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Crítica | Quem Matou Sara? – 1ª Temporada

por Kevin Rick
2410 views (a partir de agosto de 2020)

Se você viu a nota e já começou a se perguntar sobre a sanidade do crítico, se acalme, tome um copo d’água e vamos conversar sobre contexto e linguagem de gêneros. Quem Matou Sara?, uma das várias novas séries da Netflix que fizeram sucesso com um público mais abrangente neste ano, é uma novelinha, tá bom? Esperar qualquer aspecto longe desse formato televisivo é exigir algo que a obra nunca propõe, e dentro da sua proposta, bem, a série faz exatamente o que promete.

Grande parte da audiência que assistiu e gostou desta 1ª Temporada, são, e não estou generalizando, possivelmente fãs de novelas, ou pelo menos de séries que emulam esse estilo de narrativa, bastante visto em shows latinos que veem ganhando mais e mais força no mercado televisivo dos serviços de streaming.  Eu, por outro lado, odeio novelas. Não estou criticando quem goste, muito pelo contrário, o fato de não ter qualquer entusiasmo por novelas é um testamento à qualidade de Quem Matou Sara?. Mas, em contraponto, isso não significa que não goste de certas escolhas narrativas novelescas, afinal, Star Wars é considerado uma space opera, que é o termo em inglês para obras melodramáticas no espaço, e a saga espacial do George Lucas é, em seu cerne, um dramalhão familiar que eu adoro.

O que estou tentando dizer é que existe um certo preconceito na comunidade de cinéfilos para obras latinas que abraçam o melodrama, o exagero e o sentimentalismo, enquanto vários marcos cinemáticos bebem de certos elementos novelescos. E isso vindo de alguém que detesta cada minuto de uma novela global. Dito isso, e já falando da narrativa da série em si, Quem Matou Sara? acompanha Álex Guzmán (Manolo Cardona), nosso protagonista que perdeu sua irmã Sara (Ximena Lamadrid) em um acidente de paraquedas e acabou sendo culpado pela morte da moça, cumprindo uma longa pena na cadeia enquanto nutria sentimentos de vingança pela poderosa família Lazcano, os (possíveis) verdadeiros culpados da tragédia.

O criador da obra, José Ignacio Valenzuela, segue uma cartilha habitual para a caracterização e ideias iniciais da trama, onde temos um patriarca maligno e machista em César (Ginés García Millán), um grande elenco conectado por traições e dramalhões românticos, uma família injustiçada pelo poder do dinheiro e, claro, a tão esperada vingança! A grande surpresa da série está na qualidade de dosagem desses elementos melodramáticos que acompanham telenovelas com o thriller. Isso é melhor trabalhado em duas partes importantíssimas da unidade estilística: atmosfera e diálogos.

Apesar do teor de excesso, a direção do show tem êxito em carregar o mistério por trás do assassinato de Sara sem cair no maniqueísmo – a própria Sara é bastante dúbia -, evitando algo mais apelativo ou caricato na composição da dinâmica dos personagens. Até os vários saltos temporais que a série utiliza funcionam muito bem como injeções de pistas e sequências que vão preenchendo o grande cenário da verdade. Claro que o exagero é lei, mas a ideia é essa! E o bom trhiller mesclado à história clichê demonstra consciência da equipe criativa, que entende o que seu público-alvo quer ao mesmo tempo conseguindo criar uma identidade mais própria e diferencial no lamaçal de bizarrice que vemos por aí.

E eu havia falado sobre os diálogos também, certo? Assistir uma novela mais “novelona” mesmo se torna sofrível, pelo menos pra mim, em grande parte por causa das conversações ridículas dos personagens. Mas, aqui, o roteiro desenvolve as dinâmicas dos personagens pelo lado oposto, tornando o silêncio uma boa ferramenta de caracterização. Isso é melhor visto no aflito Rodolfo (Alejandro Nones), de longe o personagem com o melhor arco da temporada, e também nos ótimos e trágicos flashbacks de Sara.

