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Crítica | Rambo: Até o Fim

por Gabriel Carvalho
378 views (a partir de agosto de 2020)

“Eu quero vingança. Eu quero que eles saibam que a morte está chegando, e não há nada que eles possam fazer para impedir isso.”

Quando, no primeiro filme da franquia Rambo, um xerife ordenava que o personagem-homônimo, ex-combatente da Guerra do Vietnã, não perturbasse a paz da região, igualmente comentava que o homem não se interessaria por um lugar tão quieto e chato como era aquele. Em contrapartida a isso, obras subsequentes da, agora, pentalogia provaram o contrário, em meio ao combate interno do personagem entre o seu estado animalesco e o mais controlado. De certa maneira, a criatura passava por um auto-adestramento, que é exemplificado pelo começo de exemplares anteriores da franquia. Ora, isso não se distancia muito de outras trajetórias de outros nomes icônicos da cultura popular, como o Wolverine – vide o seu primeiro filme solo e o seu último. O chamado à missão, mesmo assim, que retiraria o homem do seu controle em prol de um outro objetivo, sempre foi uma constante na jornada de John Rambo (Sylvester Stallone), ao passo que um primeiro rejeito a ele também. Contudo, nessa quinta entrada da saga sanguinária de um dos maiores ícones da cultura popular estadunidense, o personagem já se inicia numa missão, em que precisa resgatar pessoas ameaçadas por uma tempestade. Logo, retrata-se aquele assassino do passado sem mostrar a sua violência, mas como um herói mais puro, que resgata e não mata. Rambo é outro alguém, que como uma passagem aponta, “mudou”. Ou ele apenas se controlou? O mundo, porém, é o mesmo.

O que, por conseguinte, distingue o longa-metragem dos demais da franquia é a crença que esta obra, em primeira instância, deposita nas conexões humanas apresentadas no enredo. Dessa vez, Rambo vive na casa que seu pai morou, habitada por uma outra família – de origem hispânica -, mas que ele considera ser a sua. Ele não mais se afastou da sociedade – como antes -, contudo, reintegrou-se nela. O protagonista restituiu a sua fé na humanidade, enxergando, principalmente em Gabrielle (Yvette Monreal), a sua sobrinha de coração, uma oportunidade do mundo não ser a desgraça que ele enxergou em tantas oportunidades diferentes da sua vida. Claro que as cicatrizes de guerra, por outro lado, permanecem visíveis. O personagem, por exemplo, não reside na casa principal do terreno, no entanto, em túneis subterrâneos que constrói há anos. A própria maneira, no mais, como Rambo segura em uma faca e garfo, na mesa de jantar, já indica a presença da raiva intrínseca a sua existência. No entanto, as dinâmicas propostas pelo primeiro ato do longa são competentes o bastante para contextualizar o cenário renovado a que o homem se submeteu. O cineasta Adrian Grunberg, no caso, encena muito bem esse início mais calmo, possuindo timing dramático e dando espaço às interações, importantes para justificar a transformação em Rambo e, assim, possibilitar os laços dramáticos que a reverterão, ressuscitando sua vertente mais primitiva.

A esperança reconstruída nesse começo serve, por isso, como uma prova derradeira para os seres serem – ou não – capazes de resistirem à violência. Pois com a descoberta de que Gabrielle quer encontrar o seu pai, que a abandonou e hoje vive no México, Rambo retoma suas preocupações de que esta inocência será perdida, agravadas quando a garota termina sequestrada por um cartel. Desse ponto em diante, contudo, o roteiro de Stallone e Mike Cirulnick, começa a se entregar a uma espécie de maniqueísmo que compromete uma imersão sincera no discurso proposto. Com exceção da jovem Gabrielle, Maria (Adriana Barraza), e uma repórter mal-colocada na narrativa, interpretada por Paz Vega, todos os demais personagens representam a maldade encarnada. Em oposição a um fatalismo bem construído, os elementos externos a Rambo e sua família acabam sendo diagnosticados como impuros prontamente pelo personagem – numa conversa – e, então, reiterados constantemente no decorrer da obra. Que o cartel de drogas seja maligno, mas, com o tratamento dado a outros coadjuvantes, a representação do mal torna-se uma caricatura, e Rambo, que não é nenhum mocinho, acaba consagrando-se como o mais santo dos personagens, o que impede o seu descontrole de representar a desesperança que a obra investe sobre a humanidade. O longa, por isso, não possui a maturidade necessária para programar tal ruptura sem a infantilizar.

