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Crítica | Quem Pode Jogar?

por Davi Lima
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O documentário dirigido por Marcos Ribeiro e escrito com base nas entrevistas da Helena Lara Resende, que se retroalimenta em discurso pela abrangência do assunto. Em conforto de representatividade e também em visões de mundo complementares, leva-se em conta o discurso da necessidade de compreender que o esporte vai além das palavras e reflete o visual que encanta o ato esportista para o público. Em cada entrevista dos atletas trans há um desenvolvimento dessa narrativa de compreensão de trajetória individual, de suas vidas em paralelo aos esportes que se empenham, como também do retrato das habilidades físicas que os levam a persistir como atletas. Mostra-se em tela os atletas em ação audiovisual que questiona o espectador os preconceitos infundados na sociedade.

Assim, a produção documental compartilha sua cinematografia como argumento, não apenas transição de imagens ou complementação. Traz-se em dramaticidade os desafios e as conquistas dos atletas dentro do mundo do esporte, como também traz para o audiovisual o que torna tão necessário possibilitar a participação dos transsexuais: o esporte continuar vivo. A finalização contemplativa de cada entrevistado, que vai gravando cada momento esportivo, no MMA ou no jiu jitsu com Anne Viriato, na patinação de Maria Joaquina e no treinamento do fisiculturismo de Juliano Ferreira é o reflexo de virtudes que só o esporte e a participação dele pode gerar. Nada fica exclusivamente no discurso, em que o anseio de cada um de participar do esporte com liberdade se baseia na junção da habilidade com o querer, o conforto de se esforçar para ser melhor em tal atividade. Isso é humano, é como a psicóloga de Maria Joaquina fala sobre o anseio da sua paciente querer patinar, por Maria considerar o melhor que ela faz. A noção que o filme traz da particularidade de cada atleta, em como cada um se coloca no esporte, retém o drama da intolerância pelas dificuldades financeiras, sociais e biológicas, e também o desafio comum de cada categoria, unificando a vida de cada um na narrativa esportiva, inseparável na discussão.

Apesar dessa noção muito inclusa, pondera-se bem questões como a discussão hormonal e a questão de identificação visual dentro do esporte, que vai abordando também a vida dentro e fora dele mais separadamente, especialmente quando o fisiculturista Juliano ascende de maneira factual a liberdade de cada atleta ter liberdade de ser o que quiser fora do palco. Quase na metade da duração do documentário, após voltar a entrevista com Isabela Neris, jogadora de vôlei feminino, há uma quebra da linha de entrevistas individuais, em que o longa-metragem vai montando comparativos e utilizando de falas para amontoar progressivamente outros assuntos sobre a participação dos transsexuais em sua diversidade no esporte. 

Por isso o documentário soa quase perfeito tematicamente e como centraliza bem isso sem esquecer do seu formato visual, porque a transsexualidade engloba dimensões de diversidade e da imagem dessa diversidade. Nos entrevistados acrescentados, de uma militante ex-karateca inter-sexo chamada Dionne Freitas, de um nadador homossexual e uma jogadora de Rugby se discute: como as vantagens individuais querem ser alcançadas diante da busca de cada atleta trans serem inclusos na feminilidade ou masculinidade esportiva? Entra então uma conversa mais científica, a dos hormônios e supostos privilégios biológicos com o endocrinologista de Juliano, já não priorizando a narrativa de experiências pessoais separadas. O diretor junto com a roteirista vão impulsionando sub-temáticas que se voltam ao esporte propriamente dito. Não que a temática LGBTQI+ se torna secundária, na verdade é o fio condutor diante de tantos esportes, mas o próprio diálogo com o mundo do esporte vai se formando mais questões dentro do filme do porquê não há aceitação dos transsexuais, se eles mesmos buscam a inclusão específica em cada setor esportivo? Em cada área de treinamento?

O preconceito é discutido muitas vezes fora dessa conversa moral trazida explicitamente no documentário, de que não há vivência, não há empatia, não há pergunta por pessoas de fora como funciona a inclusão assertiva de cada atleta transsexual corporalmente no melhor funcionamento de suas habilidades. Por isso a entrevistadora e roteirista Helena invade a voz, por isso ela pede para o fisiculturista repetir sua apresentação. Entre concordâncias ou não, é inegável por meio desse documentário que o esporte, meio que une a montagem do diretor, naturaliza seres humanos. 

Logo, a necessidade e afirmação das apresentações de cada atleta se reflete nessa naturalização, não apagando a luta de cada transsexual por espaço social e no esporte, mas demonstrando em como a diferenciação vilipediadora, que exalta o preconceito, por muitas vezes também é pela incompreensão do mundo do esporte atual, plural em cis e trans, após lutas e comprovações científicas que o tornaram assum hoje. Porque o que se faz em quadra, no palco ou na pista de dança é o ato visual que independe de posicionamento, ou deveria independer. Seja no esporte coletivo ou individual, a dificuldade de anular o preconceito é harmonizar em como a vida pública e a vida particular devem ser respeitadas nas suas interconexões.

Quem Pode Jogar? (Quem Pode Jogar?) – Brasil, 2020
Direção: Marcos Ribeiro
Roteiro: Helena Lara Resende
Elenco: Anne Viriato, Maria Joaquina, Isabela Neris, Juliano Ferreira, Dionne Freitas, Isadora Celluro, Guilherme Almeida
Duração: 76 min.

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