Crítica | Quatro Histórias de Fantasmas

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É difícil criticar uma obra que é dividida em quatro histórias diferentes e que não se conectam. Enquanto uma apresenta conceitos inovadores e uma narrativa linear que aumenta a tensão com o passar dos segundos e atinge o clímax na última cena, a outra peca pela permanência no terror banal sem qualquer diferencial — notadamente o reflexo da falta de coragem do diretor. Com essa afirmação, seria muito mais interessante e coeso que Quatro Histórias de Fantasmas fosse uma série de quatro capítulos a fim de que o espectador aproveitasse o que cada história tem para oferecer, sem que um episódio roubasse ou atrapalhasse o brilho do outro. Uma série estilo Black Mirror, por exemplo. Na crítica, serão avaliadas as histórias individualmente, mas é importante ressaltar que o formato escolhido pela Netflix foi uma péssima decisão que afetou amargamente o resultado final do projeto. A película conta quatro histórias diferentes que possuem um único elemento em comum: contém fantasmas.

A Enfermeira e a Paciente

Quatro Histórias de Fantasmas possui um deplorável abre-alas com a narrativa da diretora Zoya Akhtar. Tratando o espectador da forma mais burra possível, a primeira história enrola durante trinta minutos para no final divulgar o óbvio. Mais do que uma perca de tempo, a história demonstra o lado covarde da diretora em querer se aproveitar de um dilema comum nas lendas urbanas americanas: loucos são apenas loucos ou podem estar na presença de fantasmas? Mas, infelizmente, ela se esqueceu que a pauta não sustenta o filme sozinho. Também é preciso desenvolver.

Assista a qualquer película com a narrativa no mesmo ponto: fantasmas em volta de alguém com transtornos mentais. Literalmente todos têm o mesmo “incrível e belíssimo” final. Mas, mesmo assim, assistimos porque dentre a pauta e o desfecho há jump scares, diálogos, atuações… No entanto, essa primeira história não carrega nenhum desses elementos. Entre o início e o fim não acontece nada: não há sustos, não há tensão, não há diálogos eficientes, e as atuações são amadoras ao extremo. Realmente não faz sentido assistir a esse filme se o principal diferencial do dilema em questão (o desenvolvimento) não acontece de forma cativante ou interessante — ou sequer chega a acontecer. E nem para tentarem forçar algo no desfecho que ao menos espantasse pelo excesso de bizarrice. É literalmente o mesmo final que todos do gênero possui e, consequentemente, o que estávamos esperando desde o primeiro minuto. O mais vergonhoso é que a câmera foca no rosto da protagonista quando temos o “bombástico” desfecho, parecendo que foi um plot twist totalmente inesperado. Que vergonha alheia!

Ressalto que utilizar temas tradicionais nunca é um erro. Porém, devem se sustentar em pilares que inovam ou produzir o comum com excelência. O erro dessa história é não possuir qualquer artifício de destaque.

A Grávida e o Pássaro

Então começa o problema da trama em formato de filme único. Se alguém sobreviver até o final da primeira história sem desistir, será recompensado com um incrível e inovador curta-metragem que não se preocupa em agradar ou explicar passo-a-passo o que está acontecendo ao espectador. A segunda história se preocupa em se consolidar em si: é produzida para si mesma e, só então, é exibida ao público. Dessa forma, encontramos uma narrativa que explora a mente subjetiva do diretor Anurag Kashyap, que utiliza uma fotografia mais mórbida do que o necessário a fim de levantar um terror psicológico que o roteiro quis abordar.

Aplausos para Kashyap em reconhecer que o espectador é um ser muito inteligente e que não precisa de explicações óbvias para entender algo (e destaco que essa sensação é mais uma consequência da falta de interesse do curta em agradar o espectador). O roteiro simplesmente joga as informações com o pressuposto de que vamos interpretar o que está acontecendo. Por exemplo, nenhuma vez é citada que a protagonista está grávida, mas descobrimos isso por meio de uma cena totalmente subjetiva em que aparece um feto. Seria comum que ficássemos confusos com tantas cenas aleatórias, no entanto funciona muito mais do que introduzir um diálogo em que a atriz é forçada a falar “estou grávida de quatro meses”. Bem inteligente, não?

