Crítica | Rainhas do Crime

“Agora nós que mandamos na vizinhança.”

O superior título original de Rainhas do Crime, uma adaptação dos quadrinhos homônimos do selo Vertigo, da DC Comics, é mais preciso em contextualizar o seu conteúdo. Em uma tradução ao pé da letra, transformaria-se The Kitchen, como os criadores da minissérie pensaram, simplesmente em A Cozinha. Assim, a ambiguidade anterior, que tanto marcava a ambientação da obra quanto a sua proposta temática, seria mantida. Pois ao mesmo tempo que o desenrolar da narrativa situa-se principalmente em Hell’s Kitchen, a Cozinha do Inferno, um bairro de Nova Iorque, os seus olhares também estão virados em direção a questões de cunho feminista. O trio de protagonistas, no caso, é composto por mulheres casadas por membros influentes da máfia irlandesa, mas que, após suas prisões, precisam sair de suas posições domésticas para conquistarem as ruas da região. Dessa maneira, o longa-metragem rapidamente mostra ambicionar a exploração do crime organizado e, consequentemente, as suas narrativas tão próprias, entretanto, com a peculiaridade de colocar mulheres nesses espaços e enxergar impasses particulares a esta mudança. Uma das músicas que inicialmente toca na obra já adianta que esse é um mundo de homens, controlado por homens. Os problemas começam quando a obra não consegue encontrar sucesso nem na exploração das suas temáticas individuais, nem na relação delas com esse gênero em questão: o cinema de crime.

Claro que traçar comparações com o cineasta Martin Scorsese, um dos mais aclamados artistas a abordar constantemente filmes assim, é um tanto injusto para uma cineasta como Andrea Berloff, estreante. Rainhas do Crime surge, porém, como uma promessa em repaginar o gênero que em pouco tempo prova ser desperdiçada. E os porquês residem em cada esquina, assassinados tanto em um escopo de sua execução quanto de sua proposta. Enquanto que a abordagem dos temas particulares dos quadrinhos originais distancia Berloff de Scorsese, o cinema que assina, em contrapartida, continua a ser do mesmo gênero. Porém, o empoderamento feminino, combinado à noção clássica de empoderamento perante a sociedade, aqui acontecendo por meio de violência, é menosprezado por uma jornada apressada e desalmada. O andar da carruagem permanece o mesmo: a estreante não é bem sucedida, por exemplo, em dar um ritmo ao seu longa-metragem, que anda em pernas episódicas e enfadonhas. A montagem vai costurando cena a cena visando uma progressão que se aproxima da televisão e o seu esquema burocrático de pensar plano a plano. Um capricho não há. Grande parte do uso de linguagem, na verdade, soa ter sido imaginado por um algorítimo, como as escolhas de músicas, as mais previsíveis e que surgem em momentos parecidos, para compor, sempre, transições narrativas que mais parecem vídeos musicais cafonas.

Em meio a tanta coisa que se atropela por conta de uma dinâmica pessimamente pensada, sobra a quantidade de questões mal exploradas. Como exceção, aquela que se sobressai minimamente – continua sendo no máximo mediana – é o romance entre a personagem de Elizabeth Moss e o de Domhnall Gleeson, pois os atores têm química. Qualquer tentativa de retomar o passado entre eles, no entanto, é desajustada a um respaldo dramático. Domhnall Gleeson, por sinal, ainda tem o desprazer de interpretar um personagem psicótico extremamente mal escrito, acompanhando uma reviravolta que meramente reitera a incapacidade da cineasta em trazer tensão precisamente construída. Moss, por sua vez, vive alguém com um desenvolvimento correto, até o ponto que a obra esquece o que pensar acerca de sua trajetória, preferindo apenas ignorar a mais explícita das jornadas de emancipação. Já quando tenta abordar aspectos menores, Rainhas do Crime acerta o seu próprio pé, especialmente porque existem muitas peças extras em jogo: a corrupção policial, a barbárie social, a violência contra mulheres, o racismo estrutural. O pior é a duração ser ainda bem “curta” para o gênero em questão. Já Tiffany Hadish até consegue manter uma pose instigante em cenas iniciais, mostrando um controle em cena curioso, sóbria. Mas os passos posteriores da sua personagem não cansam de repetir cansativamente estas mesmas ideias. Um arco real não existe.

De certo modo, a obra não possui uma premissa mais concreta, a não ser resumir-se em uma trajetória de poder de três mulheres que conquistam lugares em espaços, antes, tão masculinos. Para mascarar ausências dramáticas – uma construção que explorasse com sinceridade essa entrada repentina no mundo do crime -, restam sequências que unem cenas do cotidiano que as personagens assumem. O roteiro, contudo, é tão culpado quanto a direção por isso, vide os arcos narrativos mal-estruturados, os diálogos repetitivos e as soluções abruptas. Entretanto, Berloff também assina o texto, comprovando a sua culpa no processo – ou, pelo contrário, uma manivela de um estúdio desinteressado em qualidade. Nem a reconstrução de época é proeminente, por conta de uma cinematografia sem personalidade. No mais, mostra ser contraditório, assim como auto-explicativo dos problemas do longa, um comentário que parte de Kathy para o seu pai, acerca do seu arco narrativo. Melissa McCarthy, ademais, tem uma atuação lamentável, que não absorve a jornada da sua personagem. As suas expressões sempre são temorosas. Quando a obra já se aproxima do seu encerramento, a personagem afirma, na ocasião, que nunca se sentiu tão segura antes quanto se sente agora. Em vista, porém, da quantidade de gente que termina sendo morta no decorrer de Rainhas do Crime, segurança é uma das várias coisas que ela certamente não tem.

Por conta de momentos como esse, que contrariam aspectos anteriores e então os anula, Andrea Berloff termina concretizando um projeto completamente inócuo, que não sustenta nenhuma das suas premissas. Até os momentos de violência presentes perdem, assim sendo, os seus impactos, pois a grande verdade é que qualquer susto só existe em prol do susto. Os tiros disparados, que duram apenas milésimos de segundos, importam para um mero efeito momentâneo. Já as marcas causadas numa parede ou num corpo ou numa sociedade são desperdiçadas, ao passo que o enredo não consegue tratar com competência o embate entre as protagonistas e seus respectivos maridos. Em contrapartida, as consequências de suas ações não se materializam realmente, o que construiria uma ambientação problemática. Para um projeto que prenuncia repensar as obras de crime por óticas femininas, que tomam o protagonismo de papéis costumeiramente masculinos, o resultado é muito vago. Pouquíssimo se redefine, paralelamente, em relação às tais questões de gênero. Contudo, cede-se o espaço que pensaria as participações das mulheres em meio ao crime organizado e, no lugar, projeta-se um empoderamento insensível e vazio. Os estereótipos, mesmo sendo destruídos, não se reinventam em personagens coesos a novas propostas. Ou seja, cinema de máfia que busca renovar o ambiente, mas que não consegue nem mesmo ser cinema de máfia.

Rainhas do Crime (The Kitchen) – EUA, 2019
Direção: Andrea Berloff
Roteiro: Andrea Berloff, Ollie Masters
Elenco: Melissa McCarthy, Tiffany Haddish, Elisabeth Moss, Domhnall Gleeson, Common, Margo Martindale, Bill Camp, Brian d’Arcy James, James Badge Dale, Alicia Coppola, Jeremy Bobb, Stephen Singer
Duração: 104 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.