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Crítica | Querido Evan Hansen

A parasitose emocional do gospel e do musical.

por Davi Lima
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hansen

A expressões emocionais de um filme sobre high school – os famosos coming-of-age – capturam muito espectadores e o diretor Stephen Chbosky gosta de se basear nisso para suas obras cinematográficas. As Vantagens de Ser Invisível foi sua porta de entrada de sucesso como diretor, havendo propriedade dele com o material adaptativo do filme, por ter escrito o livro-base para o longa-metragem. Na sua segunda empreitada, em Extraordinário, os tiques melodramáticos da sua direção ficaram mais explícitos, mas sendo um filme com temática infantil e imaginativo, o teor apelativo tem lá sua justificação. No entanto, com Querido Evan Hansen e o drama escolar vocalizando bem mais que seus teores musicais, o apelo emocional do diretor adiciona a camada de extrapolação dos momentos de canções diegéticas (que fazem parte da narrativa ficcional entre os personagens), tornando-as estranhamente não diegéticas. Nisso, se o filme coloca no dilema de viver uma mentira para ter interações sociais, o filme parece parasitar a memória cinematográfica de obras  gospel para o exagero dramatúrgico e de filmes musicais para aproveitar as boas canções  do gênero original.

A peça premiada com o Tony em  2017, escrita por Steven Levenson, é um musical que se fez diferente pela força de uma história escolar sobre um protagonista com ansiedade aguda, que vai transformando e expondo a ansiedade de todo um corpo de pessoas na escola e propondo uma mensagem de apoio emocional comunitário após a morte de um estudante. A narrativa chega a ser surpreendente pela maneira como as atitudes de Evan Hansen são moralmente questionáveis, mas dificilmente não convencem o espectador do seu desenvolvimento e crescimento como personagem em luta contra sua própria misantropia – aversão ao contato social. Os entrelaces das relações humanas no filme são metáforas de parasitoses de pessoas que querem confortar problemas emocionais em uma geração de jovens que se medicam muito cedo. Entretanto, essa parasitose nunca parece maldosa, são apenas personagens que vão se expondo nas convergências de narrativas com o protagonista nada sociável.

Esse conflito e esse modo de arranjo do roteiro de Levenson, parece perfeito para a direção de Chbosky, sempre envolvido em projetos onde  os coadjuvantes são quase protagonistas, pela sua capacidade de encaixá-los com profundidade no contar cinematográfico. Como um drama escolar, Querido Evan Hansen é assertivo em propor a adaptação de um produto teatral com recursos audiovisuais, mesmo que pareça se inspirar em filmes gospel, se entregando a estéticas estéreis em alguns cenários escolares e apelos propagandistas no tratar do mundo virtual. Quanto ao  que seria o diferencial, a música, soa até estranho pensar que o diretor tenha participado do roteiro de Rent, de Chris Columbus. O filme coloca a epifania sonora como último recurso, sendo as cantorias gravadas como um monólogo mais longo e mais estilizado, ou apenas uma conversa, praticamente a adaptação quase explícita da virada dos atores para a quarta parede do teatro. 

O longa-metragem incorpora bem o realismo e a fotografia imersiva que o cinema proporciona, para permutar o caráter teatral da encenação. Chbosky, em  sua experiência com cinema e literatura, entendeu a transformação da teatralidade que uma peça necessita para o audiovisual. Mas ele parece ter se esquecido que Querido Evan Hansen é um musical. Há uma clara confusão nos números musicais e no preciosismo do filme em compor os personagens com canções e contextos emocionais, uma falta de unidade tamanha que não se sabe até que ponto a música é discurso ou apenas internalização emocional. Por vezes, a imaginação é confundida com momento musical, por vezes, o cenário sem interação com a música é relevante, por outras vezes, o cenário parece irrelevante. Ao menos a montagem acompanha as batidas, mas até nisso há um “descálculo” com a fotografia, que figura visualmente desagregada das canções.

Fica difícil, dessa forma, manter a música como parte da narrativa, sempre criando um mínimo constrangimento, mesmo com o esforço de dois fatores lógicos da obra: a atuação e o conflito interno do protagonista. Ben Platt, que também atua na obra teatral original, interpreta Evan Hansen mais uma vez e consegue se por numa linguagem cinematográfica, sabendo entender sua dinâmica diante da direção de fotografia e dos novos planos visuais que dão uma parcela do drama sem a dramaturgia do teatro. Por ser um personagem de péssima sociabilidade, o seu ato de cantar acaba combinando, criando uma lógica desconfortável como efeito interno do drama de Hansen. Sem dúvida, Chbosky se acostumou em capturar o público com personagens deslocados socialmente, colocando o discurso emocional da história em campos simbólicos, visuais e semióticos mínimos que engrandecem o texto de qualidade de Sam Levenson.

Enfim, qualquer um que assistir à obra, por mais que tenha dificuldade de experimentar a torre de emoções de grau apelativo e parasita, desmoronando por ser muito alta, não termina de mãos vazias. Seja pelo contexto escolar bem desenhado, pela boa representação emocional dos jovens atuais e por fugir de alguns clichês em algumas linhas narrativas, Querido Evan Hansen se sustenta no limite da paciência do espectador em reconhecer as boas conexões dramáticas e textuais que a direção consegue montar. O impacto do twist entre o diegético ou não da música A Little Closer é um exemplo, e é claro, as músicas originais da peça produzidas pela dupla La La Land, Benji Pasek e Justin Paul, que conseguem fazer o pop melodramático no estilo O Rei do Show, mas infelizmente transborda num filme adocicado, mesmo tendo um cerne amargo.

Dear Evan Hansen (Dear Evan Hansen) – EUA, 2021
Direção: Stephen Chbosky
Roteiro: Steven Levenson, baseado na peça homônima do mesmo autor e nas letras musicais de Justin Paul e Benj Pasek
Elenco: Ben Platt, Julianne Moore, Kaitlyn Dever, Amy Adams, Danny Pino, Amandla Stenberg, Colton Ryan, Nik Dodani, DeMarius Copes, Liz Kate, Zoey Luna, Isaac Powell, Marvin Leon
Duração: 137 minutos

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