Além disso, obrigado por não se render ao plot twist Kashyap! Esse conto tinha tudo para que tivesse um “final inesperado” que, ironicamente, todo mundo iria esperar. Contudo, surpreendentemente essa informação que deduzimos no início é demonstrada no começo do segundo ato. O desenvolvimento é realmente uma progressão que acaba quando a história termina: não recorre a fatos passados para tentar impressionar o espectador.

Infelizmente, isso é muito ofuscado pela primeira história. Demoramos um pouco a aceitar que, enfim, assistiremos algo digno e então, passamos parte dessa narrativa zangados e de cara fechada. Claro que vale a pena ir no início e assistir de novo, desta vez alegre. Ainda mais que é complicado de entender o roteiro de primeira.

A Vila e os Canibais

Sabe aquele episódio que só acontece, diverte um pouco e então é esquecido? Pois bem, esse é o terceiro episódio. Aqui encontramos uma trama que parece mais uma ponte para o quarto episódio ou alguma forma de encher tempo do filme e, assim, uma narrativa neutra, sem ousadia ou inovação, mas que se destaca na produção.

Dibakar Banerjee pareceu fundir todos os filmes do estilo e, dessa forma, juntar em uma só obra. Isso também se encontra nas ações, diálogos e desenvolvimento do roteiro: é uma narrativa comum e “zero grau”. Ainda reforçado no desfecho da película que até tentou forçar um mínimo plot twist, porém não passa de mero reflexo de outros incontáveis finais semelhantes que estão presentes nesse gênero.

Infelizmente, a ambientação não é muito explorada. Um lugar no meio do nada, cheio de neblina e criaturas desconhecidas é um ótimo local para cenas agonizantes no escuro. No entanto, os protagonistas passam quase a trama toda na parte interna das construções.

A sorte dessa história está na produção. Pra quem está enjoado desse tema, pode até se interessar pela forma em que as sequências são exibidas: nuas e cruas, sem medo de assustar ou traumatizar alguém. Se o roteiro permitisse mais exploração do cenário, poderíamos encontrar algo tão gore quanto Holocausto Canibal

A Noiva e a Vovó

O quarto conto até compensa pela produção interessante e momentos tensos, mas não deixa de parecer um remake melhorado do primeiro episódio (mais uma vez, o formato em filme atrapalhando o brilho de um dos contos). A última história novamente recorre ao terror tradicional envolvendo fantasmas e contém exatamente o desfecho que todos esperam. No entanto, diferente do primeiro, o diretor Karan Johar não nos trata como burros e sempre nos deixa indícios de para onde o roteiro pretendia nos levar. Assim, não há aquela citada vergonha no final: o plot twist não é tratado com cerimônia.

O único artifício que salta aos olhos para quem espera um terror inteligente é a falta de jump scares. Não é preciso o uso desse recurso para causar tensão, certo? E essa quarta história se aproveita disso. A maioria das cenas está presente no mundo real, de forma que a tensão não possui o caráter sobrenatural. Por exemplo, quando o protagonista diz inesperadamente “precisamos ver isso com a vovó” e, considerando que a vovó está morta, levanta um ar de mistério. No final, é até um bom passatempo.

Claro que uma história sem inovação muito dificilmente vai passar de mediano. Mas, nesse caso, o mediano é um elogio: se está na média, é porque não cometeu erros graves. Ao menos demonstra que a produção tem potencial de construir algo eficiente.

Quatro Histórias de Fantasmas (Ghost Stories) – Índia, 2019
Direção: Zoya Akhtar, Anurag Kashyap, Dibakar Banerjee, Karan Johar
Roteiro: Ensia Mirza, Zoya Akhtar, Isha Luthra, Dibakar Banerjee, Aninash Sampath
Elenco: Janhvi Kapoor, Sobhita Dhulipala, Sukant Goel, Gulshan Devaiah, Mrunal Thakur, Avinash Tiwary, Vijay Varma, Sagar Arya, Surekha Sikri
Duração: 144 min.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.