasta prefere, entretanto, explorar comicamente situações soltas, porém, sem carregá-las com comprometimento.

É uma direção, portanto, bem mais honesta que o que termina por ser o roteiro, antes promissor. Nos termos dessa execução, apenas o par romântico, vivido por MacDowell, que não funciona – o resto do elenco é excelente. Sua personagem é fraca, porque Curtis compreende algumas noções a ela que são, ao invés de inerentes a uma construção de personalidade, apenas gratuitas. O longa não consegue conciliar sua identidade narrativa, majoritariamente movendo-se só pela sucessão desses eventos, com as necessidades dramáticas contidas. Quatro Casamentos e Um Funeral priva-se das conclusões até simples, mas engrandecedoras, por mais bocós que sejam. Termina, do contrário, evidenciando que não tem a argumentar, apesar de pretender possuir, alguma coisa sobre casamentos e funerais. Bem mais coeso na sua comédia que no seu romance.

Quatro Casamentos e Um Funeral (Four Weddings and a Funeral) – Reino Unido, 1994
Direção: Mike Newell
Roteiro: Richard Curtis
Elenco: Hugh Grant, Andie MacDowell, James Fleet, Simon Callow, John Hannah, Kristin Scott Thomas, David Bower, Charlotte Coleman, Rowan Atkinson, Anna Chancellor, Timothy Walker, Sara Crowe
Duração: 117 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.