O que me atrapalhou na experiência ao longo da temporada se resume ao sexo. Caramba, como a série faz um péssimo exercício de sensualidade com seus personagens, com cenas e mais cenas completamente gratuitas de pornô leve. Além disso, odiei as várias subtramas de traição matrimonial de César, especialmente as que não acontecem nos flashbacks, ganhando um desnecessário foco que quebram a imersão misteriosa em torno da morte de Sara e dos eventos em torno do “acidente”. Ademais, todo o núcleo de José María (Eugenio Siller) e seu marido a procura de uma barriga de aluguel é outro desperdício e divergência da trama principal que constantemente me fazia revirar os olhos. Existe um discurso contra a homofobia ali, mas é muito raso e porcamente estabelecido pela visão clichê do patriarca preconceituoso.

No entanto, acredito que Quem Matou Sara? mais acerta do que erra na sua proposta novelesca com um instigante thriller em volta da pergunta que dá pontapé à narrativa. Enquanto melodrama misturado ao mistério, o roteiro entende seu público-alvo e oferece algo minimamente novo ao gênero, proporcionando uma boa experiência com os excessos mexicanos. O show tem suas derrapadas, especialmente com algumas subtramas e o exagero sexual, mas é uma boa pedida para quem curte novela, e, surpreendentemente, para quem não gosta também, desde que entenda a proposta e o contexto.

Quem Matou Sara? (¿Quién Mató a Sara?) – 1ª Temporada | México, 2021
Desenvolvimento: José Ignacio Valenzuela
Direção: David Ruiz, Bernardo de la Rosa
Roteiro: José Ignacio Valenzuela, Rosario Valenzuela
Elenco: Manolo Cardona, Carolina Miranda, Ginés García Millán, Claudia Ramírez, Eugenio Siller, Alejandro Nones, Juan Carlos Remolina, Ximena Lamadrid, Luis Roberto Guzmán, Héctor Jiménez, Rocco Narva, Andres Baida, Marco Zapata, Leo Deluglio, Ana Lucía Domínguez, Iñaki Godoy, Fátima Molina, Litzy
Duração: 394 min. (dez episódios)

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22 comentários

Guilherme 28 de abril de 2021 - 12:04

Terminei ontem a série, achei tenebroso kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Metade do episódio é só cena de pu……, eles adicionam 100 suspeitos que podem ter matado a Sarah, me senti assistindo novela das 7.

Meu comentário pode ser recusado falando isso, mas tenho que aproveitar a oportunidade, essa série devia chamar Quem não comeu Sarah?

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Kevin Rick 4 de maio de 2021 - 21:33

Eu entendo perfeitamente! E isso do sexo, como eu disse na crítica, é o maior problema da série. Sobre os 100 suspeitos, e se sentir assistindo novela das 7, bem… a proposta é bem essa. Melodrama, exagero, e acho que, para seu público-alvo, a série consegue diluir bem esses elementos de telenovela com um thriller ali, basicão, mas que entretém. Não acho a série de forma alguma uma maravilha, mas eu entrei esperando algo pior, e na linguagem de novela ali, acho que o saldo sai positivo. Mas, claro, opiniões e opiniões, e como essa é provavelmente minha visão mais polêmica no site, eu entendo opiniões contrárias perfeitamente!

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Guilherme 6 de maio de 2021 - 01:21

Entendo seu ponto, vc achou que seria horrível e foi só meia boca né?

Cara sla a Netflix só esta decepcionando, filmes e séries novas horríveis com foco em novela, sexo e sem história, além disso eles tão estragando as que eles já tinham, e essa série só foi mais uma deles, pode ver que os episódios são os mais curtos possíveis pra Netflix, tudo com 38 minutos, ou seja, no que eles não podem enrolar com diálogos, colocam cenas de sexo sem cabimento, tudo porque tem que cumprir a cota dos 10 episódios.

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Alan 23 de abril de 2021 - 16:16

Se for pensar em entretenimento simples funciona para várias pessoas, se tiver um senso crítico pouquíssimo apurado vai ver um festival de erros do começo ao fim.

