Home TVTemporadas Crítica | Que Legal, Scooby-Doo! – A Série Completa

Crítica | Que Legal, Scooby-Doo! – A Série Completa

por Iann Jeliel
758 views (a partir de agosto de 2020)
Que Legal, Scooby-Doo!

  • SPOILERS! Leia, aqui, as críticas de todo nosso material de Scooby-Doo.

As séries em desenho animado na última década sofreram uma transformação radical de estilo e linguagem para tentar se adaptar à linguagem da última geração. Uma síndrome interessante, ao mesmo tempo em que a cartunização se tornaria mais digital e infantil, a linguagem carregaria um tom mais adulto e inconsequente no humor, mas ainda dentro de um espectro infantilizado. Parece confuso, mas é só pensar nas grandes séries animadas adultas como Os Simpsons, Family Guy, South Park e encaixar sua linguagem de humor sacaninha em um conteúdo somente para crianças. Cria-se uma difusão de princípios, uma falsa libertação desses desenhos que atendem a demanda de captura visual agradável às crianças, enquanto desestimula seu senso de inocência por acreditar que sua velocidade comportamental automaticamente as faz querer questionar tudo que é lúdico. Que Legal, Scooby-Doo!

O lúdico, bem como toda a fantasia do desenho, então vira princípio de piada, uma vez que crianças já são espertinhas demais para caírem nesse tipo de jocosidade, tal como os adultos que procuram consumir animações adultas porque não há mais essa interface de inocência. Particularmente, essa transformação da inocência para a humorística ácida nunca me agradou, pois passa um ar de superioridade intelectual a essas animações que nem sempre existe. No caso, para animações adultas tudo bem, porque essa noção de passar superioridade para seu público também serve como uma piada pensando num histórico de bagagem cultural do adulto, mas para essa nova leva de desenhos, esse princípio não acontece, uma vez que o público infantil não tem repertório o suficiente para capturar com totalidade a sinergia da ironia, e irá levar aquela linguagem autodepreciativa de tradições como a principal referência.

Portanto, sim, levar desenhos tradicionais a essa linguagem “moderna” me incomoda muito, porque da transição de uma geração para outra, corre-se o risco de criar um legado por meio da desvalorização dos princípios tradicionais do outro, por piadinhas espertinhas que tentam racionalizar a ludicidade que é para ser atemporal. Tratando-se de Scooby-Doo, um desenho que tem bases na racionalização de mistérios sobrenaturais, a proposta de levá-lo a essa linguagem a meu ver era ainda menos necessária, principalmente porque as séries O Que Há De  Novo Scooby-Doo e Scooby-Doo Mistério S.A já modernizariam, tanto em aspecto futurista como retro, a marca do desenho em termos de comunicação com a criança veloz moderna. Portanto, para mim é muito claro que Que Legal, Scooby-Doo! surge numa demanda imediatista, surfando na onda dessa tendência criada de negacionismo e desmerecimento à fantasia e ao romantismo (que não só está presente nos desenhos animados, diga-se de passagem).

À medida que fui assistindo, essa ideia de não modernização e sim tendência a uma moda só se confirmava, conforme o andamento dos episódios que tentavam preservar uma estrutura tradicional de resolução de mistérios, mas descaracterizavam suas peculiaridades enquanto se desenvolviam, incluindo aí no pacote certos preceitos adotados por seus personagens. A Daphne sem dúvidas é a que mais chama a atenção nesse sentido, porque ela é a representação dessa aleatoriedade inconsequente de caracterização típica desses desenhos que gostam de fazer piadinhas com tudo. A cada episódio, a personagem escolhe uma maluquice sem critério para fazer e servir como piada específica da semana, e isso por si só é para representar sua personalidade. Às vezes nem é preciso combinar com o mistério da semana, porque eles soam tão artificias nessa lógica estrutural sarcástica que acabam nem sendo o ponto principal do desenho. Dessa forma, os outros personagens, já mais ligados a suas características padrões, acabam por ser convertidos igualmente a essa artificialidade. O medo e covardia de Salsicha e Scooby não fazem sentido para a total caricatura dos monstros dessa nova identidade, tal como a inteligência e o ceticismo extremos de Velma soam desconexos para o empirismo didático da resolução dos mistérios, que como dito, parecem não importar mais.

