Crítica | Quicksilver – O Prazer de Ganhar

Trafegar de bicicleta pelas ruas das grandes metrópoles é mais saudável que o uso de carro? Sim, pois o meio ambiente agradece a diminuição da emissão de gases provenientes dos combustíveis e a saúde do usuário ganha mais manutenção com a prática de exercícios físicos. Essa é uma escolha mais segura? Não, pois sabemos que mesmo nas regiões com nível educacional mais avançado, o risco de acidentes depende bastante do fator humano, tanto do ciclista e seu uso de equipamentos para redução de danos como para o condutor de um automóvel que pode ceifar a vida de alguém a trafegar numa bicicleta, mesmo que a pessoa esteja seguindo adequadamente todas as regras, etc. O que faz, no entanto, o protagonista de Quicksilver – O Prazer de Ganhar, abandonar o conforto de seu carro para se tornar um entregador num serviço que dispõe de bicicletas para os seus “funcionários delivery”?

A resposta não está na busca pela saúde, tampouco na defesa do meio ambiente. No roteiro de Thomas Michael Domelly, também responsável pela direção, a escolha de uma bicicleta como meio de locomoção para a realização das atividades profissionais de Jack Casey (Kevin Bacon) está conectada a uma escala regressiva na evolução dentro da nossa sociedade capitalista, em expansão econômica vertiginosa desde sempre, mas com um mecanismo de mudanças e exigências bem peculiar nos anos 1980. O personagem, ao escolher esse meio para si, torna-se piada para alguns, recebe a desaprovação de outros, mas contorna as reprovações, bloqueadas para si mesmo, pois esta é a estratégia do filme de refletir a ideia de uma pessoa dedicada ao abandono de seus vícios numa vida valorizada apenas por questões materialistas.

Ele regride para o que o sistema exige, mas ganha pontos no quesito saúde mental, ao se distanciar da agitação que regia o seu cotidiano como um corretor bem-sucedido, mas que pela instabilidade do mercado, perde o capital acumulado durante alguns anos de sua vida ainda iniciante na fase adulta. Na aposta, perde o seu status e parte para uma função profissional que conforme as regras estabelecidas culturalmente, fazem parte de quem ainda está começando. Ao se tornar entregador da Quick Express, Jack Casey compra uma briga com o seu pai, desacreditado diante das escolhas supostamente regressivas do filho, preocupado com a sua dignidade como um homem mergulhado numa competitiva sociedade de acúmulo de capital.

Nesse cenário, ao menos, há espaço para a descoberta do amor, presente na figura da doce Terri (Jami Gertz), um dos suportes para a sua nova fase de incertezas. É um momento de aprendizado e de escolhas que definem a sua existência dali adiante, questões expostas numa narrativa que mescla romance, humor, aventura e drama familiar. Os personagens nos espaços concebidos pelo design de produção de Charles Rosen, segmento visual que adota a estética urbana dos anos 1980 com eficiência, tal como a edição de Tom Rolf, em diálogo com a linguagem do videoclipe e os referenciais que a MTV deixou como marca na hibridez entre o gênero audiovisual em transformação e as narrativas cinematográficas. A trilha sonora de Sony Banks colabora com essa sensação de videoclipe de 105 minutos, um efeito que mescla momentos interessantes e outros fugazes demais, sem espaço para execução dramática.

Econômico no quesito cenografia, haja vista a quantidade de cenas com o personagem as voltas pelas ruas com a sua bicicleta, o filme nos mostra que o seu protagonista não deixou para trás o desejo de competir, pois basta ver a maneira como circula perigosamente pela cidade para nós percebermos que os riscos ainda fazem parte de sua vida. A cena em que ele desce as escadarias de uma rua para cortar caminho, a travessia por uma movimentada via na contramão, num embate arriscado entre o bom senso e o desejo de aventura, etc. São várias as passagens onde o roteiro de Thomas Michael Domelly delineia o uso da bicicleta do personagem como metáfora para as suas escolhas, um mergulho no vazio das incertezas.

A irregularidade mais nevrálgica de Quicksilver – O Prazer de Ganhar é a sua caminhada narrativa com ritmo incerto, ora agitado demais, ora dentro do marasmo que entedia. A edição contempla bem as imagens da direção de fotografia de Thomas Del Roth, eficiente em especial nas cenas mais agitadas, tal como a perseguição que termina numa queda rocambolesca para o protagonista, uma das diversas passagens em que determinadas situações de ordem física deixam a alegoria de lado para investir numa abordagem mais escancarada da trajetória de Jack Casey, um jovem homem que precisa aprender a caminhar de novo diante das regras do jogo de uma sociedade regida pela competição, o que lhe faz engatinhar novamente, como nos primórdios de sua existência.

Lançado em 1986, o drama é erguido por meio de conflitos previsíveis, voltados aos problemas de Casey, uma representação individual que também pode ser pensada como questões próprias da geração yuppie da década de produção do filme, satirizadas, por exemplo, em Material Girl, um dos videoclipes mais emblemáticos de Madonna na época. Em sua nova empreitada, o protagonista larga a formalidade para investir numa caminhada que serve de ilustração para o que o mantra coach contemporâneo adora vomitar em suas abordagens psicologicamente superficiais dos reais problemas da vida, isto é,  as risíveis frases prontas do tipo “é preciso sair da zona de conforto”, ou então, “se a vida lhe der limões, faça uma limonada”. Ao fazer a sua, Casey ingere uma dose bem azeda de realidade ao confrontar seu concorrente Voodoo (Laurence Fishburne), outro entregador que lhe serve de estímulo para competir.

Cabe ressaltar que o protagonista interpretado com energia por Bacon sai da sua zona de conforto e decide não voltar mais depois da derrota. Mapeia para si novas estratégias, embasado por uma alta dose de segurança, sentimento arrancado das entranhas. Neste processo, redescobre a si, ao fazer amizade com Hector (Paul Rodriguez), inclusive ajudando-lhe a comprar o seu carrinho de hot-dog para ter o negócio próprio. Este é um dos pontos que nos mostram Jack Casey continua o mesmo em questões de caráter e comportamento, só a circular num espaço diferente, menos favorecido, mas ainda assim relativamente voltado para a competição constante. A sua nova rota, por sua vez, não é extremamente exigente, nem exala o desejo exclusivo por riquezas materiais, tendo como “essência” valorizar também os momentos mais singelos da vida. A mensagem é edificante, mas prejudicado pelo ritmo no viés entretenimento.

Quicksilver – O Prazer de Ganhar (Quicksilver, EUA – 1986)
Direção: Thomas Michael Domelly
Roteiro: Thomas Michael Domelly
Elenco: Kevin Bacon, Jami Gertz, Laurence Fishburne, Paul Rodriguez, Rudy Ramos, Gerald S. O’Loughlin, Louie Anderson
Duração: 101 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.