Apesar da unidimensionalidade, por um lado, diminuir de modo substancial o impacto da jornada proposta – a retrato do México chega a ser nocivamente incômodo -, a violência prometida pelo nome que a obra carrega é antecipada de maneira precisa. No surgimento da primeira cena mais brutal, que não acontece de imediato na fita, compreende-se uma outra guinada para o arco de Rambo, que despedaça-se em completa desilusão. Do quase-pai preocupado com a sua garotinha, o personagem torna-se uma máquina de matar que se despe de seus traços humanos para se apropriar de uma vingança, mas não como meio de purificação e sim propositadamente sádica. John Rambo não quer expurgar a sua violência interna a fim de alguma recompensa, porém, a compartilhar. Há uma depressão subjacente, por isso, que consegue movimentar dramaticamente até mesmo os segmentos com as piores justificativas possíveis – o interesse de Gabrielle por rever o seu pai não tem muito respaldo. O longa, então, registra intensos segmentos de carnificina – que os espectadores à espera do gore irão celebrar. O suposto encerramento da trajetória de Rambo, portanto, busca chegar próximo da humanidade do personagem, que aparentemente morreu nas guerras que participou. Porém, no fim, o pessimismo de Stallone parece encontrar o seu ápice acima de qualquer outra coisa secundária, enquanto as últimas gotas de sangue são derramadas.

Rambo: Até o Fim (Rambo: Last Blood) – EUA, 2019
Direção: Adrian Grunberg
Roteiro: Sylvester Stallone, Matthew Cirulnick
Elenco: Sylvester Stallone, Paz Vega, Joaquín Cosio, Óscar Jaenada, Sergio Peris-Mencheta, Yvette Monreal, Adriana Barraza, Louis Mandylor, Marco de la O, Jessica Madsen
Duração: 94 min.

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28 comentários

Julio Rocha 4 de março de 2020 - 17:50

Assisti o filme por ser muito fã da franquia (obrigado vô 🙌). E gostei bastante. Já estou acostumado, desde o 2, que o Rambo é essa máquina, apesar de estar mais sádico. Achei apenas que aquela cena dele quebrando e arranco o osso do ombro do capanga encaixaria mais na forma de vingança após (sem spoiler) o que acontece. Ali seria o John se transformando em Rambo. Fora isso, a sequência no túnel é sensacional, principalmente seu desfexo no celeiro (spoiler no trailer, 😏😏). Enfim, não é o melhor filme da franquia. O segundo ainda é o q mais gosto, mas foi um belo filme.

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Fórmula Finesse 26 de setembro de 2019 - 10:17

Quando começou o massacre ao som de Five to One do The Doors (puro Vietnã), minha masculinidade tóxica já estava saindo pela garganta; espumando como um cão raivoso, temi pela vida dos poucos civis que dividiam a sala de cinema comigo – hahahahahahahah.
Achei o filme coerente com o personagem e seu legado, gostei de várias coisas, algumas nem tanto, nada do desastre que outras críticas teimaram em apontar.
O que foi coerente:
– Rambo voltou a ser “humano”, apresenta uma densidade dramática que não existiu no último filme por exemplo (lá tivemos apenas a sequência do pesadelo);
– Tanto criticaram a premissa da menina que foi atrás do pai, mas eu não achei nada tão ingênuo ou forçado; as proibições foram bem enfáticas da parte da vó e do Rambo. Não achei o fim do mundo isso ou que as atuações foram caricatas.
O que poderia melhorar:
– Faltou um pouco de “grandiosidade” para o filme; mais explosões, mais equipamentos, mais carros, caminhões explodindo, mais armas pesadas…faltou literalmente mais espetáculo. Tudo bem que o orçamento deve ter sido contido e a “diminuição” da franquia faz todo o sentido com o que o filme quer contar, mas enfim.
– Cenas escuras demais no túnel (dããã), cortes rápidos demais, projeção ruim do cinema (mal eterno, mas eu já sabia);
– A surra que tomou dos traficantes poderia ter sido melhor encenada, para entrarmos na vibe de vingança com mais entusiasmo (hehehe).
Gostei bastante:
– Criatividade nas mortes;
– Trilha evocando o Vietnã;
– Rambo em plena forma e mais ameaçador do que nunca apesar de aparentemente civilizado.
Considero como uma despedida honrosa do personagem, o filme diminuiu de tamanho mas ainda é Rambo.

