Crítica | Rain Man

“O que você precisa entender é que, quatro dias atrás, ele era apenas meu irmão de nome. E essa manhã nós comemos panquecas.”

Uma jornada como a retratada em Rain Man possui, intrinsecamente, uma condição dramática poderosa, em vista do discurso que carrega por meio das nuances contidas em alguns tratamentos do cineasta Barry Levinson, além da ótima história que está presente no filme – uma sentimental obra com os alicerces fundamentados em uma família destroçada pela incapacidade de, no passado, ter se conectado verdadeiramente, portanto desmantelada pela vida. Um longa-metragem principalmente sobre a incomunicabilidade do ser humano sendo desfeita através de uma espirituosa jornada vivida por dois irmãos, percorrendo as estradas norte-americanas e reencontrando, por fim, algo maior do que a companhia dos seus próprios reflexos. Charlie Babbitt (Tom Cruise), enquanto estava no meio de uma negociação profissional importantíssima, recebe a notícia da morte do seu pai, prontamente se interessando por qualquer coisa que herdou da pessoa que por anos não conversou – uma possível confissão entristecida e orgulhosa, uma mea culpa póstuma assim esperada. O testamento do morto, contudo, mostra ser uma carta gélida a um garoto que se afastou, mas escrita pelo mesmo homem que nunca o amou profundamente.

Um pouco ordinário demais enxergar a personalidade de Raymond Babbit (Dustin Hoffman), irmão que o protagonista não sabia da existência e que possui o diagnóstico de autismo e também da síndrome de savant, como sendo a verdadeira faceta da incomunicabilidade ansiada pelo longa-metragem, acordada a essa perdição em um mundo próprio e específico. Raymond é um espelho de Charlie, em muitos sentidos, partindo da própria competência de ambos para conectarem-se a outras pessoas, um domínio que o personagem principal não possui, vide uma das primeiras cenas com o jovem dirigindo o seu carro, então questionado pela sua namorada de seu comportamento esvoaçado, pois compartilhava com a garota, até o momento, um desconfortável silêncio de mais de uma hora. O mote para a narrativa ganhar corpo também é naturalmente vago, sem ter uma natureza verdadeiramente racional, objetiva, porque, diante do que é dito pelo responsável pelos cuidados de Raymond, Charlie também “encontra dificuldades em expressar os seus sentimentos”. O relacionamento paterno não encontrou um desfecho redentor, pelo contrário, configurando-se a frustração como inerente a esse caso. Um misto de emoções e olhares desencontrados.

Raymond ganhou milhões de dólares, que o personagem, em decorrência de sua particularidade mental, não saberia nem como usufruir, enquanto Charlie ficou justamente com o carro responsável pelo seu distanciamento de seu pai – passado contado de uma maneira super expositiva. As justificativas do roteiro, tanto para a existência da roadtrip quanto para os caminhos percorridos pela narrativa, surgem coerentemente através das exoticidades, das particularidades incompreensíveis sob uma ótica comum, que rodeiam o personagem interpretado por Dustin Hoffman, artista recriando com muita competência uma caricatura que é transformada, afortunadamente, em verdade. O roteiro é encaminhado a partir de uma escolha pelo desconhecido, acerca de regras ainda não desbravadas por Charlie, mas não necessariamente convenientes a um conto maior, porque uma carga dramática sempre está acompanhada, reforçando o objetivo de, com a história, os irmãos se conectarem. Rain Man é uma obra com um poderoso argumento, movendo-se pelo “sequestro” de Raymond e um senso urgente pela aproximação. Uma pena que o roteiro seja problemático, diminuindo o excelente desconforto criado por Barry Levinson, com cortes, na cena da chuva, que rompem a comodidade do protagonista.

Raymond é uma justificativa para a roadtrip ao não conseguir viajar de avião, por exemplo – a cena em específico exemplifica muito bem o funcionamento desse mundo interno, que não é meramente aleatório, porém, pautado em estatísticas e precauções. Raymond também é uma justificativa para uma viagem mais demorada, possuindo considerável medo das rotas principais, assim como não se sente seguro caso esteja chovendo, recorrendo a outro atraso. Quando vários impedimentos já foram colocados na mesa, o roteiro não consegue movimentar os próximos acontecimentos de maneira coesa. Os poderes do personagem são repetidos sem real necessidade, como na cena que inspira Charlie a usar seu irmão como contador de cartas – uma atitude que não é desconstruída posteriormente de uma maneira verdadeiramente poderosa, para possibilitar o amor transcender factualmente. O passado é exposto de maneira burocrática, retirando um pouco da capacidade emocional do longa-metragem. Já a participação de Valeria Golino é deveras artificial, sumindo e depois retornando de um modo, agora assim, demasiadamente conveniente e oportuno para a narrativa. Quando os irmãos encostam as cabeças, em uma das últimas cenas do filme, uma jornada belíssima foi contada, mas não se sabe se da maneira mais orgânica possível.

Rain Man – EUA, 1988
Direção: Barry Levinson
Roteiro: Ronald Bass, Barry Morrow
Elenco: Dustin Hoffman, Tom Cruise, Valeria Golino, Gerald R. Molen, Michael Roberts, Bonnie Hunt
Duração: 133 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.