Home FilmesCríticas Crítica | Radioactive (2019)

Crítica | Radioactive (2019)

por Kevin Rick
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Apesar de ser um filme que está rodando pelo mundo do entretenimento desde 2019, Radioactive só chegou ao Brasil este ano, através da Netflix, e já fazendo um grande sucesso pelo seu mix de lançamento interessante, cinebiografia da famosa cientista Marie Curie e, claro, a intérprete da figura histórica no filme, a impactante Rosamund Pike. Confesso que não tive muito entusiasmo antes de começar a ver a fita, pois sempre inicio biopics com um certo ceticismo em relação a sua qualidade, pois muitos filmes desse gênero acabam se perdendo no dilema de contar a história de uma figura célebre e ter sua própria identidade artística.

E, infelizmente, Radioactive é mais uma cinebiografia que serve como imagem de compilado ou resumo dos principais fatos históricos da determinada pessoa em questão, esquecendo de existir enquanto Arte. A narrativa, que acompanha as descobertas científicas revolucionárias de Marie Curie, uma mulher que desafiou os preconceitos do seu gênero no meio científico e a falta de verbas e apoio financeiro para mudar a História da humanidade com a conquista dos elementos de polônio e rádio, é praticamente uma viagem segmentada pelos eventos mais importantes e polêmicos da personagem.

O roteiro da obra assume um caráter documental, quase que de forma amadora, pulando de grande evento científico para escândalos sexuais, sem nunca verdadeiramente assumir alguma proposta cinematográfica para contar a história da vida da Madame Curie. Tome como exemplo Steve Jobs, que equilibra as interessantes partes empresariais de Steve Jobs com seu relacionamento familiar, mais especificamente sua filha, como foco principal do estudo de personagem da figura real, ou então O Destino de Uma Nação, que captura determinados momentos da vida de Winston Churchill, e por aí vai, como a montagem detalhista sensacional em A Rede Social, o drama viciante e familiar em Rocketman, entre outros bons exemplos do gênero. Existe, em todos eles, uma ideia cinematográfica específica inserida na vasta história real do indivíduo em questão, e a biografia ganha sua proposta fílmica, mas Radioactive quer apenas ser um veículo audiovisual de uma página da Wikipédia.

O curioso é que os eventos da vida fantástica de Curie em torno da descoberta da radioatividade são tão interessantes que o filme acaba sendo assistível do ponto de vista da curiosidade. Seu relacionamento laboral e romântico com Pierre Curie (Sam Riley) consegue trazer uma certa textura emocional à protagonista, e o núcleo familiar consegue desenvolver um bom arco dramático ao filme, especialmente com a inserção de Anya Taylor-Joy no ato final da obra, sempre um deleite magnético de performance. E em outra nota positiva, gosto bastante da estética da película, que utiliza a iluminação – me senti vendo uma vela clareando as sequências – e o tom acinzentado para transpor o contexto histórico imageticamente.

Todavia, os bons visuais e o ótimo elenco não conseguem tirar Radioactive da sua lama de confusão temática, no qual a obra não decide se é um drama familiar – meu núcleo favorito do filme -; uma narrativa focalmente científica, já que a radioatividade parece em muitos momentos ser mais importante para o filme que nossa protagonista; a destruição pública de uma ícone mundial por causa de parceiros sexuais e as consequências inimagináveis de sua descoberta; ou então um drama histórico/guerra com os desdobramentos das bombas nucleares e a criação do raio-x para ajudar soldados feridos.

A cineasta Marjane Satrapi e o roteirista Jack Thorne decidem tomar o pior caminho possível para uma cinebiografia: querer contar tudo, sem nunca se aprofundar em nada. Um atropelo de eventos confusos e segmentados de uma figura histórica importantíssima e genuinamente interessante, que poderia ter ganhado uma obra audiovisual bem melhor em mãos criativas menos medíocres. Em seu melhor momento, Radioactive é um filme de curiosidades, nada além disso.

Radioactive – Reino Unido, EUA, França, 2019
Diretor: Marjane Satrapi
Roteiro: Jack Thorne (baseado Radioactive: Marie & Pierre Curie: A Tale of Love and Fallout, de Lauren Redniss)
Elenco: Rosamund Pike, Yvette Feuer, Sam Riley, Simon Russell, Sian Brooke, Drew Jacoby, Aneurin Barnard, Katherine Parkinson, Anya Taylor-Joy
Duração: 115 min.