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Luis F 25 de setembro de 2019 - 14:51

Só de olhar para o autor da critica, se vê que o mesmo não cresceu assistindo Rambo, um dos maiores ícones da cultura mundial, corrigindo o mesmo, afinal, lembro de minha infância onde todos os garotos queriam ser o Rambo, a gente amarrava uma faixa vermelha na cabeça e brincava de tiroteio, daquela época até hoje nenhum daqueles garotos que conheci virou bandido, nota-se também a influência do personagem em outras mídias, o personagem Bardock e Aioros, personagens de Dragon Ball z e Cavaleiros do Zodíaco, que usam faixas vermelhas, já foram admitidos por seus criadores, que foram inspirados no Rambo, assim como o jogo Contra e Asuka Warriors, todos esses produtos japoneses, denotando desta forma que o mesmo não é só um ícone norte americano, mas sim mundial. Digo que o autor não cresceu assistindo Rambo, não por preconceito, mas também pelo texto do mesmo, afinal, não há como ir assistir um filme de tal personagem sem esperar violência nua e crua e o tão em voga “gore”, afinal, desde sua primeira aparição o personagem matava os inimigos, que sim eram retratados unidimensionalmente, o que trazia maior graça ao personagem, pois não há nada melhor e mais reconfortante ao ver bandido, sendo dizimado e destroçado pelo herói, visão maniqueísta de mundo pode até ser, mas o mundo de hoje tenta embelezar o que é mau, dando a isto aspecto que é bom, quando não traz beneficie alguma, vivemos uma época em que ser bom é tido como mal e tudo o que não presta é retratado com as nuances mair positivas possíveis, mas continua sendo mau e prejudicial a todos.

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Gabriel Carvalho 2 de dezembro de 2019 - 01:52

O primeiro filme do Rambo você nunca deve ter assistido então, pois não existia essa tal unidimensionalidade que você cita como uma grande virtude do entretenimento. Eu não questiono a unidimensionalidade por si só, mas como ela é aplicada.

Por sinal, em comparação com a maior parte das críticas, que estão massacrando o filme, a minha avaliação é até relativamente positiva.

E eu já usei muita faixa vermelha na cabeça. Sempre que vou fazer trilha, finjo que sou o Rambo. Gosto muito de “Stallone Cobra” também.

Por fim, ninguém tenta embelezar o MAU.

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Alexssander Antonio Ferreira 3 de janeiro de 2020 - 22:06

A construção de vilões manequeistas e simplistas nunca sera vista com bons olhos pelo senso crítico, pq isso n passa de um ato de idealização do mau conceitualizado em si, enquanto algo que se torna forma e objeto concreto. É a simples atividade de subtrair a substancialidade e complexidade humana, para dar lugar a um ser inanimado e idealizado de um conceito ético-trancendental.

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CrazyDany 23 de setembro de 2019 - 20:19

Não consigo entender como chegaram nesse título, até o fim. Nada a ver com o original.

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Wagner Farias 26 de setembro de 2019 - 08:11

Se formos observar o subtítulo original, talvez faça mais sentido. O que foi traduzido como “programado para matar”, na verdade foi “first blood”. Então talvez com o “last blood”, quiseram dar aquela sensação de encerramento, fim do ciclo, se bem que não ficou muito certo disso com aquele final. Seria um encerramento mesmo se o personagem, a meu ver, morresse na cena final.

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Wagner Farias 23 de setembro de 2019 - 17:09

gostei do filme, Não fico “problematizando” as coisas. Gostei do filme, me divertiu, e isso pra mim já é o suficiente. Claro que achei algumas coisas muito inverossímeis, mas que já viu os outros filmes do rambo sabe que é assim. Achei estranho a facilidade deles em passar a fronteira, tanto de um lado como de outro. Vai ver por isso o Trump que colocar o muro.