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Kevin Rick 23 de abril de 2021 - 16:45

Se for pensar na proposta de telenovela, e no contexto dado, a série cumpre exatamente o que propõe. Apesar de, aos olhos de quem está acostumado com obras mais, digamos, coerentes e menos exageradas e melodramáticas, pode sim ser dose de assistir. Mas enquanto Arte, preciso me ater à proposta, e nisso a série sabe executar bem.

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Luiz Santiago 23 de abril de 2021 - 10:49

“BOM”

Mas, em contraponto, isso não significa que não goste de certas escolhas narrativas novelescas, afinal, Star Wars é considerado uma soap opera, que é o termo em inglês para obras melodramáticas, e a saga espacial do George Lucas é, em seu cerne, um dramalhão familiar que eu adoro.

https://uploads.disquscdn.com/images/1d5331e0e8a2a86596b7dc11a9bd11a26467eb6f9d362b162de78ca6193ddee2.jpg

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Kevin Rick 23 de abril de 2021 - 10:56

Vocês não querem aceitar que Darth Vader falando que é o pai do Luke é o momento mais NOVELA da história do Cinema…

Responder
Luiz Santiago 23 de abril de 2021 - 15:06

TRIBUNAL DE HAIA, CORRE AQUI!!!

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Kevin Rick 23 de abril de 2021 - 11:42

AAAAAA, corrigido!! Mas o argumento é o mesmo!! Melodrama espacial. DONA RITAAAA!!

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Kevin Rick 23 de abril de 2021 - 15:42

AAAAAA, corrigido!! Mas o argumento é o mesmo!! Melodrama espacial. DONA RITAAAA!!

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Vitor Guerra 23 de abril de 2021 - 22:47

Se fosse so isso ainda ia, mas a Leia ser a irmã gemea perdida do Luke, nunca antes mencionada, foi a cereja do bolo novelistico.

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Alan 23 de abril de 2021 - 12:16

Se for pensar em entretenimento simples funciona para várias pessoas, se tiver um senso crítico pouquíssimo apurado vai ver um festival de erros do começo ao fim.

Responder
planocritico 23 de abril de 2021 - 03:10

Eu ia tentar te ajudar…

Mas aí eu vi a imagem de destaque e imediatamente achei que você estava maluco.

Em seguida percebi a avaliação em HALs e tive esperança de que você estava de brincadeira, fazendo um chiste.

E foi aí que eu notei uma comparação com Star Wars e tive que tirar da gaveta meu machado para afiar, o capuz preto para lavar e a bigorna para polir onde sua cabeça repousará por alguns segundos antes de eu decepá-la…

E tenho dito.

Abs,
Ritter, o Carrasco.

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Wagner 23 de abril de 2021 - 08:51

Que fofo.

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planocritico 23 de abril de 2021 - 16:06

Sim, não costumamos executar ninguém sem equipamento adequado.

No entanto, teremos que revisar essa postura, pois o @kevin_rick:disqus continua ameaçando o equilíbrio no site ao insistir em sua heresia. Talvez seja o caso de substituir o machado afiado por uma faca de churrasco cega e toda enferrujada…

Abs,
Ritter.

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Kevin Rick 23 de abril de 2021 - 12:48

Eu te defendi quando gostou de High School Musical, Brutus! A proposta, Ritter, a proposta!!

Responder
Kevin Rick 23 de abril de 2021 - 16:48

Eu te defendi quando gostou de High School Musical, Brutus! A proposta, Ritter, a proposta!!

Responder
Luiz Santiago 23 de abril de 2021 - 19:02
Luiz Santiago 23 de abril de 2021 - 19:31

Um amigo meu tem uma coisa pra falar pra você:

O que estou tentando dizer é que existe um certo preconceito na comunidade de cinéfilos para obras latinas que abraçam o melodrama, o exagero e o sentimentalismo, enquanto vários marcos cinemáticos bebem de certos elementos novelescos.

Kevin Rick 23 de abril de 2021 - 09:00

HAHAHAHAHAHAHAHA

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