Crítica | Rambo: A Força da Liberdade (minissérie)

A impressão que eu tenho, relembrando a década de 80, é que ou tudo nascia como desenho animado e/ou brinquedo ou tudo se transformava em desenho animado e/ou brinquedo. Certamente minhas lembranças estão erradas, mas provavelmente não tanto assim e uma das maiores provas disso foi que, em meio à “Rambomania” causada por Rambo II: A Missão, de 1985, a Ruby-Spears Enterprises, produtora de Thundarr, o Bárbaro, Heathcliff e Marmaduke, Os Centuriões, dentre vários outros desenhos animados clássicos do final da década de 70 até meados dos anos 90, obteve a licença para adaptar Rambo para a televisão na forma de animação. Nascia, assim, Rambo: A Força da Liberdade que teve, em sua única temporada, nada menos do que 65 episódios.

Para testar as águas, os cinco primeiros episódios foram lançados nos EUA ao longo de cinco dias seguidos no mês de abril de 1986 e contavam uma história única, formando uma minissérie “introdutória”. Com o projeto dando certo, os demais episódios foram encomendados e lançados entre setembro e dezembro do mesmo ano, com a inevitável linha de brinquedos para acompanhar, evidentemente, linha essa que andou paralela à linha diretamente conectada com o filme, duplicando a oferta para os ávidos jovens que, como eu, queriam mais era massacrar soldados inimigos em brincadeiras sem a censura do politicamente correto que determina que armas de brinquedo são as causas para todos os males do mundo.

Como todo desenho da década, o cuidado com a animação em si era inexistente. Todos os personagens, com exceção de Rambo e isso porque seus cabelos esvoaçantes presos pela icônica faixa vermelha e o colar que ganhou de Co-Bao em Rambo II o marcam bem, são genéricos e quase que completamente fungíveis, mesmo entre vilões e mocinhos. É o bom e velho molde de um tamanho só que cabia tanto em G.I. Joe quanto ThunderCats, Silverhawks e seja lá o que mais aparecesse pela frente com personagens humanos ou humanoides. Mesmo assim, a série animada até consegue surpreender pelos detalhes usados nos panos de fundo e na tecnologia bélica e pelo bem-vindo uso da trilha sonora originalmente composto por Jerry Goldsmith.

Em termos de trama, tanto a minissérie em questão quanto praticamente todos os episódios seguintes partem da premissa básica dos filmes: Rambo (Neil Ross) é chamado para uma missão ou pelo Coronel Trautman (Alan Oppenheimer) ou por qualquer outra pessoa que precise de sua ajuda. Mas, bem diferente dos filmes – e para vender mais “bonequinhos”, evidentemente – lutam dois outros soldados: Turbo (James Avery), especialista em engenharia, motores e bólidos de todo o tipo e K.A.T. (Mona Marshall), especialista em disfarces e em artes marciais. Depois, outros colegas seriam adicionados, sempre na saudável estratégia de criar em crianças aquela irresistível vontade de azucrinas os pais até que mais um brinquedo fosse acrescentado à coleção.

Do lado de lá, os inimigos recorrentes são os vários integrantes do grupo S.A.V.A.G.E. (uma daquelas siglas com significados hilários como S.H.I.E.L.D.) liderados pelo pelo General Warhawk (Michael Ansara) e seu braço direito Sargento Havoc (Peter Cullen). Não preciso dizer que essa equipe é ainda maior e mais variada do que a Força da Liberdade (sério, esse nome é muito ruim!) de Rambo – parecendo a organização Cobra, de G.I. Joe, com os típicos exageros de rigueur, com seres cibernéticos, ninjas, motoqueiros, terroristas, etc. – com o precioso objetivo de arrancar dinheiro de pais incautos.

Em outras palavras, Rambo, aqui, torna-se um herói de ação unidimensional típico, exatamente o que Rambo II o transformou, mas com a desvantagem de não conter qualquer lembrança de sangue ou violência, já que as armas, nos desenhos, são enfeites que nunca acertam pessoas, só paredes e veículos. Mas, novamente, é uma animação oitentista baseada em personagem ultraviolento, pelo que não havia saída que não diluí-lo completamente ao ponto de ser quase irreconhecível.

Na minissérie inaugural, Rambo é chamado por Trautman para libertar uma republiqueta latino-americana batizada de Tierra Libre (nossa, quanta originalidade!) da opressão do S.A.V.A.G.E., que deseja conquistá-la a todo custo. Apesar de tematicamente ligados, cada um dos cinco episódios conta uma curta história completa, com começo, meio e fim, que invariavelmente começa com um plano dos vilões que é sistematicamente frustrado por Rambo e seus amigos. É a repetição, nos roteiros, da linha de produção para a criação dos personagens: é tudo igual, só trocando uma coisinha ou outra para apresentar a mesma coisa, só que com um verniz diferente. Novamente, trata-se de um padrão da época para esse tipo de animação e não há como esperar muito mais do que isso.

Rambo, obviamente, não era material para uma série de TV animada mirando o público infantil, mas isso nunca impediu que as produções continuassem como se fosse a coisa mais normal do mundo, vide as adaptações animadas de RoboCop, Conan e até mesmo do Vingador Tóxico e dos Tomates Assassinos. Afinal, criança também gosta de uma pancadaria descerebrada de vez em sempre…

Rambo: A Força da Liberdade (Rambo: The Force of Freedom, 14 a 18 de abril de 1986)
Direção: Charles A. Nichols, John Kimball
Roteiro: Mike Chain, Barbara Chain, Rowby, Goren, Jack Bornoff (baseado em personagens criados por David Morrell)
Elenco: Neil Ross, Alan Oppenheimer, James Avery, Mona Marshall, Robert Ito, George DiCenzo, Michael Ansara, Peter Cullen, Lennie Weinrib, Edmund Gilbert, Frank Welker, Russi Taylor, Dale Ishimoto, Michael Bell
Duração: 22 min. por episódio (cinco episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.