Crítica | Quentin Tarantino, de Paul A. Woods

Organizado por Paul A. Woods, Quentin Tarantino é um livro empolgante, tal como a cinematografia do cineasta que já nos brindou com altas doses de ironia e violência, mixadas com a metalinguagem característica de sua formação largamente cinéfila. Lançado pela Editora Leya aqui no Brasil, o material é uma leitura que traça a trajetória de Tarantino sem o tom ensaístico e linear comum ao tipo de texto, ao contrário, investe em idas e vindas, textos com estrutura múltipla, alguns com tom crítico exaltador, outros pouco humorados e detonadores de sua obra. O saldo para quem acompanha a leitura, no entanto, é positivo, independente da leitura de determinados trechos pouco interligados com a “homenagem”.

Com textos que analisam a sua obra e vida, o livro traz os mitos que fundaram Tarantino: a sua infância e juventude como espectador assíduo de filmes, livros, televisão e demais manifestações culturais que funcionaram como fermento metalinguístico responsável por torna-lo o cineasta de pompa que se configurou na indústria desde os anos 1990. A famosa história de um atendente de videolocadora que se transformou num dos mais polêmicos e prestigiados diretores de cinema da história desta arte enigmática percorre os primeiros textos, mesclados entre análises de jornalistas, entrevistas e afins. Detalhes de sua vida pessoal e profissional são dissecados, ora por ele mesmo, ora por pessoas que o admiram, detratam ou que tiveram alguma experiência “tarantinesca”.

A transformação dos locais de filmagens em pontos turísticos, isto é, a busca das pessoas pela lanchonete de Pulp Fiction – Tempo de Violência, ou pela visita ao local onde os primeiros momentos de Cães de Aluguel foram gravados, etc. Tarantino entrou na indústria e seus filmes se tornaram obras emblemáticas dentro e fora do circuito ficcional. Os dois filmes, inclusive, são as obras com maior espaço de contemplação. São entrevistas, artigos e críticas cinematográficas em diálogo para reforçar o potencial de suas obras. Sobre os seus roteiros Amor à Queima Roupa, Assassinos por Natureza e Um Drinque no Inferno, Tarantino tem suas opiniões, narra o processo de criação e depois é analisado por especialistas.

As polêmicas com Spike Lee em relação aos debates raciais também são mencionadas, algo que já é pauta há algum tempo, mas que até recentemente foi tema de discussões numa palestra do diretor de Faça a Coisa Certa. Acusado de utilizar indevidamente expressões da cultura dos negros, Tarantino diz que cresceu envolto numa cultura que foi uma espécie de caldeirão de identidades, algo que forjou a sua personalidade artística, haja vista as influencias na música, na rádio, nos filmes e na própria região onde morava. Dono de um perfil enciclopédico, algo que pode ser comprovado diante do pastiche em Kill Bill, Tarantino ganhou com o livro uma respeitosa análise de sua produção.

Ademais, encontramos diversos tópicos ricos para compreensão da linguagem do cinema, dos esquemas que engendram uma produção, além das predileções do cineastas, dentre elas, os filmes fora do grande circuito, a paixão por Brian De Palma, a irritação ao ser acusado de alguém que é “somente violência”, dentre outros detalhes analisados em pormenores. Sobre a última questão, por exemplo, Tarantino aponta para Scorsese e questiona os motivos de considerarem os seus filmes “apropriados”, enquanto as suas sagas são tratadas como ode pura e única ao impulso da violência supostamente intrínseco aos seres humanos. Outro debate que o cineasta considera irritante é a diferença entre a violência real e a cinematográfica, algo que em sua opinião, não possui a influência mútua apontada por uma mídia pouco responsável e reflexiva.

À Prova de Morte e Bastardos Inglórios não são analisados da mesma maneira que os filmes anteriores, tampouco Django Livre, lançado um pouco antes da publicação, provavelmente já em fase final quando o filme foi anunciado. Talvez as 382 páginas da edição nacional pudessem ganhar atualização com uma análise aprofundada destes filmes, além de uma revisão do visualmente deslumbrante, mas tematicamente tedioso Os Oito Odiados e o badalado Era Uma Vez em… Hollywood, seu último filme nesta década.  Conteúdo adicional, caro leitor, é o que não falta.

Quentin Tarantino (idem, 2012)
Autor: Paul A. Woods
Editora no Brasil: Leya
Tradução: Santiago Nazarian
Páginas: 384

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.