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Jose Aquiles 22 de setembro de 2019 - 21:27

O fillme é bom! Lembra aqueles filmes de ação de antigamente (Mas muito mais violento) que o cara é o exército de um homem só. Não tenta se reinventar como Velozes e Furiosos que são quase super-heróis agora. Muito feliz em ver Sly com mais de 70 ainda na ativa.😉

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Roger Jr 21 de setembro de 2019 - 23:44

SPOILER
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Apesar de ter gostado da parte final, acho que o roteiro foi muito ruim.
Já que Rambo resolveu se “aquietar” e ajudar os outros, poderiam ter feito o filme naquela floresta do início do filme. Ele indo resgatar as pessoas e depois tendo que defende-las de animais selvagens e bandidos que estivessem atrás delas.
Seria mais coerente com a história do personagem.

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Carlos Bruno 21 de setembro de 2019 - 20:32

Tanta crítica em cima do filme que eu acho que vou ver, e a nota do site tá até boa.

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Genésio Cavalcanti Albuquerque 21 de setembro de 2019 - 08:29

Apelação em reviver o personagem de uma maneira tão sofrível feito essa, nenhum fã merece, decepcionante.

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Isaac 21 de setembro de 2019 - 19:39

Vc e o PSOL detestaram o filme.

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Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 21 de setembro de 2019 - 19:39

WTF

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Peter 22 de setembro de 2019 - 14:27

Tão usando a crítica desfavorável do filme pra alimentar a guerra contra a imprensa. É um nível de doença……

Responder
Acepipe Satã🐂GADO, O PARCIAL 22 de setembro de 2019 - 15:45

Tá osso…

Gabriel Carvalho 22 de setembro de 2019 - 21:57

Pior que a minha crítica é até positiva em comparação ao que a maior parte dos críticos estão achando… Vou virar símbolo da extrema-direita daqui a pouco, só por não ter odiado o filme…

jcesarfe 20 de setembro de 2019 - 13:29

Gostei, lembra os originais.

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Gabriel Carvalho 22 de setembro de 2019 - 22:05

Que bom que gostou.

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Big Boss 64 20 de setembro de 2019 - 10:04

Tá na categoria “não vi e não verei”. Nem todo mundo pode ser Logan.

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Jeremyah Valeska 21 de setembro de 2019 - 11:25

Logan não é nada perto de Rambo, esse sim é um herói.

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Big Boss 64 22 de setembro de 2019 - 02:14

Quando alguém mata por matar, perdeu o posto de herói automaticamente.

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Gabriel Carvalho 22 de setembro de 2019 - 22:05

Certamente.

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Douglas Pinheiro 20 de setembro de 2019 - 07:10

Mexicanos como inimigos mortais? Criatividade e bom senso passaram longe. Querer retrata-los, no atual momento, como retrataram russos e mulçumamos, por ex, eh no mínimo preguiçoso.

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Gabriel Carvalho 22 de setembro de 2019 - 22:05

Mas retratar russos e muçulmanos dessa forma também não é nada “certinho”. Ora, a paranoia comunista foi bastante alimentada pela produção hollywoodiana da época da Guerra Fria. Nem preciso comentar sobre os muçulmanos.

No caso desse filme, porém, não acho que ele queira objetivamente comentar algo sobre o México e afins. Eu enxergo como um uso fácil de estereótipo para concretizar uma ideia pessimista de que a humanidade não tem jeito – não necessariamente os mexicanos, apesar dos mexicanos serem usados da maneira simplista e problemática como é.

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Inominável Ser 19 de setembro de 2019 - 08:19

Inomináveis Saudações, Gabriel Carvalho!

Este é o tipo de filme para se assistir por via alternativa, online? Apesar de muita ação, o conteúdo parece deixar a desejar.

Responder
Gabriel Carvalho 22 de setembro de 2019 - 22:05

Olha, provavelmente. Eu não desgostei, mas reconheço que o meu olhar foi particular demais, ao menos em comparação com os outros críticos. Não sei como está sendo a reação do público, porém.

De qualquer maneira, se puder gastar um dinheirinho, recomendo que assista no cinema, que é sempre a melhor maneira, né, apesar de não ser a única.

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Inominável Ser 22 de setembro de 2019 - 23:19

Verei como assisto, somente para ter uma ideia do que inventaram agora com o personagem.

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