Crítica | Rambo II: A Missão

To survive a war, you gotta become war.
– Rambo, John J.

John Rambo era um soldado lutando contra o preconceito em uma cidadezinha americana em um filme realmente muito bom, um grande destaque nas produções oitentistas de ação. O sucesso da adaptação da obra literária de David Morrell levou ao inevitável: a típica continuação hollywoodiana que multiplica a pancadaria, as mortes, as explosões e a inverossimilhança em geral e, neste caso, transforma seu protagonista em uma invencível máquina de matar bem diferente da versão mais humana de Rambo – Programado para Matar. O resultado foi o capítulo mais lembrado e mais lucrativo da franquia e que terminou de vez de sedimentar a carreira de Sylvester Stallone como um dos maiores astros-brucutus daquela década.

Capitalizando em cima da Gerra Fria exatamente como em Rocky IV, do mesmo ano, o roteiro de James Cameron, que foi muito alterado pelo próprio Stallone, pois ele considerou demorado o início da ação propriamente dita, coloca Rambo de volta ao Vietnã, desta vez para resgatar possíveis prisioneiros de guerra. O assunto em si, mais do que a referida Guerra Fria, ainda era muito quente nos EUA, com a diplomacia e o Congresso americano debatendo sobre a alegada existência de americanos ainda nas mãos dos vietnamitas mesmo depois de tanto tempo do cessar fogo de 1973, o que certamente foi um dos fatores do sucesso da sequência.

Não há muito o que dizer da trama a não ser que Rambo, em um missão programada para não dar frutos, acaba realmente descobrindo prisioneiros e, traído por Murdock (Charles Napier), chefe da missão, apesar das súplicas do sempre temperado Coronel Trautman (Richard Crenna reprisando seu papel), é capturado pelos “coitados” dos vietnamitas e russos, que passam, ato contínuo, a morrer das maneiras mais hilárias possíveis, com facas, flechas explosivas, lança-mísseis e o que mais está acessível a Rambo no momento. Se o primeiro filme tinha apenas uma morte – e mesmo assim indireta – na continuação o freio de mão é soltado logo depois da primeira meia hora regulamentar de “diálogos” e não para até que, repetindo a estrutura da obra original, Rambo volte para onde tudo começou e quebre tudo para, em seguida, soltar outro monólogo de revirar os olhos, ainda que misericordiosamente mais curto do que a choradeira na delegacia.

Stallone está um monstro no filme. Seu físico invejável, além de momentos icônicos como a amarração da faixa vermelha na cabeça e sua calma em mirar a flecha no comandante vietnamita que erra todo os tiros, torna Rambo II: A Missão uma pérola divertidíssima do gênero “filme de macho dos anos 80“, quase no mesmo patamar do ainda imbatível Stallone Cobra do ano seguinte e do mesmo diretor.

Falando na direção, George P. Cosmatos faz o seu melhor, o que não é muita coisa, como de costume. O que vemos é uma colagem de sequências em alguma ordem lógica que preza os fogos de artifício e os enquadramentos heroicos, as poses icônicas e os momentos cirurgicamente feitos para o espectador vibrar com um punho no ar a cada vez que um soldado bandido é degolado, flechado ou explodido. Apesar do orçamento um pouco mais parrudo que do primeiro filme, o escopo do que é tentado exigia um pouco mais de dinheiro e bem mais cuidado para que todo o ônus narrativo não caísse somente na presença destruidora de Stallone anabolizado. Cosmatos não tem nem de muito longe o finesse de Ted Kotcheff e o ar de “filme B” é constante.

Até mesmo Jerry Goldsmith foi contaminado pelo “quanto mais, melhor” da continuação e sua ótima trilha sonora de Programado Para Matar ganha um remix por ele mesmo que defenestra a melancolia e reposiciona os acordes dedicados ao sofrimento de Rambo em um hino de ação desenfreada. Mas não se enganem, pois o compositor faz um bom trabalho em transformar sua própria trilha em algo completamente diferente, mas que carrega a memória sonora original, para criar uma continuidade que é mais suave no lado musical do que na transformação de Rambo em Super-Rambo.

Rambo II: A Missão é uma bobagem, mas uma bobagem divertida demais que marcou época. Se considerarmos o quanto de paródias e imitações o filme teve ao longo das décadas, é perfeitamente possível concluir que ele está entre os grandes símbolos de sua década, para o mal ou para o bem.

Rambo II: A Missão (Rambo: First Blood Part II, EUA/México – 1985)
Direção: George P. Cosmatos
Roteiro: Sylvester Stallone, James Cameron (baseado em história de Kevin Jarre e personagens de David Morrell)
Elenco: Sylvester Stallone, Richard Crenna, Charles Napier, Steven Berkoff, Julia Nickson, Martin Kove, George Cheung, Andy Wood, William Ghent, Voyo Goric, Dana Lee, Baoan Coleman, Steve Williams
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.