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16 comentários

Críticas – Radioactive (2019), A Escavação (2021), The Morning Show (2019), Passageiro Acidental (2021) – Blog do Rogerinho 29 de abril de 2021 - 16:57

[…] Radioactive – Reino Unido, EUA, França, 2019Diretor: Marjane SatrapiRoteiro: Jack Thorne (baseado Radioactive: Marie & Pierre Curie: A Tale of Love and Fallout, de Lauren Redniss)Elenco: Rosamund Pike, Yvette Feuer, Sam Riley, Simon Russell, Sian Brooke, Drew Jacoby, Aneurin Barnard, Katherine Parkinson, Anya Taylor-JoyDuração: 115 min. […]

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Marco Antonio Schiavon 23 de abril de 2021 - 01:40

Achei excelente a crítica, exatamente o que uma crítica deveria ser, nos dar subsídios sobre o que é o filme para decidirmos se queremos vê-lo ou não. Há décadas gosto de ler críticas de cinema, eu era fã do Rubens Ewald Filho e comprava seus livros. Esta crítica atinge os melhores momentos dele.
Sou da área, já escrevi e dirigi curtas e comercias de tv, escrevi pra cinema e tv, estou finalizando meu primeiro longa e gostei muito da crítica. Parabéns ao Kevin, continue neste caminho q está indo muito bem.

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Kevin Rick 28 de abril de 2021 - 02:12

Muito obrigado, Marcos!

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Victor Almeida 22 de abril de 2021 - 21:15

Filme bisonho. A montagem do filme com cenas do futuro me pareceu constrangedora, ainda mais levando em conta que o filme abarcou mais de 30 anos da carreira dela. Essas cenas inúteis, que não passavam sentimento algum, poderiam dar espaço a história, que ficou corrida, apressada e que não fez jus a Marie Curie

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 22:48

Concordo integralmente. O filme não se compromete a nada, e fica abrangente demais, sem delinear uma história específica.

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Douglas Melo 22 de abril de 2021 - 13:22

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Josuel Rony 22 de abril de 2021 - 01:21

Crítica bem medíocre

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 22:47

Articule sua crítica medíocre!

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Marco Antonio Schiavon 23 de abril de 2021 - 01:38

Não concordo, achei excelente a crítica, exatamente o que uma crítica deveria ser, nos dar subsídios sobre o que é o filme para decidirmos se queremos vê-lo ou não. Há décadas gosto de ler críticas de cinema, eu era fã do Rubens Ewald Filho e comprava seus livros. Esta crítica atinge os melhores momentos dele.
Sou da área, já escrevi e dirigi curtas e comercias de tv, escrevi pra cinema e tv, estou finalizando meu primeiro longa e gostei muito da crítica. Parabéns ao Kevin, continue neste caminho q está indo muito bem.

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Andressa Gomes 22 de abril de 2021 - 01:11

Assisti com um pouco de curiosidade. Marie Curie sempre é uma figura lembrada, mas não a ponto de sempre me lembrar dela. Acrescentando com o fato de gostar da atriz principal, mas concordo com a crítica. Até pensei que fosse birra minha, mas achei meio lento e apressado em alguns momentos. A coisa mais desnecessária que achei foi durante o filme mostrar segmentos das bombas atômicas, na minha opinião deu uma quebra na história e a gente as vezes perdia até o raciocínio da cena anterior.
E outra_ se ela enfrentou adversidades por ser mulher, a gente quase não notou, no meu ponto de vista o único momento do filme que a gente percebeu a discriminação foi no começo quando os homens meio que expulsaram ela do laboratório e ela encontrar dificuldades em encontrar um.

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 20:06

Esse é o problema da fita, ela quer abordar tantas coisas e se torna desconexa, como no caso das bombas atômicas que você citou, e exatamente por isso não se aprofunda em nada, como na questão da discriminação. Típica cinebiografia mal pensada… Nunca idealizaram um filme, e sim uma homenagem.

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Elza Torquato Rennan Sales 21 de abril de 2021 - 21:32

Existe outro longa sobre Marie Curie, de 2016. Um pouco melhor.

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 01:03

Caramba, nem sabia! Obrigado pelo toque. Vou dar uma conferida depois.

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Diário de Rorschach 21 de abril de 2021 - 16:01

Mesma nota, achei bem fraco, poderia ter explorado mais as dificuldades de uma mulher ser cientista na época e mais da participação dela na primeira guerra mundial.

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Kevin Rick 22 de abril de 2021 - 01:03

Sim! Podia ter explorado algo com profundidade… Ele quer correr com a história completa da Curie e acaba não entregando nada interessante.

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Diário de Rorschach 23 de abril de 2021 - 22:24

Sim, bem fraco

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