Crítica | Rambo (Primeiro Sangue), de David Morrell

Rambo é, sem dúvida alguma, um dos personagens de ação mais icônicos da Sétima Arte e que ajudou a destacar a carreira de Sylvester Stallone como um dos grandes brucutus dos anos 80. Tamanho foi o sucesso principalmente dos filmes oitentistas da franquia cinematográfica que pouca gente sequer sabe – ou se lembra – que o primeiro filme, Rambo – Programado para Matar, foi baseado em obra literária de 10 anos antes, a primeira e ainda a mais famosa do autor canadense-americano David Morrell que, depois, escreveria as novelizações de Rambo II e Rambo III dentre muitas outras.

Tendo assistido o primeiro filme diversas vezes e lido o livro somente décadas depois, a contaminação da imagem de Stallone como Rambo é inevitável, mas farei o melhor para tentar separar as coisas. No entanto, já traindo essa premissa – mas creio que por uma boa razão, já que muita gente pelo menos terá curiosidade em saber – é interessante e surpreendente notar que a adaptação cinematográfica é estruturalmente muito próxima da obra original, ou seja, os acontecimentos que vemos no filme acontecem substancialmente na mesma ordem e na mesma cadência do livro, com ambos “John Rambos” sendo bem parecidos. Digo que isso é uma surpresa, pois o filme passou por diversos problemas na produção a ponto de Stallone ter pensado em evitar que ele fosse lançado, com a montagem de Joan E. Chapman salvando a empreitada, provavelmente porque ele se ateve a essa referida estrutura ganhadora.

Tomei o cuidado de deixar claro que a estrutura do filme é muito próxima à do livro, o que torna a leitura muito familiar a quem o assistiu. Mas as semelhanças param por aí, pois Morrell trabalha a violência e as mortes de maneira muito mais constante e gráfica. A história todos conhecem: Rambo, veterano da Guerra do Vietnã, está passando pelo condado de Madison, no Kentucky, quando o chefe de polícia pede para que ele entre no carro, dando-lhe uma carona até o outro lado da cidade e impedindo-o de permanecer no local. Há o óbvio preconceito do xerife em relação à aparência do ex-soldado e seu interesse em evitar problemas. Mas, ao tentar justamente evitá-los, ele os atrai, com o jovem recusando-se a deixar a cidade e entrando em conflito direto com a polícia e escalando tudo para uma literal guerra travada por um homem só contra o mundo.

Morrell, porém, acrescenta elementos que tornam toda a questão muito equilibrada, dificultando – no bom sentido – o trabalho do leitor em simplesmente eleger um lado para torcer, algo muito mais fácil no filme, claro. Para começar, mesmo considerando o preconceito do xerife Wilfred Teasle e o consequente aprisionamento de Rambo pelo crime de “teimosia”, a reação do veterano é explosiva e desproporcional, começando pelo assassinato de um policial ainda na delegacia para permitir sua fuga, completamente pelado, pelas montanhas. A partir daí, tendo já cometido um crime capital, Rambo metaforicamente espelha sua falta de qualquer roupa e despe-se de todo freio ético e moral e torna-se aquilo que ele foi treinado, ou seja, uma máquina imparável de guerra, tratando seus adversários como verdadeiros inimigos sem florear absolutamente nada. Mortes seguem aos borbotões, claro.

Além disso, Teasle, ele próprio, é um veterano condecorado da Guerra da Coréia, o que traz outra camada ao personagem, misturando uma espécie de orgulho ferido com a missão auto-imposta de caçar Rambo custe o que custar, sem medir consequências para seus subordinados ou para a cidade que protege. Os elementos psicológicos das motivações dos dois são bem trabalhados em monólogos internos que deixam evidentes os estragos causados pelas guerras em soldados e, como eu disse mais acima, equilibrando a “balança” na construção de personagens que são constantemente ambíguos, em tons de cinza, jamais classificáveis como isso ou aquilo de maneira tão categórica.

E o melhor de tudo é que o autor parece não se esforçar muito para conseguir seu intento, escrevendo um texto fácil de ler que descomplica todas as sequências de ação, tornando-as dinâmicas, um efeito que se propaga por todo o livro e que, se o leitor não cuidar, provavelmente digerirá em uma sentada só. Apesar da violência constante, esse não é o foco, mas sim a frivolidade da guerra, a ausência de vitoriosos em qualquer conflito dessa natureza, com um subtexto específico de crítica ao preconceito aos veteranos da Guerra do Vietnã. Rambo, lá no fundo, sabe disso e sua fúria é relativizada por dúvidas internas que, porém, são logo novamente soterradas por seu desejo de dizimar o inimigo. Teasle, mais velho e experiente na vida, ganha um bem construído passado que contextualiza com clareza quem ele é e o que ele tem a perder, mesmo que nada seja capaz de demovê-lo de seu próprio desejo de mostrar a Rambo quem é que manda ali. É como ver dois trens à toda velocidade em rota de colisão.

Mesmo para quem conhece o filme de cor e salteado, o romance merece ser conhecido e repercutido, por ampliar as discussões sobre a guerra e seus efeitos e por enriquecer tanto John Rambo e Will Teasle como interessantíssimos e complexos personagens. Apesar do tema pesado, a leitura é descomplicada e gratificante.

Comentário sobre as edições brasileiras: Li o livro no original em inglês, pois não o encontrei no Brasil. Até onde consegui pesquisar, ele foi publicado apenas duas vezes por aqui, em 1972 e 1988, originalmente ganhando o título Primeiro Sangue, tradução literal do título em inglês que, na verdade, faz parte de uma expressão que significa “quem provocou ou quem começou a briga” e, depois, com o lançamento do filme, sendo rebatizado simplesmente como Rambo. Hoje, aparentemente, a obra está fora de catálogo. Se alguém tiver informações diferentes, agradeceria esclarecimentos nos comentários.

Rambo ou Primeiro Sangue (First Blood, EUA – 1972)
Autor: David Morrell
Editora original: M. Evans
Data original de publicação: 1972
Editora no Brasil: Nova Cultural
Datas de publicação no Brasil: 1972 e 1988
Tradução: Wilma Ronald de Carvalho
Páginas: 232 (edição brasileira de 1972)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.