O único que funciona, por incrível que pareça, é o Fred. E é engraçado pensar em quanto mais tapado, melhor ele fica. Esse Fred traz uma mistura do que é visto em Mistério S.A com O Pequeno Scooby-Doo, é só transformar seu vício em armadilhas e teor conspiratório em um vício geral de resolução de mistérios e necessidade conspiratória de encontrá-los em todo lugar. O que acaba sendo uma piada inteligente e honesta para a estrutura da série que os escanteia ao mesmo tempo em que persiste neles como se fosse uma necessidade, já que é Scooby-Doo, mas não deixa de estar forçada naquela linguagem. Por isso, os melhores episódios são aqueles que acabam mais assumidamente fugindo do teor tradicional do desenho, transformando seus personagens em super-heróis e criando uma nova ludicidade por meio disso, que são princípios de linguagem próprios do desenho. O problema é que esses episódios são exceções e nem todos são bons, porque depende muito se você compra ou não a extrapolação episódica específica.

A estrutura até flerta com um senso de continuidade e até o abraça dentro de uma história maior mais na metade final da segunda temporada, mas no geral, dentro da ideia de preservação do tradicionalismo, ainda consta da estrutura de episódios da semana selecionados sob um critério completamente aleatório. Mesmo com essa variação aleatória de ambientação, o texto segue à risca um mesmo roteiro: introdução do vilão; introdução do mistério; separar para procurar pistas; primeiras e maiores pistas encontradas; encontro do monstro com toda a equipe; divisão da equipe sendo perseguida pelo monstro; monstro escolhendo Salsicha e Scooby na perseguição; Salsicha e Scooby se livrando do monstro com teatrinhos (algo que eles sempre fizeram, mas desta vez de modo irônico); monstro dá gritinho depois de ser enganado; algumas piadinhas relacionadas a Daphne no episódio; monstro cria um cenário desfavorável à equipe; equipe se reúne e faz um discurso motivacional em conjunto que magicamente junta as peças do mistério sem dizer ao público; equipe realiza seu plano para capturar o monstro quando Salsicha e Scooby sempre falam obviamente aquilo que irá incomodar o suspeito por trás do monstro; monstro é capturado e o mistério é explicado por meio de ilustrações bastante didáticas; uma piadinha final para acabar o episódio.

Tá, mas Scooby-Doo em geral sempre usou uma mesma forma com variações conteudistas? Sim, mas aí é que está. Quando se tem a ludicidade, essa repetição se torna um charme. Quando você nega a ludicidade ou a transforma em uma piada, essa repetição torna-se não só inútil como extremamente cansativa à medida que a série não reinventa seu discurso em mais de 50 episódios. É verdade que surpreendentemente ela vai melhorando conforme vai perdendo ideias de como fazer mais piadas sobre características tradicionais, forçando-se a extrapolar em níveis mais próprios, ajudados pela inserção tardia do senso de continuidade mencionado. Portanto, essa talvez seja a única série de Scooby-Doo que termina melhor do que começa, algo que normalmente não acontece pelos mesmos motivos, falta de ideias que se encaixem na estrutura adotada, que nesse caso liberta a série de sua necessidade de fazer piadas com o tradicional, acaba tornando essa necessidade também uma piada e a liberta para fazer algo, por mais que seja completamente fora da imagem construída da essência do que é Scooby-Doo, divertido, honesto e de fato infantil, ao invés de mascarado como adulto e espertinho.

Portanto, reforço que minha implicação com Que Legal, Scooby-Doo! não é devido à teórica quebra da essência, mas justamente o contrário, preservar essa imagética essência em tom de deboche. Acredito que é possível criar novas essências, inclusive para produtos de identidades bem definidas, sem que se quebre ou menospreze as anteriores. E faltou à série explorar mais sua própria identidade para qualificá-la como marcante para a geração a que é destinada, que vai olhar para esse Scooby-Doo e não memorizar como Scooby-Doo, mas como um desenho qualquer que veio com as tendências de sua época. E no fim, é isso que mais lamento.

Que Legal, Scooby-Doo! (Be Cool, Scooby-Doo!, 2015 – 2018)
Showrunner: Jon Colton Barry (Baseado na criação de Joe Ruby e Ken Speaks)
Diretores: James Krenzke, Andy Thom, Jeff Mednikow, Ronald Rubio, Shaunt Nigoghossian
Roteiristas: Jon Colton Barry, Joe Ruby, Ken Spears, Marly Halpern-Graser, J.M. DeMatteis, Tom Konkle, Josie Campbell,
Kyle Stafford, Kevin Kramer, Steve Clemmons
Elenco (Dublagem Original): Frank Welker, Grey Griffin, Kate Micucci, Matthew Lillard, Dee Bradley Baker, Fred Tatasciore. Nolan North, Eric Bauza, Jeff Bennett, Josh Keaton
Elenco (Dublagem Brasileira): Reginaldo Primo, Mckeidy Lisita, Flávia Saddy, Peterson Adriano, Fernanda Baronne (Estúdio de dublagem – Cinevídeo)
Duração: 2 temporadas – 52 episódios – 26 episódios por temporada – 22 minutos cada episódio

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais