Crítica | Rambo III

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Rambo III é, substancialmente, Rambo II: A Missão só que passado no Afeganistão em vez de no Vietnã e isso torna ainda mais evidente a diferença que um diretor técnico faz para um filme que é, de outra maneira, mais uma continuação hollywoodiana típica, repleta de situações ainda mais inacreditáveis, explosões maiores, uma sequência de chavões hilários e, claro, atuações no mesmo patamar dramático de maçanetas de portas. Mesmo que a primeira continuação seja a obra mais lembrada, parodiada e financeiramente bem-sucedida da franquia, é essa segunda sequência que adiciona aquele algo mais apreciável depois, claro, do imbatível – e até incomparável – Rambo – Programado Para Matar.

A nova missão de John Rambo (Sylvester Stallone ainda mais musculoso), agora vivendo semi-pacificamente em um templo budista na Tailândia, é resgatar seu mentor e amigo Coronel Trautman (Richard Crenna) que é capturado pelo exército soviético ao tentar levar mísseis para os guerrilheiros afegãos durante a Guerra Soviético-Afegã. O exército de um homem só, então, ingressa no “Vietnã russo” e não só se mostra melhor soldado do que todos os mujahidin juntos, como também até melhor jogador de buzkashi em sua primeira tentativa. Nada inesperado, na verdade, já que chega a dar pena dos soldados da Spetsnaz tentando derrotar um sujeito que, como sessão de fisioterapia poucas horas depois de cauterizar uma ferida com pólvora retirada de uma bala, escala um paredão altíssimo sem ajuda de qualquer equipamento de alpinismo.

Surpresa mesmo foi esse filme funcionar, já que, nos bastidores, o roteirista original teve seu trabalho rejeitado, como Russel Mulcahy, que estava na crista da onda por ter dirigido Highlander dois anos antes, foi sumariamente demitido por Stallone e substituído por Peter MacDonald, um prolífico diretor de segunda unidade (com Alvorada Sangrenta e O Império Contra-Ataca no currículo) e  que, aqui, senta na cadeira de diretor principal pela primeira vez. Até mesmo o diretor de fotografia inicialmente contratado foi defenestrado no meio do tiroteio…

Seja como for, creio que Rambo III merece láureas técnicas justamente pela entrada de MacDonald, especialmente se compararmos seu trabalho à burocracia que George P. Cosmatos legou a Rambo II mesmo considerando o sem-número de cenas icônicas que o filme inegavelmente tem. O ponto é que essas mesmas cenas – quando eu disse que Rambo III é basicamente o II, não estava brincando – ganham outra roupagem com MacDonald atrás da câmera, com o diretor sabendo decupar muito bem cada cena e, com isso, oferecer tensão na medida do possível (afinal, Rambo é imortal), além de dar organicidade a cada sequência de ação.

John Stanier, na direção de fotografia, também não faz feio, trabalhando o jogo de luz e sombras na divertida sequência da caverna (que é o remake da sequência na floresta do filme anterior) e imprimindo uma paleta de cores árida como o deserto afegão (na verdade, do Arizona e de Israel) exige em um filme sem muitos arroubos criativos. É, sem dúvida alguma, o “pão, pão, queijo, queijo”, mas isso é muito mais do que se pode ver na produção anterior, por mais inesquecível que ela tenha se tornado.

O que o roteiro tenta fazer de diferente é inserir diálogos que têm o objetivo de trazer humor para a fita e é hilário ver cada um desses momentos falhar fragorosamente. Afinal de contas, Stallone, sem camisa, todo cheio de sangue, depois de matar centenas de soldados, soltando frases ditas cômicas não poderia ser mais engraçado. Ou vergonhoso, claro, se você for daqueles que sente vergonha alheia ao ponto de fechar os olhos e ouvidos a cada momento embaraçoso desses. Muito longe de vergonhosa, porém, é a trilha sonora que mais uma vez ficou ao encargo de Jerry Goldsmith e que novamente remixa o tema original de Programado Para Matar, ajustando-o ao escopo da odisseia rambônica que se desdobra perante nossos olhos e sem esquecer de emprestar toques orientais para tropicalizar seu trabalho.

Produzido nos estertores da guerra que retrata e também do comunismo soviético, Rambo III não teve a mesma atenção que a segunda parte da saga que aproveitou muito melhor o timing. Mas John Rambo chutando bundas russas no meio do deserto como se fosse mais uma quarta-feira na vida dele sob as lentes de um diretor que pelo menos conhece o lado técnico de seu ofício é impagável e, claro, diversão garantida para quem souber apreciar o melhor que os anos 80 têm a oferecer.

Rambo III (Idem, EUA – 1988)
Direção: Peter MacDonald
Roteiro: Sylvester Stallone, Sheldon Lettich (baseado em personagens de David Morrell)
Elenco: Sylvester Stallone, Richard Crenna, Kurtwood Smith, Marc de Jonge, Sasson Gabai, Doudi Shoua, Spiros Focas, Randy Raney, Marcus Gilbert, Alon Abutbul, Mahmoud Assadollahi, Yosef Shiloah, Harold Diamond, Shaby Ben-Aroya
Duração: 102 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.