Crítica | Rambo: Até o Fim

“Eu quero vingança. Eu quero que eles saibam que a morte está chegando, e não há nada que eles possam fazer para impedir isso.”

Quando, no primeiro filme da franquia Rambo, um xerife ordenava que o personagem-homônimo, ex-combatente da Guerra do Vietnã, não perturbasse a paz da região, igualmente comentava que o homem não se interessaria por um lugar tão quieto e chato como era aquele. Em contrapartida a isso, obras subsequentes da, agora, pentalogia provaram o contrário, em meio ao combate interno do personagem entre o seu estado animalesco e o mais controlado. De certa maneira, a criatura passava por um auto-adestramento, que é exemplificado pelo começo de exemplares anteriores da franquia. Ora, isso não se distancia muito de outras trajetórias de outros nomes icônicos da cultura popular, como o Wolverine – vide o seu primeiro filme solo e o seu último. O chamado à missão, mesmo assim, que retiraria o homem do seu controle em prol de um outro objetivo, sempre foi uma constante na jornada de John Rambo (Sylvester Stallone), ao passo que um primeiro rejeito a ele também. Contudo, nessa quinta entrada da saga sanguinária de um dos maiores ícones da cultura popular estadunidense, o personagem já se inicia numa missão, em que precisa resgatar pessoas ameaçadas por uma tempestade. Logo, retrata-se aquele assassino do passado sem mostrar a sua violência, mas como um herói mais puro, que resgata e não mata. Rambo é outro alguém, que como uma passagem aponta, “mudou”. Ou ele apenas se controlou? O mundo, porém, é o mesmo.

O que, por conseguinte, distingue o longa-metragem dos demais da franquia é a crença que esta obra, em primeira instância, deposita nas conexões humanas apresentadas no enredo. Dessa vez, Rambo vive na casa que seu pai morou, habitada por uma outra família – de origem hispânica -, mas que ele considera ser a sua. Ele não mais se afastou da sociedade – como antes -, contudo, reintegrou-se nela. O protagonista restituiu a sua fé na humanidade, enxergando, principalmente em Gabrielle (Yvette Monreal), a sua sobrinha de coração, uma oportunidade do mundo não ser a desgraça que ele enxergou em tantas oportunidades diferentes da sua vida. Claro que as cicatrizes de guerra, por outro lado, permanecem visíveis. O personagem, por exemplo, não reside na casa principal do terreno, no entanto, em túneis subterrâneos que constrói há anos. A própria maneira, no mais, como Rambo segura em uma faca e garfo, na mesa de jantar, já indica a presença da raiva intrínseca a sua existência. No entanto, as dinâmicas propostas pelo primeiro ato do longa são competentes o bastante para contextualizar o cenário renovado a que o homem se submeteu. O cineasta Adrian Grunberg, no caso, encena muito bem esse início mais calmo, possuindo timing dramático e dando espaço às interações, importantes para justificar a transformação em Rambo e, assim, possibilitar os laços dramáticos que a reverterão, ressuscitando sua vertente mais primitiva.

A esperança reconstruída nesse começo serve, por isso, como uma prova derradeira para os seres serem – ou não – capazes de resistirem à violência. Pois com a descoberta de que Gabrielle quer encontrar o seu pai, que a abandonou e hoje vive no México, Rambo retoma suas preocupações de que esta inocência será perdida, agravadas quando a garota termina sequestrada por um cartel. Desse ponto em diante, contudo, o roteiro de Stallone e Mike Cirulnick, começa a se entregar a uma espécie de maniqueísmo que compromete uma imersão sincera no discurso proposto. Com exceção da jovem Gabrielle, Maria (Adriana Barraza), e uma repórter mal-colocada na narrativa, interpretada por Paz Vega, todos os demais personagens representam a maldade encarnada. Em oposição a um fatalismo bem construído, os elementos externos a Rambo e sua família acabam sendo diagnosticados como impuros prontamente pelo personagem – numa conversa – e, então, reiterados constantemente no decorrer da obra. Que o cartel de drogas seja maligno, mas, com o tratamento dado a outros coadjuvantes, a representação do mal torna-se uma caricatura, e Rambo, que não é nenhum mocinho, acaba consagrando-se como o mais santo dos personagens, o que impede o seu descontrole de representar a desesperança que a obra investe sobre a humanidade. O longa, por isso, não possui a maturidade necessária para programar tal ruptura sem a infantilizar.

Apesar da unidimensionalidade, por um lado, diminuir de modo substancial o impacto da jornada proposta – a retrato do México chega a ser nocivamente incômodo -, a violência prometida pelo nome que a obra carrega é antecipada de maneira precisa. No surgimento da primeira cena mais brutal, que não acontece de imediato na fita, compreende-se uma outra guinada para o arco de Rambo, que despedaça-se em completa desilusão. Do quase-pai preocupado com a sua garotinha, o personagem torna-se uma máquina de matar que se despe de seus traços humanos para se apropriar de uma vingança, mas não como meio de purificação e sim propositadamente sádica. John Rambo não quer expurgar a sua violência interna a fim de alguma recompensa, porém, a compartilhar. Há uma depressão subjacente, por isso, que consegue movimentar dramaticamente até mesmo os segmentos com as piores justificativas possíveis – o interesse de Gabrielle por rever o seu pai não tem muito respaldo. O longa, então, registra intensos segmentos de carnificina – que os espectadores à espera do gore irão celebrar. O suposto encerramento da trajetória de Rambo, portanto, busca chegar próximo da humanidade do personagem, que aparentemente morreu nas guerras que participou. Porém, no fim, o pessimismo de Stallone parece encontrar o seu ápice acima de qualquer outra coisa secundária, enquanto as últimas gotas de sangue são derramadas.

Rambo: Até o Fim (Rambo: Last Blood) – EUA, 2019
Direção: Adrian Grunberg
Roteiro: Sylvester Stallone, Matthew Cirulnick
Elenco: Sylvester Stallone, Paz Vega, Joaquín Cosio, Óscar Jaenada, Sergio Peris-Mencheta, Yvette Monreal, Adriana Barraza, Louis Mandylor, Marco de la O, Jessica Madsen
Duração: 94 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.